segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

ISABEL, A HERDEIRA EM APUROS



Na última quinzena, dispararam em praça pública as referências comprometedoras a Isabel dos Santos, a filha mais rica e mais empreendedora do ex-presidente angolano José Eduardo. Tudo a pretexto de uma investida do governo de João Lourenço em relação às origens dos ativos da empresária, com arresto decretado em Luanda dos seus bens. Uns falam de “caça às bruxas”, outros de “acerto de contas”, outros ainda de “justiça” a funcionar. Pessoalmente, apreciei a entrevista concedida ao “Público” sobre a matéria por Ricardo Soares de Oliveira (RSO), professor de Ciência Política em Oxford e coeditor da “African Affairs”, designadamente no que se reconduz à evidência de um consabido, prolongado e largamente ignorado processo de “extração de recursos de Angola”, assim como às de Lisboa como “praça-chave” desse processo e de um “comportamento bajulador” das elites portuguesas – tudo, aliás, denúncias por cá recorrentes em alguns meios e por parte de alguns comentadores insuspeitos (de José Pacheco Pereira a Ana Gomes).

Olhando em frente, o dito RSO sublinha, paralelamente, que Luanda terá de demonstrar “que há um verdadeiro compromisso para com a luta contra a corrupção, incluindo quando existem custos políticos e não apenas ganhos” (um desafio dirigido à liderança de João Lourenço, ele que também tem um passado, vários convertidos no seu círculo de apoiantes e muitos elementos internacionalmente monitorizados sobre os beneficiários concretos do processo em questão) e que a Portugal apenas “resta contribuir ativamente para este processo e disponibilizar toda a informação existente sobre bens ilícitos de pessoas politicamente expostas (...) e em relação a todas as pessoas sobre as quais existe essa informação e não apenas àquelas que os governos estrangeiros queiram almejar”. Um assunto que vai, seguramente, ficar na ordem do dia por longo tempo, tanto mais que a crise económica que se vive em Angola forçará a tentação de ser concedida uma acrescida atenção a tudo quanto possa ser capital político proveniente do anterior regime. A grande interrogação permanece, contudo, no grau de fumaça em que tudo isto vai acabar...

ALEXANDRA DOVGAN



(A Guilhermina Suggia estava ontem ao início da noite cheia de famílias com miúdos e miúdas de tenra idade para ver a menina prodígio russa, recomendada por Grigory Sokolov, Alexandra Dovgan. Não sei se terá sido um bom ato pedagógico de pais ou famílias. Explicarei porquê.)

Estava com tremenda curiosidade de assistir ao concerto inaugural do Ciclo de Piano de 2020 na Casa da Música. Anunciava-se a menina prodígio Alexandra Dovgan, recomendada por Sokolov um amigo e habitué da Casa da Música. Acho que nunca tinha presenciado um concerto com um génio precoce do piano e por isso estava curioso por perceber até que ponto o elogio de Sokolov e a força da Escola russa de ensino do piano.

Quero-vos dizer que é de ficar petrificado, perante tal hino à concentração e maturidade em palco, de tal maneira ímpares que, por vezes ao longo da atuação da Alexandra, me interroguei se a jovem era humana com os seus 12 anos. Por isso também me interroguei se aqueles pais e famílias que levaram ontem as crianças ao concerto atuaram bem ou se, pelo contrário, deram aos seus filhos uma imagem de inacessibilidade com resultados imprevisíveis nos seus processos de aprendizagem à portuguesa.

Arrancar o concerto com a Sonata nº 8 em Dó menor, op 13 de Beethoven, mais conhecida pela Patética, não é para qualquer um e dizem-me amigos que sabem mais disto do que eu que tocar Beethoven exige mãos que frequentemente não estão ao alcance de mãozinhas de crianças. O programa da primeira parte continuou com maior lirismo numa Fantasia-Improviso, Duas Valsas e quatro Mazurkas de Chopin, a partir do qual se começou a perceber que não era apenas virtuosidade o que Alexandra nos tinha para dar mas também uma sensibilidade que abstraindo de olhar para o piano poderia admitir-se que estaríamos ouvir todos menos uma criança de 12 anos apenas.

A segunda parte, toda ela em torno de Rachmaninoff, levou ao extremo essa combinação de virtuosidade técnica e de lirismo e dei comigo a pensar os duros sacrifícios que Alexandra deverá ter passado para atingir esta craveira. Dei também comigo a querer estudar a futura curva de aprendizagem desta miúda, pois partir aos 12 anos desta espantosa maturidade levanta todas as questões deste mundo como irá evoluir esta jovem para a perfeição.

Vejam-na aos 8 anos a tocar Chopin (link aqui).

Que outros meninos (as) prodígio estará a Escola russa a formar?

NÃO HAVIA NECESSIDADE!

