segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

KOBE BRYANT, “DEAR BASKETBALL”


Perante a trágica morte de Kobe Bryant – os títulos, nacionais e olímpicos, acompanhados das frequentes designações para MVP de tantos desses torneios em resultado de uma técnica e de uma capacidade física incomparáveis, o adeus aos recintos, o “Óscar” obtido em 2018 pelo documentário “Dear Basketball”, a família e a filha que com ele partiu, acima em simples imagens justamente evocativas –, apenas me resta chamar à colação a memória das marcas que a sua passagem nos foi deixando enquanto atleta genial. E, já agora, as muitas noites por isso mal dormidas a assistir, madrugada dentro, aos jogos da NBA em que ele tão bem primava ao serviço dos “Lakers” de Los Angeles..

75 ANOS

(José Manuel Esteban, http://www.larazon.es)

Faz hoje 75 anos que aconteceu a libertação de Auschwitz. Importa nunca esquecer o que foi tudo aquilo em termos de desumanidade e malvadez, mas importa também nunca deixar de procurar compreender como tudo aquilo se tornou possível na Europa do século XX. Por coincidência, estive este Sábado no interessantíssimo “Museu da História da Alemanha” em Berlim e pude ali racionalizar várias das muitas dimensões de todo o longo processo histórico que conduziu ao nazismo (bem como ao que são os alemães da atualidade), que não a sua essência vingativa e doentia e as suas inconcebíveis manifestações de ódio e destruição. Como bem refere a excelente reportagem do nosso “Público” de hoje, “a memória do Holocausto é uma guerra que ainda se trava hoje”. Nunca mais?


domingo, 26 de janeiro de 2020

REGINA E PAULO


(João Montanaro, http://folha.uol.com.br)

Do Brasil chega-nos a maravilhosa notícia da atriz Regina Duarte a assumir uma Secretaria Especial da Cultura no governo Bolsonaro com a espinhosa missão de “não liberar um centavo sequer para projetos ligados a bandeiras de esquerda, principalmente os relacionados a temáticas LGBT e de diversidade”. Confesso que já não era fã da senhora, mas fiquei deveras esclarecido quanto à profundidade do seu ideário. Soube-se também que o dogmático ideólogo do governo, Paulo Guedes, tem circulado bastante só pelos corredores de Davos, este ano conjunturalmente menos atreitos a discursos vocacionados para crenças na “mão invisível” (como os da “construção de um sistema financeiro inclusivo e sustentável” e coisas similares) e, assim, menos disponíveis para danças comandadas pelo austeritarismo económico e pela insensibilidade social.

sábado, 25 de janeiro de 2020

ÚLTIMA HORA: O PEDROTO QUASE GANHAVA A TAÇA DA LIGA!


Acaba de acabar a final da Taça da Liga e ainda não foi desta que o FC Porto conseguiu vencer uma edição de tão malfadada competição. Nem mesmo com um treinador com o “mesmo espírito de Pedroto”, que “tem todos os valores de Pedroto” e que é “tão parecido com Pedroto” como “nunca tivemos”! A quem irá o dito atirar as culpas, mesmo se vier dizer, com a sua habitual prosápia, que as assume para ele próprio; para logo de seguida encontrar o bode expiatório que tiver mais à mão... Pela minha parte, enquanto adepto de longo curso, considero que a administração da SAD só devia ter um caminho: dispensar Sérgio Conceição por manifesto desfasamento em relação aos princípios e às exigências de um clube que merece mais e melhor em todos os capítulos, incluindo uma menos curta competência técnico-tática e alguma inteligência emocional à cabeça.

MURPHY NÃO SAI DE ITÁLIA

(Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)


Já começa a ser difícil imaginar o que mais pode ainda acontecer na cena política (e também económica, convenhamos!) italiana. A última é a demissão de Luigi Di Maio da liderança do seu partido (o “Movimento Cinco Estrelas”), acossado pelos contestatários abandonos de muitos correligionários e fragilizado por sondagens crescentemente implacáveis. Embora Di Maio se mantenha no governo (onde é ministro dos Negócios Estrangeiros) e declare que uma coisa não tem a ver com a outra, a verdade é que se trata de um rude golpe num executivo que já nasceu periclitante face à dominante popularidade de Salvini e à sua promessa e aos seus obsessivos esforços visando um regresso ao poder. As eleições deste fim de semana na Emilia-Romagna poderão indicar se assim será a breve trecho ou se a coligação encabeçada pelo Partido Democrático de Nicola Zingaretti conseguirá aguentar-se e manter a cabeça de fora durante algum tempo mais. Às vezes dá-me cá uma nostalgia daqueles tempos, aliás não muito antigos, em que da Itália nos chegavam contributos sólidos para o pensamento e a ação cívico-política!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

