quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

AS MENSAGENS DE BOAS FESTAS


Percebo e obviamente respeito a sua necessidade, mas confesso que não sou particularmente apreciador dessa técnica de comunicação política que são as mensagens de Natal ou de Ano Novo, agora já não apenas circunscritas às oficiais e tradicionais mas acrescentadas de réplicas (que o Presidente já vem fazendo há alguns anos e o Primeiro-Ministro decidiu inaugurar este ano) em jornais de mais larga audiência, como o “Jornal de Notícias”.

No caso de António Costa, e assinando um texto que intitula de “Uma década decisiva”, a sua mensagem deste último tipo retomou naturalmente as grandes prioridades do Programa do Partido Socialista e, depois, do Governo. E quem poderá, em boa verdade, discordar que atenções especiais sejam concedidas às desigualdades (com sinais mais visíveis na violência de género e nas assimetrias regionais), ao ambiente, à demografia e à transição digital? 

Mas, e isto dito, convenhamos também que o mais complicado acabará por estar inscrito naquela velha asserção de o Diabo tender a esconder-se nos detalhes – sendo que, pessoalmente, bem gostava de ver esses tais detalhes mais discutidos para além de toda a sua aparente simplicidade e evidência, ou seja, melhor e mais conscientemente consensualizados na sociedade portuguesa.

Para além de que existe ainda a importantíssima questão de se avaliar como se podem concatenar, na coerência geral do proposto, os prazos associados às diferentes mensagens, i.e., as conjunturas de tempo curto (na palavra de António Costa deste ano, as falhas por resolver no SNS) com as estruturas de tempo mais médio e longo (as quatro desafiantes prioridades para o Portugal da próxima década).

Todo um conjunto de matérias a merecerem o devido foco por parte de quem pensa a realidade nacional e nela pretende intervir de modo efetivamente sólido e transformador. Voltarei à questão.

SERÁ QUE VAMOS TER ‘ARTILUGIO’?

(Conselho Nacional da ER)

(Artilugio foi o melhor equivalente que encontrei na língua espanhola para geringonça, talvez mais engenhoca do que geringonça, mas foi o que consegui, as minhas desculpas, sou principiante. A Esquerra Republicana acaba de aprovar o acordo para a sua abstenção na investidura de Pedro Sánchez e os dados estão lançados.  Será que vamos ter geringonça à espanhola, mesmo sem um equivalente do PCP?)

A comunicação social espanhola acaba de anunciar que o acordo entre o PSOE e a Esquerra Republicana foi referendado pelo Conselho Nacional da formação política catalã liderada pelo ainda em prisão Oriol Junqueras, ditando a sua abstenção na investidura de Sánchez daqui a uns dias.

Era o passo mais importante que tornaria possível o acordo que o PSOE conseguiu com mais oito formações políticas (UNIDOS PODEMOS e formações nacionalistas e regionalistas), abrindo caminho à implementação de um audacioso acordo de programa de governo que inclui a anulação de alguns aspetos da última reforma da legislação laboral, subidas de impostos para os mais ricos e grandes empresas, aumento significativo do salário mínimo e anulação da Lei da Segurança Cidadã ou Lei da Mordaça. Presume-se que, embora sem maioria absoluta e portanto só à segunda tentativa, Sánchez conseguirá finalmente a sua investidura.

Justifica-se que, para memória futura de considerações que as novas condições políticas em Espanha irão justificar, vos apresente a tradução do acordo agora tornado possível (os sublinhados ou carregados são de minha responsabilidade):

“ACORDO PARA A CRIAÇÃO DE UMA MESA ENTRE O GOVERNO DE ESPANHA E O GOVERNO DA GENERALITAT DE CATALUNHA PARA A RESOLUÇÃO DO CONFLITO POLÍTICO

As partes signatárias constatam que estão perante a oportunidade de desbloquear e encarrilar o conflito político sobre o futuro da Catalunha e estabelecer as bases para a sua resolução, pois existe vontade de diálogo para alcançar um acordo que permita superar a situação atual. O reconhecimento desta oportunidade, e a vontade e firmeza políticas expressadas por ambas as partes, permitem explorar e abordar a abertura de uma nova etapa baseada no diálogo efetivo, aberto e sincero e apostar no reconhecimento e entendimento institucional. Por tudo isso, em conformidade com os princípios de lealdade institucional e bilateralidade que regem o marco político de relacionamento entre o Governo de Espanha e o Governo da Generalitat da Catalunha, acordamos o seguinte:

