quarta-feira, 9 de julho de 2025
PEÇO IMENSA DESCULPA!
BENDITA/MALDITA BRUMA
(As casas revestidas a capoto oferecem no inverno uma excelente proteção térmica, mas no verão tendem a manter no interior temperaturas que podem não coincidir durante alguns dias com a descida de temperatura no exterior. Quando esta manhã bem cedo percebi que uma bruma providencial arrefecera bastante o início do dia, dei graças ao nevoeiro, porque tinham sido demasiados dias de temperaturas elevadas e, na minha já bela idade, é sempre o corpo que paga. Continuamos estranhamente avessos a preocupações com os dados que nos chegam dos registos térmicos mais recentes. Cada vez mais, os últimos meses batem recordes de temperatura e de ondas de calor e nem as estimativas de excesso de mortes chegam para assustar o pessoal. O último junho esteve nessa categoria de batimento de recordes, com duas ondas de calor das fortes, a última das quais a fazer a transição para o mês de julho, que também se apresentou inicialmente com propensão para fustigar os corpos com o calor excessivo. O negacionismo climático continua insensível à devastação e nem acontecimentos terríveis como os que as gentes do Texas nos EUA têm vivido por estes dias chegam para demover os interesses fósseis na sua cruzada trumpiana contra tudo o que era política ambiental da administração Biden e a favor da mais despudorada proteção à continuidade da era suicida dos combustíveis fósseis. Mas, metaforicamente, bruma significa também nebulosidade e as evidências que nos chegam é de que a política nacional e internacional está repleta de exemplos de máxima nebulosidade, logo de indeterminação e tateamento de soluções que não há maneira de chegarem e de se imporem aos problemas. Daí a também metafórica oposição bendita/maldita bruma.)
Na política nacional, é confrangedora a natureza macia com que a comunicação social, incluindo a televisão, tem tratado o governo de Montenegro relativamente à sua total inépcia na mitigação dos problemas da habitação e da saúde. Comparando a cobertura dos ecos da inépcia da governação atual na habitação e na saúde com o que os governos do PS tiveram de enfrentar, percebe-se que a tentação que grassa de agradar ao dono na comunicação social já é demasiada para ser ignorada. Na habitação, enquanto a mui liberal Comissão Europeia se atreveu finalmente a falar de controlo de rendas, as ideias de Pinto Luz para a habitação sucumbem todos os dias à evidência clamorosa da subida de valores de venda e de rendas por todo o lado, já não apenas nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. A percentagem de procura de habitação (para compra e arrendamento) que é insolvente face aos valores de mercado não para de aumentar. A lucratividade dos investimentos em construção-habitação (e o lobby agradece entusiasmado) continua superatractiva, continuando a distorcer a alocação de recursos em Portugal a favor dos não transacionáveis. Os proprietários de solo urbano não ocupado continuam a beneficiar de externalidades positivas pelo aumento do valor de construção de tudo que está construído nas imediações (o valor do solo não para de aumentar) e dão-se mesmo ao luxo de gerar externalidades negativas aos que valorizaram o solo com construção. Muitas vezes sem qualquer preocupação de manter os terrenos vazios em condições decentes de limpeza e arranjo, prejudicam a imagem urbana dos espaços.
A resistência ideológica do governo de Montenegro em matéria de habitação é alarmante. Insistem no “mais mercado” para resolver ou mitigar um problema que de raiz é uma falha de mercado.
As desventuras da cara de pau e amargurada Ana Paula Martins na saúde não param também de aumentar. As tão apregoadas e reiteradas propostas de solução anunciadas pela ministra, que deve ter Montenegro preso por uma trela qualquer, não têm produzido qualquer efeito. Ninguém aconselhou Ana Paula Martins a assumir essa posição de que tudo iria mudar com um clique de teimosia e de apelo à saúde privada. O governo tem toda a legitimidade para repor em condições legais as parcerias público-privadas que entender na gestão dos hospitais públicos. Não é isso que está em causa. O que está em causa é proporcionar condições de mitigação dos problemas em algumas urgências, no INEM, na falta de médicos que as administrações hospitalares continuam a reportar, no número de pessoas sem médico de família, etc.
Os médicos mais jovens continuam a dar sinais de que há pessoas para a mudança. Queria aqui registar a vitória estrondosa nas eleições regionais Norte para a Ordem dos Médicos, em que médicos jovens se empenharam no “dono disto tudo” Eurico Castro Alves. Foi uma vitória histórica e uma derrota clamorosa dos interesses instalados por estas bandas.
Entretanto, para acentuar a bruma que oculta a real dimensão dos problemas que interessam aos portugueses, o governo navega nos mares da imigração e da nacionalidade como se essas fossem as preocupações fundamentais. Maldita bruma.
A nível internacional, temos também bruma que chegue e as evidências disponíveis são tantas que transcendem o âmbito deste post.
Quedar-me-ia pela bruma da corrupção em Espanha que deixa o “Zé sempre em pé” Pedro Sánchez preso já não por arames, mas por coisas ainda mais precárias, gerando uma situação inclassificável do ponto de vista de encontrar uma saída possível.
