

(Em post anterior, tive a oportunidade de sublinhar a relevância
da obra que um dos mais importantes cronistas do Financial Times, Martin Wolf,
publicou recentemente, The Crisis of Democratic Capitalism. Tal como o referi
então, durante largo tempo demos de barato que a reprodução do capitalismo
evoluiria bem alinhada com a preservação da democracia, numa espécie de casamento
genuíno entre democracia económica e democracia política. Esse casamento representava
então uma réstia de esperança, numa era em que as ilusões utópicas à esquerda
se tinham dissipado e ruído com estrondo. Assim sendo, de mal o menos, teríamos
de conviver com o capitalismo e mitigar as suas profundas imperfeições, já que
teríamos, pelo menos, assegurada a democracia política. Martin Wolf mostra com eloquência que
esse tempo de ilusão está quebrado e, por isso, o tema tem sido um alfobre
imenso de debate e produção teórica. A Foreign Affairs de Julho/Agosto de 2023
abre o seu relevante palco ao economista Daren Acemoglu para uma recensão
crítica não só da obra de Wolf, mas também da obra de Pranab Bardhan, A World
of Insecurity. Acemoglu foi introduzido em Portugal pelo inefável ex-Ministro
da Economia Manuel Pinho, num tempo em que não eram ainda visíveis os seus
desmandos e conluios com Ricardo Salgado e ainda antes de ter feito corninhos
aos deputados no Parlamento. O economista do MIT não tem culpa dos desmandos do
seu hóspede e a sua obra é bem mais importante do que o fado dos desmandos de
Manuel Pinho.)
A recensão é
excelente e recomenda-se. A tese de Acemoglu é muito simples e incisiva. São
essencialmente as forças da desigualdade nas diferentes manifestações que ela
reveste e a proliferação das condições de insegurança que estão na origem da
crise ocidental. Através dessa crise, o capitalismo deixa de poder assegurar
como marca de água a preservação da democracia e dá origem a insuspeitadas
coexistência e coabitações mais ou menos estranhas, designadas em tom suave por
democracias iliberais, mas que podem ser caracterizadas com tintas mais escuras
e ameaçadoras. O autoritarismo está a fortalecer-se em muitas latitudes e o
fenómeno é bem mais variado do que o capitalismo repressivo de Estado à moda da
China.
Acemoglu refere
o alerta de Bardhan segundo o qual deveríamos possivelmente ter estado mais
atentos às palavras de Thomas Mann em 1938, através das quais ele referia o
perigo de se tomar a democracia como adquirida e garantida, sobretudo à medida
que as memórias coletivas das diferentes nações e povos começavam a esquecer aa
difíceis condições de construção da democracia. Particularmente o apelo à segurança
revela uma elevadíssima probabilidade de conduzir os indivíduos a aceitar desvios
antidemocráticos para proporcionar aos cidadãos uma sensação de segurança mais
robusta. E aí teremos a insegurança a servir de pano de fundo para o autoritarismo.
A associação
entre desigualdade e insegurança é relevante e tem sido pouco desenvolvida. A
razão para tal é intuitiva. Desigualdade e insegurança são realidades por si só
demasiado pesadas e influentes, pelo que será mais natural o desenvolvimento do
seu estudo evoluir separadamente do que propriamente apostando na
interdependência entre os dois fenómenos. E de facto, se pensarmos melhor, a
interdependência entre desigualdade e insegurança é manifesta, gerando efeitos
cumulativos inesperados, ampliando angústias e, mais do que isso, abrindo
caminho a toda a série de desvios democráticos.
Estou a escrever
este comentário à recensão crítica de Acemoglu e penso obviamente na profunda
confusão em que a sociedade francesa se encontra. Esta última assemelha-se cada
vez mais às zonas rurais e florestais em Portugal em barril de combustão
potencial. Situações étnicas e raciais combinadas com profundas desigualdades foram
o combustível propício para que uma polícia claramente não treinada para dissipar
concentrações potencialmente violentas e, pelo contrário, vocacionada para a
repressão mais ou menos violenta, acendesse o rastilho da morte de um jovem e
toda a sequência de reações em cadeia.
E o que é
mais espantoso é tudo isto acontece num país em que o Estado social não é coisa
morta e quando comparado com a sua ausência em países como os EUA parece não
funcionar como fator de desaceleração de conflitos. Além disso, o choque de
culturas, e a sociedade francesa é um verdadeiro laboratório para o
desenvolvimento dessa difícil coexistência, abre frentes irreparáveis de
insegurança cultural, por si também propícias à livre aceitação de fórmulas
anti-democráticas ou desvirtuadoras dos princípios democráticos fundamentais.
E, matéria pouco discutida, com exceção do filósofo Michael Sandel (Harvard), a
meritocracia parece ter falhado redondamente como fator de ascensão social (o
chamado elevador social) e ter antes ajudado a reforçar grupos de descontentes
cada vez mais violentos.
E fiquemos
com a síntese final da recensão de Acemoglu: “O
capitalismo democrático está sem dúvida em crise. Qualquer solução deve começar
com um foco na restauração da confiança pública na democracia. As pessoas em
democracia não estão de facto indefesas: existem vias para gerar um tipo mais
justo de crescimento económico, controlo da corrupção e reduzir o poder
excessivo das grandes empresas, como o economista Simon Johnson e eu próprio
defendemos. Isso não ajudará apenas a reduzir a desigualdade e criar as bases
para uma prosperidade partilhada; demonstrará também que as instituições democráticas
funcionam – assegurando que esta crise do capitalismo democrático não antecipará
o fim da democracia”.