1.      Reconhecimento do conflito político e ativação da via política para o resolver
Partimos do reconhecimento de que existe um conflito de natureza política em relação ao futuro político da Catalunha. Como qualquer conflito político desta natureza, só pode resolver-se através de canais democráticos, através do diálogo, negociação e acordo, superando a judicialização do mesmo.
2.      Criação de uma mesa bilateral de diálogo, negociação e acordo para a resolução do conflito político
Assumimos neste sentido o compromisso de criar uma Mesa de diálogo, negociação e acordo entre Governos, que partirá do reconhecimento e legitimidade de todas as partes e propostas e que atuará sem mais limites do que o respeito pelos instrumentos e princípios que regem o ordenamento jurídico e democrático.
Como instrumento político esta mesa assenta nos seguintes princípios:
(1)   Composição: o Governo de Espanha e o Governo da Generalitat da Catalunha. As delegações serão estabelecidas de modo paritário e com os membros que as ambas as partes decidam escolher.
(2)   Conteúdo: diálogo aberto sobre todas as propostas apresentadas. Todas as partes contribuirão com liberdade de conteúdos as suas propostas detalhadas sobre o futuro da Catalunha. E serão avaliadas, debatidas e argumentadas as posições relativas a cada proposta.
(3)   Calendário transparente: a Mesa iniciará os seus trabalhos no prazo de quinze dias a contar da formação do Governo de Espanha e fixará prazos concretos para as suas reuniões e para apresentar as suas conclusões.
(4)   Seguimento e garantias de cumprimento: a Mesa estabelecerá mecanismos para garantir o início e manutenção da sua atividade e cumprimento dos acordos.
Neste espaço deverão ser procurados acordos que contem com um amplo apoio da sociedade catalã. Neste sentido, ambas as partes se comprometem a impulsionar a concretização dos acordos que venham a ser assumidos através dos procedimentos oportunos. As medidas em que os acordos se materializem serão submetidas caso a caso á validação democrática através da consulta à cidadania da Catalunha de acordo com os mecanismos previstos ou que possam ser antecipados no quadro do sistema jurídico-político.
Esta mesa coordenar-se-á com outros espaços de diálogo institucionais e parlamentares já existentes ou que devam ser potenciados. Entre outros, a Comissão Bilateral Generalitat – Estado que consta no Estatuto de Autonomia da Catalunha e na Taula de Partits existente no Parlamento da Catalunha.”

Os dados estão lançados e uma nova dinâmica institucional vai iniciar-se, a que não será indiferente a sorte do Governo que venha a ser empossado. No acordo conforme podemos observar não há qualquer referência à libertação de Junqueras e outros políticos condenados.

Tenho a intuição de que a sorte do Governo, apesar de ser influenciada por uma caterva de outros fatores, vai depender bastante dos desenvolvimentos feste acordo.

Ninguém imaginava que a geringonça em Portugal durasse toda a última legislatura. Por isso não me atrevo a fazer prognósticos. A dinâmica política será fortemente indeterminada, mas será prudente admitir que poderemos ter surpresas como as tivemos em Portugal, mesmo sem um PCP espanhol e com nacionalistas ao barulho.

COMEÇAR O ANO



(Um começo de ano diferente, jantar entre amigos, talvez sofisticado demais para o meu gosto, mergulho numa baixa abarrotada de gente para tentar, é o termo, ver o fogo, ouvir o Miguel Araújo, frio que bastava e sobretudo a esmagadora evidência de que o Porto se transformou numa Cidade fortemente cosmopolita sem deixar de ser acolhedora, com estrangeiros jovens e mais velhos por todo lado e até brindei ao Novo Ano com uns italianos simpáticos, Auguri a voi. Mas é tempo de voltar à escrita que 2020 vai ser estimulante nessa matéria.)

Na manhã do 1º de janeiro (que saudades daquele jornal), regresso misturado com mais de 20 milhões de espectadores ao incontornável Concerto de Ano Novo em Viena, do qual ainda não perdi totalmente a esperança, por um ato de magia ou de uma escapada no Euromilhões, de usufruir, talvez em sonhos, tamanho é o glamour que irradia daquela sala, pelo menos segundo as lentes da já tradicional reportagem da Eurovisão. E como reconheço as minhas contradições, vivendo o melhor possível com as mesmas, associo o ambiente do Concerto de Ano Novo em Viena ao primeiro tema que escolhi para este ano, as ainda enormes dificuldades de medida da desigualdade da distribuição do rendimento.