(Imagens do debate da investidura com a deputada do EH Bildu a abandonar o palco depois da sua intervenção)


(Penosa é a única palavra que me ocorre para classificar a caminhada de Pedro Sánchez para a sua eventual investidura na próxima terça-feira. E, ao contrário do que poderia pensar-se, a margem de vitória na segunda volta da votação no Congresso de Deputados reduziu-se substancialmente para cerca de um deputado, sobretudo depois da tomada de posição da Coligação Canária em que uma deputada quebrou a disciplina de voto e anuncia votar contra a investidura.)

A Espanha vive momentos conturbados e isso não me agrada para além de poder revelar-se catastrófica para os nossos próprios interesses de país simultaneamente ibérico e europeu, mas cuja força de integração europeia seria fortemente lesada pela instabilidade permanente dos nossos vizinhos. Sou o primeiro a considerar que o esforço de Pedro Sánchez para retirar o problema catalão da via judicial em que o PP de Rajoy o colocou é meritório, constituindo aliás a única via possível para diluir a tensão que está criada. Pode dizer-se que essa diluição de tensão é meramente provisória, é tudo uma questão de tempo, pois o problema está lá e a dimensão do independentismo não dá sinais de esmorecimento, antes pelo contrário, e tem aliás a demografia a seu favor, pois a juventude catalã foi bem trabalhada, sabe-se lá em que condições. O acordo conseguido com a Esquerra Republicana, tirando partido da relativa rotura que existe entre a ER e as restantes forças independentistas ligadas a Carles Puigdemont, é um prodigioso equilíbrio da contenção possível. Tanto mais prodigioso quanto em plena negociação mais uma decisão judicial (indiscutível nesse plano) respeitante à destituição de Quim Torra da presidência da Generalitat por desobediência administrativa) vem aquecer de novo o ambiente.

Já quando Sánchez acena como argumentação os meandros de uma Espanha Federal emergem dúvidas mais sérias, pois continuo a admitir que uma Espanha das nações e das autonomias pode não equivaler necessariamente a uma Espanha Federal. Mas no contexto de uma negociação tão complexa (e tudo isto é apenas para assegurar uma investidura, imaginemos o que será o cenário de uma governação quotidiana nestas condições) invocar ou não o federalismo é coisa secundária, não me custa admiti-lo.

Mas assistir ao desenvolvimento da sessão parlamentar que conduziu à esperada evidência de que não existia em primeira volta espaço para uma maioria absoluta traz a sensação de uma penosidade em torno da qual pode questionar-se se o preço desta investidura não será demasiado alto para ser suportado.

De facto, mesmo sem conhecer os termos não publicamente divulgados dos acordos conseguidos para a abstenção de algumas forças nacionalistas, a contínua animosidade de algumas dessas forças, não apenas dirigida à esfrangalhada direita espanhola, mas também ao próprio PSOE enerva qualquer um e a única coisa que me ocorre dizer é que não me agrada aquele sorriso cínico amarelo de Pedro Sánchez. Assistir na dinâmica da investidura a posições como a do EH Bildu, agremiação diretamente emanada da ETA de má memória, mina qualquer acordo por mais prodigioso que seja, projetando-se naturalmente numa Espanha totalmente fraturada e anunciando uma legislatura de uma complexidade extrema.

Pelas bandas da esfrangalhada direita espanhola, as coisas não vão melhores. Tal qual Joana d’Arc revigorada, com uma presença cénica notável, Inés Arrimadas do Ciudadanos tenta em vão apelar aos barões do PSOE para uma última prova de desobediência para inviabilizar a investidura, tentando recuperar a ideia da aliança PSOE-PP- CIUDADANOS que o seu ex-líder e próximo Rivera desbaratou e comprometeu. Em vão.

Amanhã, se nenhum trânsfuga de última hora não aparecer, Sánchez lá conquistará a investidura talvez por um único voto de diferença e aposto que não haverá um espanhol por mais distraído e desinformado que seja que vá desconhecer o nome Teruel. É que se o deputado que representa o movimento em torno daquele símbolo da periferia (aragonesa) espanhola negar o apoio a Sánchez haverá um empate e tudo recomeçará de novo.

Mas a caminhada para a investidura talvez seja apenas um calvário que irá desembocar no inferno da governação, a não ser que a antecipação do regresso da direita ao poder provoque um súbito e inesperado movimento de responsabilização.

