segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

QUE ESQUERDA ENFRENTARÁ TRUMP?



Abre-se hoje uma nova e decisiva fase do processo de nomeação do candidato dos Democratas à Casa Branca. Visando a tarefa quase impossível que é a de derrotar o instalado Donald Trump – porque este, apesar de não ter sido o mais votado pela população quando venceu 2016 a democrata Hillary Clinton, de ser detentor de um índice de aprovação (45%) oito vezes inferior à média do registado pelos candidatos americanos desde 1938, de ter governado com sucessivos escândalos (incluindo a condenação de seis dos seus ex-assessores em processos ligados à interferência russa nas eleições presidenciais) e de ter sido o terceiro presidente da história a enfrentar um julgamento político (o recente impeachment) – continua a apresentar-se como claro favorito (seja na medida em que é clássico que o ocupante do poder parte sempre com vantagem para qualquer reeleição (a velha questão de uma derrota do dito ocupante resultar mais de erros seus do que de méritos adversários, confirmada no caso dos EUA pelo facto de apenas três presidentes terem sido derrotados nas urnas, Ford em 1976, Carter em 1980 e George W. Bush em 1992), seja na medida em que Trump cumpriu o essencial das suas promessas mais conservadoras e nacionalistas (nomeações de vária ordem, reduções de impostos, diminuição das regulações mercantis, mudanças na política externa, migratória e comercial, apenas lhe tendo escapado o rocambolesco muro na fronteira com o México), seja na medida em que a clubite do rótulo partidário tem tradicionalmente um peso determinante nas escolhas dos eleitores americanos, seja na medida em que Trump é um trucidador incessante e sem escrúpulos a denegrir os opositores e a explorar as suas fraquezas em campanha, seja sobretudo na medida em que a situação económica o favorece (forte crescimento do PIB e significativa criação de emprego, taxa de desemprego mais baixa dos últimos 50 anos, endurecimento face à China seguido de alguma água na fervura da guerra comercial, tudo elementos que com outros contribuem para uma leitura positiva do mandato presidencial por parte de 76% dos americanos).

(Damien Glez, https://www.cagle.com)

(Damien Glez, https://www.cagle.com)


O que ocorre hoje é o caucus mais famoso das eleições presidenciais nos EUA, o qual abre há décadas as corridas dos aspirantes à designação nos dois partidos dominantes do sistema político. “Tudo começa em Iowa!”, afirmou no Sábado o senador Bernie Sanders, ele que é o segundo maior favorito nacional à nomeação e o primeiro classificado nas opções do Estado em causa. Bernie é o lado mais à esquerda de todos os candidatos do Partido Democrata, defendendo uma autêntica revolução política com vista ao proclamado objetivo de um país mais igualitário e tendo um especial apoio nas camadas mais jovens da população, enquanto Joe Biden (que lidera a nível nacional) se apresenta como uma possibilidade mais centrista e moderada e Elizabeth Warren como uma solução de compromisso entre os dois ao comando (uma espécie de “terceira via” com bocados programáticos de um e de outro, ora mais radical ora mais sistémica), surgindo ainda com alguma representatividade os nomes do milionário Michael Bloomberg (apenas ou principalmente a força do dinheiro?) e do heterodoxo Pete Buttigieg (aqui homenageado, em imagem acima, pela sua corajosa insistência e combatividade). Em suma: ainda sem um líder claro (últimas sondagens abaixo, mostrando Warren em forte queda desde o último trimestre de 2019, Biden estacionário no mesmo período e Sanders em boa progressão), os Democratas têm de se definir urgentemente para depois se focarem na sua própria unidade contra o perigo maior, embora nada indique que tal lhes proporcionará o desejável sucesso – e quem, não obstante, estará em melhores condições para incomodar Trump? Bernie, Joe ou Elizabeth, aceitam-se apostas!

ENTRETANTO, NO CONTINENTE

(Pierre Kroll, http://www.lesoir.be)

Teremos de convir que – lá no fundo, no fundo – a dominante reação continental em relação ao Brexit recém-ocorrido tenha sido, na melhor das hipóteses, a dúvida metódica que o cartunista ilustra. Seja porque os britânicos são e sempre foram estranhos e arrogantes, seja porque os britânicos nunca estiveram de corpo e alma na União e nunca terão sido bons intérpretes do projeto europeu, seja porque sem os britânicos a Europa irá ganhar em unidade e foco e cerrar fileiras. Nem tudo premissas válidas, ou pelo menos inquestionáveis, mas boas maneiras de exprimir alguma vontade de compensação em relação ao sentimento de perda que responsavelmente ninguém por cá poderá deixar de ter interiorizado.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

CORONA-GLOBALIZAÇÃO

(A replicação do novo coronavírus, denominado 2019-nCoV, Universidade de Hong-Kong, com a devida vénia ao Expresso)


(O mundo está mergulhado numa grande contradição. A globalização já viveu melhores dias e, tal como repetidamente tenho alertado neste blogue, o populismo capturou a crítica à globalização e o recuo acontece pelos piores motivos. Mas o risco de uma pandemia em torno do Corona vírus veio mostrar que afinal a componente menos influente do avanço da globalização nos anos 80 e 90, a globalização das pessoas, conta e que os sistemas preventivos de saúde devem trabalhar a questão com mais eficácia.)

