sábado, 3 de junho de 2017

SAUDADES DO PASSADO


Valentim, Narciso, Isaltino, Fernando Costa, Joaquim Raposo (porque Seara não é, apesar de tudo, do mesmo filme), eis alguns dos autarcas anunciados como em vias de quererem regressar à ribalta. Quem andou não tem para andar? Isso é que era joia, dizem eles! Pelo que, para gente que convive mal com a passagem do tempo, só uma medida de limite de idade poderia evitar-nos o testemunho de mais figuras tristes e a ocorrência de desviantes prejuízos às contas eleitorais e aos respetivos beneficiários últimos...

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

DESENCAMINHARTE



Por uma vez, não será o meu amigo António Figueiredo que aqui vos falará do Alto Minho. Tudo por causa de um acontecimento notável que ontem se iniciou em Cerveira, com várias oficinas para crianças e uma especialíssima inauguração na Casa do Artista Jaime Isidoro, e que se prolonga até ao fim do dia de Domingo. Trata-se do “Desencaminharte”, um festival de arte pública em meio natural e rural promovido pela Comunidade Intermunicipal do Alto Minho – parabéns ao seu presidente e ao Júlio Pereira – e realizado nos 10 municípios que a compõem (Arcos de Valdevez, Caminha, Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte do Lima, Valença, Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira), em 10 locais distintos e improváveis – “um roteiro de descoberta alternativo” – onde acontecem 10 intervenções de 10 jovens artistas convidados (sob coordenação da curadora artística Virgínia Valente). Visando valorizar o Alto Minho como destino cultural e turístico, sinalizar e promover a descentralização da criação artística nacional e mobilizar a comunidade local e os visitantes para a natureza, a arte e múltiplas atividades ao ar livre, a primeira edição do “Desencaminharte” é mais uma pedrada no charco indiferenciador que alguns insistem em alimentar. Tempo ainda para recordar Jaime Isidoro (pintura mural de Ana Torrie) e lhe prestar um merecido tributo (na presença do filho Daniel) e para um agradável convívio com o simpático e hospitaleiro presidente da Câmara Fernando Nogueira. Abaixo, uns mapas úteis a quem queira partir à descoberta de vários tesouros perdidos e de outros ao seu lado criados.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

WHO KILLED SAM & TRACY?




(Acho que ainda estou um pouco atordoado com a visão do primeiro episódio do novo Twin Peaks, o mistério está de volta, estaremos preparados para ele?)

O título acima poderia ter sido alternativamente, Who Killed Ruth Davenport?. Mas o escolhi o primeiro porque ele corresponde à cena mais marcante do primeiro episódio da nova série do Twin Peaks de David Lynch. A expectativa era grande e nestas coisas não gosto de coisas gravadas na box da cabo lá de casa, gosto da edição em direto, partilhando a curiosidade dos que na noite de domingo passado, pelas vinte e duas, se sentaram em frente do TV Séries canal 80 da NOS. Era o regresso de Twin Peaks e esta maldita civilização urbana e do espetáculo tem destas coisas, vinte e seis anos depois, com aquele olhar de Laura Palmer ainda na memória visual, não era um regresso qualquer.

O primeiro episódio é Lynch no estado puro. Elementos de regresso ao espectro visionário das duas primeiras edições combinam-se com novos enigmas, anunciando neste primeiro episódio que Lynch vai manter-se fiel ao seu mundo, com aquele tempo lento que nos arrebata numa televisão que estamos habituados a associar a um tempo frenético.

O diálogo inicial entre o Gigante e o agente Cooper de fato preto é todo ele um enigma, com uma grafonola antiga produzindo um som para mim indecifrável. O diálogo inicial parece um tributo ao universo onírico das primeiras edições. Aparentemente teremos um agente Cooper duplicado, em que a réplica estará provavelmente possuída pelo espírito do mal Bob que teria estado na origem do assassinato de Laura Palmer pelo seu irmão. Mas não é seguro que assim seja.

O enigma do aparecimento de Nova Iorque é fascinante. Antecedida por uma imagem noturna esplendorosa da cidade, a cena é intrigante. Uma torre não identificada de tijolo acolhe, com a presença de um guarda, o que aparenta ser uma experiência. Uma caixa de vidro vazia domina a cena e um estudante contratado olha sistematicamente a caixa vazia. De quando vez uma câmara potente capta uma imagem da caixa de vidro e o estudante armazena essa imagem num reservatório digital qualquer. Aparentemente nada se passa no interior da caixa, mas intui-se que a dúvida, aparecerá ou não alguma coisa, dominará a cabeça do disciplinado estudante contratado. O contexto é alterado duas vezes: na primeira, o estudante Sam é avisado de que tem a visita de uma jovem Tracy que traz café e mostra intenções de penetrar na divisão em que se processa a experiência, que a presença do guarda e a relutância de Sam inviabilizam; na segunda tentativa, estranhamente o guarda está ausente e a jovem consegue demover Sam conseguindo partilhar com ele o espaço vedado, sentando-se ambos com o copo do café latte em frente à caixa de vidro vazia. Tracy desnuda-se e o par inicia uma aproximação de profundo e tenso conteúdo erótico, mas a curiosidade pelo que pode passar-se no interior da caixa de vidro mistura-se com a tensão erótica dos dois corpos, aliás numa cena belíssima. Dentro da caixa emerge uma figura indecifrável mas demoníaca (um humanoide?) que se intui destruir a caixa de vidro atacando e assassinando o jovem casal através dos salpicos violentos de sangue que se abatem sobre os rostos de Sam e Tracy e do som aterrador que marca a cena. Do melhor Lynch que já vi, numa cena que me tem martelado a cabeça estes dias da semana.

Num ambiente que me fez lembrar aquelas atmosferas indizíveis de Fargo dos irmãos Coen, a pequena cidade de Buckhorn no South Dakota acolhe o mistério de um novo crime, o assassínio de uma mulher, a bibliotecária Ruth Davenport em circunstâncias tremendamente enigmáticas que nos irão levar seguramente a uma espiral de mistério. Será Ruth Davenport a Laura Palmer nº 2? O ambiente de Twin Peaks regressa pleno e desafiador como sempre.

Por algumas semanas, as noites de Domingo não serão as mesmas.

(Corrigido em 04.06.2017)

A INTERROGAÇÃO DO MOMENTO

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

Raros cidadãos do mundo – faroeste excluído, bem entendido! – não fazem figas ou pedem a quem tenham por de direito no sentido de que seja meteórica a passagem terrena deste cometa decadente...