Para acompanhar com todas as ferramentas possíveis.

domingo, 5 de janeiro de 2020

NO FIO DA NAVALHA



(A operação autorizada por Trump de eliminação do Major-General iraniano Quassem Suleimani e, simultaneamente, de Abu Mahdi al-Muhandis, o líder da milícia Kata’ib Hezbollah, representa um acontecimento de consequências imprevisíveis e lança-nos simbolicamente na instabilidade de 2020.  Podemos discutir a génese de tal operação, que aparentemente estaria destinada aos chefes da milícia do Hezbollah e só muito em cima da hora se alargou a Suleimani, mas por detrás de toda essa discussão está a consumação do que muitos e há muito tempo avançavam, a perigosa imprevisibilidade do decisor Trump)

Comecemos por recordar as particularidades do regime iraniano, em que a simbiose entre o Estado e a poderosa liderança religiosa é em si perturbadora. Para além disso, o regime não é flor que se cheire, no que diz respeito ao seu apoio a forças e milícias com quem é difícil coexistir. Recordemos ainda que, após a decisão americana de abandonar o Iraque após a sua desgraçada saga em torno das putativas armas de destruição maciça de Saddam Husseim, a influência iraniana no universo político e social do Iraque não parou de aumentar. Mas convém ainda recordar que o combate contra o ISIS Estado Islâmico não teria sido bem-sucedido sem a preciosa colaboração dos iranianos, ansiosos também por quebrar a influência sunita naquelas paragens, combate esse em que a participação do agora abatido Major-General foi decisiva e amplamente reconhecida.

Acho que ninguém irá ser capaz de nos tempos mais próximos, incluindo os próprios americanos, de fazer prova do que foi alegado para justificar a eliminação de Suleimani, chefe da força de elite iraniana. Sob a sua liderança, os iranianos estariam a preparar uma onda de atentados contra postos e/personalidades americanas na região, na sequência da escalada iniciada com os recentes acontecimentos na embaixada americana em Bagdad, o que explicaria o seu regresso do Líbano em companhia de Abu Mahdi al-Muhandis. O Major-General iraniano não era uma pessoa qualquer, pois corresponde a um herói nacional em vida e não custa imaginar que a sua eliminação tenderá a recentrar de novo o apoio em torno da liderança religiosa iraniana, mesmo daqueles que espreitavam uma transição e mudança nos apertados interstícios de mudança que se anteviam em regime tão complexo e estruturado.

Eliminar uma personalidade deste calibre com base em argumentos de acontecimentos futuros ainda não demonstrados constitui um ato de guerra declarada e a declaração de Trump de que quiseram terminar e não iniciar uma guerra parece idiota. De uma assentada, finaram-se as esperanças de uma transição iraniana mais rápida em linha com alguns segmentos da sociedade mais urbana e aumentaram exponencialmente as condições para um agravamento da situação política naquelas paragens, sabe-se lá com que proporções e obrigando inapelavelmente os americanos a regressar à região com uma magnitude de efetivos que não desejariam associar ao processo.

E já que estamos a invocar putativos acontecimentos futuros, é tão estimável invocar a argumentação americana como presumir que a política interna americana, com impeachment à mistura e eleições à porta, pesou na decisão de Trump. Afinal, sabe-se que todo o repentista desatinado não consegue realizar análises custo-benefício para além do alcance do seu nariz, ou seja no plano imediato. Pela sua própria natureza, Trump é incapaz de pesar na balança da decisão toda a violência que a decisão de eliminar Suleimani tenderá a provocar. E por isso digo que aqui está, depois de algumas ameaças, a primeira decisão de Trump que demonstra os perigos da sua imprevisibilidade.

É claro que não podemos ignorar os antecedentes da decisão anteriormente assumida de incluir na lista do terrorismo internacional os Guardas da Revolução Iraniana, o que para efeito das condições em que a decisão é tomada não é indiferente. Mas de qualquer modo uma decisão desta natureza deveria ter sido tomada num outro contexto de ponderações que a personalidade de Trump é incapaz de assumir. E esse é que é o verdadeiro risco.

VIDA NOVA DE POIARES


Grande entrevista de Miguel Poiares Maduro ao “Público” de hoje. Com vários insights curiosos e até justos. Sendo que na maioria daqueles que têm a ver com aquela que foi a sua passagem pela governação, a reação mais ajustada será a de nos ficarmos apenas por um “Ai sim, ah!” e de seguirmos em frente sem mais delongas para não corrermos o risco de dizer coisas feias.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

AUSTRÁLIA DEVASTADA

(Klaus Stuttman, http://www.tagesspiegel.de)

A vida moderna é também isto: assistirmos de poltrona a situações de caos absoluto, sejam elas humanitárias, bélicas, terroristas ou motivadas por causas naturais. O que está a acontecer na Austrália tem tudo de uma descontrolada emergência ambiental em que, ao mesmo tempo que crescem as mortes, os desaparecimentos e as evacuações de pessoas e o volume das suas casas e haveres perdidos, é já de quinhentos milhões o número de animais mortos e de mais de 5,5 milhões de hectares a dimensão dos terrenos e propriedades ardidos. Uma catástrofe histórica (this is like a climate crisis looks like) e que prossegue sem fim à vista (“o fogo criou um inferno que ninguém sabe como travar”), mostrando à saciedade a pequenez do Homem e a estupidez de muitos homens poderosos mas absurdamente irresponsáveis.