Muito antes do populismo colocar as suas garras na crítica da globalização, economistas como Dani Rodrik alertaram atempadamente que as mudanças observadas no processo de globalização na segunda metade dos anos 90, mais do que um aprofundamento natural do processo, representavam uma mudança de modelo.

Rodrik recordou recentemente o significado desse alerta numa série de testemunhos sobre os rumos atuais da globalização reunidos pela Bloomberg:

“A globalização assumiu após os anos 90 uma tónica distinta, com acordos comerciais mais intrusivos e fluxos financeiros menos controlados. Isso não representava apenas mais globalização; era um modelo diferente que colocava as empresas – companhias multinacionais, a grande farmacêutica e os bancos internacionais – na condução do processo. Deu prioridade à integração dos mercados em detrimento de objetivos mais fundamentais tais como como uma prosperidade mais amplamente partilhada e segurança económica.
Quer a teoria económica quer a história mostraram que isso representava um tipo insustentável de globalização e isso ficou provado. A integração económica internacional aconteceu às custas de desintegração interna, aprofundamento de assimetrias económicas, espaciais e culturais entre vencedores e perdedores. Foi também antecipada a irrealista e não fundamentada expectativa de que as abordagens regulatórias da globalização abram uma margem de manobra às nações para reconstruir os contratos sociais internos.”

A captura populista da crítica ao processo de globalização tem conduzido ao seu recuo interrompendo a manifestação dos aspetos mais positivos da globalização.

Mas, contradição das contradições, o mundo está irremediavelmente globalizado e conectado e pelas piores razões, questões epidemiológicas de saúde, lançam o caos. Talvez o mundo tenha precipitadamente antecipado o fim de muitas doenças e, por exemplo, a perturbadora gripe das aves perturbou mais o regime chinês do que qualquer outro movimento no período após o abalo de Tiananmen. O mesmo parece estar a acontecer com a explosão do Corona vírus, sempre com o contraponto de que um regime autoritário como o chinês exerce um poder de bloqueio e de imposição de cordões sanitários e quarentenas inconcebíveis noutros contextos. Mas apesar disso e por questões organizacionais que o poder de comando e imposição não consegue disfarçar compreende-se rapidamente a dimensão do problema.

A influência das viagens e viajantes na propagação de doenças e epidemias é quase tão velha como o mundo e os historiadores referenciam já no século XIV na República de Veneza os primeiros processos de quarentena em torno da chamada Peste Negra.

Mas a contradição resulta do facto da chamada globalização humana, os fluxos de pessoas, terem sido até há bem pouco tempo a dimensão menos avançada da globalização. O desenvolvimento das incidências do corona-vírus mostra uma outra coisa: a relevância crucial dos processos cooperativos entre as organizações mundiais de saúde, mostrando que uma globalização mais cooperativa será sempre preferível à que se desenvolve através de processos “beggar-my-neighbour”, ou seja tentando resolver o nosso problema à custa do vizinho ou do parceiro.

E também não deixa de ser irónico que o foco iniciador de um problema de saúde desta natureza resulte no fundo de questões culturais enraizadas, combinadas com a trágica incidência da pobreza, mais propriamente a proximidade entre humanos e animais. Talvez fosse útil pensar nestes ensinamentos básicos de um processo com estas proporções.

A CRUELDADE DOS NÚMEROS



(Eu sei que, face aos ensinamentos do passado, o modelo de aposta nos não transacionáveis que os famigerados “vistos gold” ocultam não se recomenda a ninguém. Mas há por aí umas mentes peregrinas que, saudosas do aparente fausto que aquele modelo proporcionava, se esfalfaram por trazer para norte essa “pérola”. Mas a crueldade dos números deveria justificar um completo reset, dos que fazemos quando as máquinas se recusam a funcionar.)

O modelo dos não transacionáveis deu emprego a muita gente, lucros chorudos a alguns e criou no país a típica ilusão dos El Dorados deste calibre. Como o modelo se projeta sobretudo em imagens urbanas de grande expressão, o português médio gosta de obra e da alta, mesmo que tenha frequentemente que sofrer os dissabores quotidianos de estaleiros quase sempre organizados sem grande respeito pela invasão do espaço público e das suas amenidades.