ELEVADOR SOCIAL



(Vénia a um artigo do meu filho Hugo Figueiredo publicado ontem no Observador e não vem inspirado por correntes de alt-right. No fundo, o difícil reconhecimento em Portugal de que o acesso à formação superior é um instrumento decisivo de combate à desigualdade, sobretudo se o tecido empresarial compreender o retorno necessário da qualificação?)

Citação integral:

“O Ensino Superior como Elevador Social
Hugo Figueiredo

A universalização progressiva do ensino superior deve ser um desígnio nacional assumido frontalmente, sem medos, nem qualificações.

23 Jan 2020, 00:14

Portugal é, como se sabe, um país muito desigual. E a desigualdade tende a gerar imobilidade social. Uma sociedade imobilista não permite demonstrar e premiar adequadamente o talento, as novas ideias ou a demonstração de capacidades cognitivas ou socioemocionais transformáveis em maior produtividade e riqueza agregada. Não permite, sobretudo, valorizar a diversidade dessas ideias de forma independente da sua origem social. Sujeita a sua validade à capacidade de ultrapassar barreiras que, consistentemente ao longo dos percursos de formação, permitem que as elites sejam capazes de reproduzir, para os seus filhos, as suas próprias vantagens. No caso português, o desempenho escolar no ensino obrigatório, quando medido pela capacidade de obter classificações elevadas ou evitar reprovações, parece assumir maior importância do que a própria segregação de alunos por escolas, por exemplo. O papel das famílias no apoio a estas trajetórias de sucesso é importantíssimo tal como o é na formação da capacidade de aprendizagem nos anos mais precoces (logo na educação pré-escolar).

O que me interessa discutir neste artigo, porém, é a forma como o acesso e os diferentes percursos no ensino superior poderão ser, cada vez mais, mecanismos de propagação de desigualdades.

O conceito de mobilidade social é amplo. Mas é sobretudo a baixa mobilidade entre gerações que caracteriza (negativamente) a sociedade portuguesa. A mobilidade ascendente é baixa, a mobilidade descendente é hoje mais provável. Dados recentes mostram que o emprego dos pais determina em grande medida o dos filhos. A probabilidade relativa de um filho de um trabalhador industrial português, por exemplo, vir a assumir um cargo de gestor é das mais baixas entre os países da OCDE. O nível de capital humano dos pais como determinante do número de anos de educação dos filhos é também desmesuradamente importante.

Neste contexto, assegurar o ingresso e a conclusão de um curso superior é hoje uma condição necessária para evitar, em particular, a possibilidade de estagnação ou despromoção social. Em primeiro lugar, porque os elevados benefícios salariais e coletivos desse investimento continuam a justificá-lo. Em segundo, porque um curso superior desenvolve, idealmente, as capacidades de pensar criticamente e de forma abstrata, de adaptação e de resolver problemas que cada vez mais empregadores precisam e que não podem ser substituídas por máquinas ou robôs. Fornece igualmente um espaço de desenvolvimento de comportamentos, valores e posicionamentos éticos essenciais às democracias e às suas instituições. Nesse sentido, a universalização progressiva do ensino superior deve ser um desígnio nacional assumido frontalmente, sem medos, nem qualificações. Aliás proponho desde já um teste simples para os que argumentam que “o ensino superior não pode ser para todos”: a sua tomada de posição aplica-se aos seus filhos ou apenas aos filhos dos outros?

Não basta, contudo, universalizar qualquer ensino superior. A expansão do acesso pode muito provavelmente coexistir com uma crescente estratificação e com o aumento das desigualdades. Nesse caso, se o sistema de ensino superior for incapaz de evitar o surgimento de novos mecanismos de reprodução intergeracional de desigualdades, o potencial de desencontro de expectativas é enorme e prejudicial à sua generalização.