De facto, atendendo aos preços a que chegam as entradas no Concerto de Ano Novo na prestigiada sala de concertos Musikverein, a grande probabilidade é que naquele espaço se encontrem algumas fortunas sonantes. Mas enquanto mergulho naquela transmissão em direto não é de economia ou política que se trata, mas apenas do puro usufruto de uma magia temporal. Este ano fiquei com a sensação de que tinha assistido a um dos melhores concertos de Ano Novo de sempre tamanha foi a condução do maestro letão Andris Nelsons, nada mais nada menos do que atualmente responsável pelas orquestras sinfónicas de Boston e de Leipzig (a famosa Gewndhaus). Fiquei por isso contente quando no dia seguinte o El País intitulava assim a sua notícia sobre o concerto. “Se puede bailar dirigiendo a los Strauss en el Concierto de Año Nuevo”.

Obviamente com os Strauss (Johann, Josep e Eduard, sobretudo os dois primeiros) fortemente representados, o concerto incluiu algumas outras preciosidades como as Contradanças do próprio Beethoven (atenção aos 250 anos para comemorar em grande em 2020), uma belíssima Gavotte de Joseph Hellmesberger e uma fabulosa Abertura da opereta Cavalaria Ligeira de Franz von Suppé que vou tentar encontrar seja em que gravação for, pois a edição do concerto ainda vai demorar uns tempos até aparecer no mercado. É uma boa maneira de entrar culturalmente em 2020, mesmo que à distância e sem estar entre os privilegiados que assentam o rabo naquela sala.

No Social Europe, com data de hoje, cinco grandes e ainda relativamente jovens economistas da desigualdade, Facundo Alvaredo, Lucas Chancel, Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman publicam um testemunho veemente, secundado por um conjunto bastante eclético de outros economistas, sobre a fraca qualidade da informação estatística que permite medir a desigualdade (não será certamente por acaso), com um título demolidor: “Escaping the inequality-data Dark Ages”. Citando: “Estamos ainda a viver na Idade das Trevas em termos de estatísticas da desigualdade. Mais do que uma década passada sobre a Grande Recessão e os governos ainda não são capazes de seguir com rigor a evolução da riqueza e do rendimento. As agências estatísticas produzem estatísticas sobre o crescimento do rendimento para a população como um todo (contas nacionais) mas não para as “classes médias”, “a classe trabalhadora” ou o 1% ou os 0,1% mais ricos. E numa altura em que a Google, o Facebook, Visa, Mastercard e outras empresas multinacionais conhecem pormenores íntimos das nossas vidas privadas, os governos ainda não captam, e muito menos publicam, as estatísticas mais básicas sobre a distribuição do rendimento e da riqueza”.

Daqui a importância do esforço que está a ser paulatinamente realizado em torno da World Inequality Database, reunindo mais de uma centena de economistas apostados em superar esta limitação atávica, que resulta do vasto período de trevas em matéria de integração dos temas da desigualdade na macroeconomia. E aqueles cinco economistas que assinam o artigo na Social Europe denunciam o efeito adverso que se abate sobre esta clarificação estatística a partir dos recuos de progressividade fiscal que se observam em muitos países, comprometendo também por essa via o acesso a informação relevante para compensar o atavismo das estatísticas nacionais.


Em coerência com estas posições, Gabriel Zucman, entrevistado pela extremamente perspicaz Heather Bouschey CEO do Equitable Growth Center de Washington, clama pela necessidade de umas Contas Nacionais Distributivas, apostadas em vencer as limitações das Contas Nacionais com que os economistas trabalham a macroeconomia em termos empíricos.

Eis um bom desafio para 2020, que consistirá em integrar plenamente as questões da distribuição e da desigualdade na macroeconomia vencendo o atavismo e inépcia de muitos anos, como condição necessária para entender o nosso tempo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

POR UMA NOVA GRANDE DÉCADA DE 20


Ao contrário do que percebi televisivamente ter acontecido nos centros das grandes cidades, sobretudo Lisboa e Porto, entre muito bulício turisticamente determinado e alguma folia cidadã, para mim o ano e a década entraram leve, levemente, como se chamássemos por eles. Ninguém sabe ao certo o que aí está para vir e as fontes de preocupação são múltiplas e variadas. Mas de algum modo intuí que uma entrada calma me reconfortava mais quanto aos imprevisíveis années folles ou roaring twenties que poderemos ter pela frente, sendo que o exemplo do século passado conteve bastos exemplos de marcada intensidade social, cultural e artística que de todo não excluiria recuperar para o nosso, embora naturalmente à medida dos novos tempos e desafios. Fica a ideia, ao cuidado de todos, e acrescento-lhe os habituais melhores votos de felicidades para quem de boa fé quiser vir dar o seu contributo para um tal desiderato – algo que, afinal, até merecíamos.

(William Steig, https://www.newyorker.com)

(Bernardo Erlich, http://www.clarin.com)