As vicissitudes da transição entre as décadas de 2000 e 2010 e a penosidade do ajustamento que se lhe sucedeu mostraram as contradições entre os ganhos de alguns e a má alocação de recursos que o modelo tendia a gerar.

A economia portuguesa que emergiu dessa longa fatalidade apresentou-se à míngua de capital e de investimento e é nesse contexto que se pode compreender a submissão ao pilim do capital angolano e chinês e também a invenção dos “vistos gold”. Se é verdade que, numa fase muito embrionária, o estratagema serviu para evitar a agonia da construção civil (salvando os destroços da mesma), é óbvio que para além de um certo limite se percebia imediatamente que o modelo não fazia mais do que prolongar o malogrado modelo dos não transacionáveis, com expressão na construção de luxo. E embora em não correlação direta com o esquema dos vistos gold é também nesta fase que os fundos de investimento imobiliário de expressão internacional entram na economia portuguesa atraídos pela oportunidade.

Com a nossa memória tipicamente curta, saudosos do fausto aparente do pico do modelo e à míngua de capital, houve gente a norte que esperou que desta vez e finalmente também o Norte e mais propriamente a AMP seria beneficiária. Gente de mentalidade peregrina que zurze na capital mas que na próxima curva é sempre apanhada a mimetizar o modelo da capital.

Os números que vieram a público são na perspetiva dessa gente cruéis. A AMP terá apropriado 1% apenas do bolo dos vistos gold, ficando o bolo apetecido entregue a Lisboa e sua Área Metropolitana e ao Algarve.

Está tudo dito e confesso-vos que nunca um número revelador da inferioridade do Porto e sua AMP me soube tão bem. O 1% mostra-nos que não é por aqui que devemos seguir. Por mais que custe aos saudosos do antigo modelo e sobretudo aos mundos da construção e da imobiliária que deverão estar confinados a uma quota de recursos compatível com a viragem para o exterior e não à ilusão de que podem ser motor de desenvolvimento.

DO ESPAÇO


(a partir de http://lemonde.fr)

Ao ler a notícia de que a sonda espacial Parker (NASA), lançada em 2018 com o objetivo de prosseguir o desvendar dos mistérios da estrela solar, publicou as suas primeiras observações a partir da borda da atmosfera do Sol (onde nenhuma missão ainda havia chegado), veio-me à cabeça que, no meio da tanta papelada digital que acumulo, se me tinha escapado esta curta síntese do que de essencial nos ficou de 2019 em matérias espaciais. Três temas, dois deles fascinantes (a primeira imagem de um “buraco negro” e a passagem da sonda “New Horizons” da NASA a apenas 3500 quilómetros de distância de um pequeno e ainda intrigante astro situado na fronteira do sistema solar) e o terceiro bem revelador dos tempos que vivemos (os chineses a lograrem pousar pioneiramente um módulo no lado oculto da Lua, cinquenta anos depois da missão americana “Apollo-11”). Sinais que a posteridade melhor desvendará...

sábado, 1 de fevereiro de 2020

HOJE É O PRIMEIRO DIA DO RESTO DA VIDA DELES



Um simples complemento dos posts de ontem sobre a matéria, também para que assim fique registado o modo como foi recebido o primeiro dia, dentro e fora. Incluindo ainda quatro visões não britânicas da situação, todas focadas no estranho herói em que se tornou Boris Johnson (do seu dia de glória às suas dúvidas mais ou menos mal disfarçadas). Tudo recomeça hoje, portanto, e estou curioso para ver quais serão as opções estratégicas de BoJo, como se posicionará ele em relação às negociações com a União Europeia e como esta consensualizará e se preparará para as mesmas.

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

(Patrick Lamassoure, Monsieur Kak, http://www.lopinion.fr)

MÉDICOS E ECONOMISTAS

(Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, “Jaguar”, http://atarde.uol.com.br)

Dava pano para mangas uma exploração adequada e séria do cartaz acima apresentado a partir de um trabalho de um cartunista brasileiro. Fosse, aliás, com referência ao mundo em geral ou ao nosso Portugal em particular. Por um lado, a fome, as privações de toda a espécie, a doença, as desigualdades em contraponto ao cadastro de uma significativa parte dos meus colegas de profissão que se deixaram indecentemente capturar pelo mercado e pelos interesses na crise de 2007/08 e que não desistem hoje de encontrar formas espúrias de defender o prolongamento da desregulação e da lei da selva da finança a qualquer preço (com alguns agentes locais, ao jeito de peões ao serviço). Por outro lado, o SNS e as suas dívidas, dificuldades e estrangulamentos funcionais em contraponto a excedentes orçamentais que têm que se lhe diga e que deveriam ser objeto de um debate profundo e ponderado no quadro europeu (veja-se o meu recente post de 28 de janeiro) como também no seio de uma sociedade democrática e moderna como a que nos fartamos de proclamar que é ou pretendemos que seja a nossa.