Mas a bruma que também paira sobre o futuro das instituições europeias com os seus Cavalos de Troia de estimação a bombarem na sua desfaçatez e ousadia de ameaças é também matéria para um post autónomo.
Fico-me com o registo de que em situações de nebulosidade, a qualidade dos instrumentos de navegação é crucial. A tecnologia de navegação marítima tem resolvido a questão a contento. Já na navegação política está tudo por inventar.
terça-feira, 8 de julho de 2025
ECONOMISTAS PERPLEXOS E DORIDOS
(Sempre me interessou o tema da relação entre a teoria e a política económica e a decisão política. É uma relação complexa, mas apaixonante, com os seus altos e baixos. Vivemos hoje um período em que o “poder de influência” dos economistas está permanentemente a ser questionado. Em tempos de populismo agressivo, os economistas são associados à elite e, nessa medida, marginalizados pois os populistas de cartola julgam-nos incapazes de compreender e falar para o povo. No passado, quando por razões diversas os economistas se deixaram confundir com a tecnocracia, esse estigma gerou um aceso debate na tribo, questionando-se o seu modo discursivo, o carácter ilusório dos seus modelos e a tentação de querer adaptar e condicionar a realidade à teoria. Eram, de qualquer modo, tempos mais estimulantes para a profissão, pois pelo menos discutiam-se os mecanismos de reprodução do pensamento dominante. O poder académico tem as suas próprias cortes. As orientações de doutoramento e o financiamento das equipas, em grande medida determinado pelo prestígio e produção publicada dos Mestres cria mecanismos de reprodução do poder em grande escala. Por isso, em economia, a chamada mudança de paradigmas tende a não acontecer segundo as regras da filosofia da ciência. A crítica do mainstream na economia está feita há muito tempo, cientificamente demonstrada, mas não é por isso que os mecanismos de reprodução do poder deixaram de funcionar e, assim, prolongar paradigmas que deveriam estar a ser substituídos por alternativas mais sólidas. O estado atual da marginalização dos economistas é diverso e por isso considero que eles estão perplexos e doridos, o que é um estado de alma pouco propenso a revoluções científicas. Há muito tempo que não se via o que Trump acabou por conseguir graças às suas alarvidades. A ofensiva começou por Harvard, vai certamente estender-se por outras escolas que mantêm nas suas equipas gente que não tem papas na língua das suas análises, denunciando as profundas contradições da política económica de Trump e o aumento descarado da chaga da desigualdade. Mas, do ponto de vista do poder de influência da decisão política dominante e da que poderia constituir uma alternativa política, a situação é de profunda perplexidade e azedume.)
Uma das evidências mais marcantes da perda de poder de influência está no facto da lengalenga da descida de impostos como elemento de estímulo económico e fator de crescimento económico não ter hoje um macroeconomista representativo a defendê-la, sobretudo nas suas variantes de política de Robin dos Bosques às avessas. Foi assim no Reino Unido em que as desventuras de Liz Truss não resistiram ao teste da alface (caiu antes da alface se estragar) e nos EUA de Trump só um ou dois alucinados, sem peso algum na hierarquia dos macroeconomistas americanos têm pretendido fundamentar o indefensável.
Curiosamente, talvez porque a perplexidade é grande e o azedume impeditivo de grandes reflexões, não tem sido publicada muita reflexão sobre esta marginalização dos economistas. Já não vou falar nos tempos de Bretton Woods ou do intervalo entre as duas Guerras Mundiais em que os Grandes Economistas como Keynes participavam e influenciavam o rumo da política económica no mundo. Basta percorrer os volumosos Collected Writings de Keynes para compreender como ao longo das épocas a intensidade dos debates era feroz e o economista de Cambridge investia com força e determinação no debate e no influenciar da posição dos também Grandes Decisores.
Os tempos são outros e de certo modo estamos órfãos de Grandes Economistas com esse poder de persuasão mundial.
A Professora de política económica em Harvard, Karen Dynan, reflete sobre o assunto num pequeno artigo para o Finances&Development do Fundo Monetário Internacional, uma revista de grande divulgação. Dynan não hesita em situar o problema: “a confiança pública nos economistas foi erodida por falhanços de políticas de nível Elevado, crescente polarização política e desafios crescentes à autoridade dos especialistas a partir de novas e por vezes pouco fiáveis fontes de informação”. E convém ter em conta que não se trata de uma questão de perda de empregos com relevância. Bancos Centrais e grandes instituições internacionais continuam a atrair os economistas mais qualificados
O fenómeno é complexo e dever-se-á a uma combinação de fatores internos à própria ciência económica (de certo modo, pondo-se a jeito para a marginalização), mas também devido a fatores que são exteriores à disciplina que estão relacionadas com a maneira como se faz política e se organiza a decisão nesse mundo.
Compreendo, mas não aceito integralmente a ideia de que a marginalização se deve a um problema de falência intrínseca do mainstream. Não devemos esquecer que as alternativas ao mainstream também não têm sido eficazes em influenciar alternativas mais progressistas para a política de hoje.
Mas valerá a pena, com menos canícula, regressar ao tema.