Considere uma forma simples de avaliar os impactos de várias políticas relativas ao ensino superior à luz desta perspetiva: sempre que essa medida resultar em maior seletividade ou no aumento das disparidades da despesa por aluno e, consequentemente, do hiato de qualidade entre as instituições de elite e as restantes, o potencial de imobilismo está instalado. A possibilidade de os empregadores confundirem sinais de privilégio com sinais de capacidade é muito maior do que possamos querer acreditar. E no contexto de um mercado de trabalho muito segmentado e com um número relativamente limitado de bons empregos, o potencial de reprodução de desigualdades é enorme.

Alguns exemplos da dificuldade em negociar o equilíbrio necessário entre a massificação do ensino superior e o controlo dos seus níveis de hierarquização são já aparentes. A redução de propinas, ou mesmo a ideia de um ensino superior tendencialmente gratuito, não deve ser implementada se acelerar os problemas de subfinanciamento crónico que caracterizam o nosso sistema. Resultará provavelmente na diminuição assimétrica do nível da qualidade do ensino de primeiro ciclo e reforçará a probabilidade de abandono sobretudo de alunos provenientes de famílias de menor rendimento. Um debate sério deste tipo reconhece esse perigo e dá prioridade à necessidade de um novo contrato social capaz de garantir um reforço significativo do investimento no ensino superior público. Já no contexto de dificuldades de financiamento, o foco na progressividade da partilha de custos e no reforço de mecanismos de ação social é muito preferível. Tal como é tornar essa ação o mais transparente e previsível possível. Por outro lado, a crescente importância dos mestrados quando associada à liberalização das suas propinas (eventualmente como forma compensatória) alargará certamente os problemas de mobilidade social. A verdade é que continuam a ser os percursos relativamente longos e seletivos no ensino superior aqueles que resultam em maiores benefícios salariais.

Também as preocupações de gestão da rede e da definição do número de vagas devem ser analisadas à luz da mesma ideia. Maior seletividade e maior autonomia nos processos de seleção de instituições de maior prestígio são garantia de menor mobilidade social. Pelo contrário, o foco deverá estar, quer no alargamento do número de vagas nas instituições mais capazes de promover percursos de mobilidade ascendente, quer no reforço do financiamento dedicado à criação de mecanismos de inclusão e diversificação de oferta capazes de atrair alunos de contextos mais desfavorecidos: a criação, por exemplo, de curricula mais diversificados ou modulares, com componentes mais experienciais ou mais vocacionais também em instituições generalistas; a criação de programas de tutoria ou mentoria que auxiliem a integração desses públicos e a sua transição do ensino secundário; a criação de anos zero ou ofertas fundacionais que permitam alargar as vias de entrada nessas instituições e a homogeneização de competências. Todos estes objetivos exigem provavelmente mecanismos de financiamento dedicados explicitamente ao aumento da qualidade do ensino e não apenas subsídios genéricos a alunos ou instituições.

Será ainda necessário considerar que algumas intervenções, implementadas com objetivos desejáveis, possam ter consequências não antecipadas. A tentativa de corrigir assimetrias regionais, por exemplo, a partir da transferência de vagas para o interior ou regiões menos desenvolvidas, por exemplo, pode aumentar o nível de seletividade nas instituições de maior prestígio localizadas nos grandes centros urbanos. A estratégia de criação de vias de acesso próprias e a necessidade de promover a integração dos alunos do ensino profissional no superior – um objetivo essencial – deve procurar ser o mais centralizada possível, assim como transversal a todas as instituições públicas (e não apenas orientada para instituições politécnicas). A centralização de critérios ou de exames de acesso é, ao contrário do que alguns possam acreditar, promotora de inclusão. A opção por concursos meramente locais ou por total autonomia na definição de critérios de admissão, pelo contrário, aumenta a possibilidade de criar uma segunda ou terceira divisão no ensino superior. Sobretudo se a separação de vias de acesso permitir que o ensino profissionalizante abandone a pretensão de combinar um ensino prático e vocacional com o desenvolvimento de competências fundacionais de banda larga. O futuro do emprego penalizará, a prazo, perfis excessivamente técnicos e rígidos. A necessidade de criar mecanismos de acesso ao ensino superior que avaliem o desempenho das escolas secundárias com base em critérios capazes de evitar corridas de desempenho nos exames nacionais é ainda uma discussão que merece ser aprofundada. Mas, também aqui, esse alargamento de critérios não deve resultar em maior discricionariedade de critérios de admissão e maior seletividade. Também aqui a formalização de procedimentos e a homogeneização pode ser amiga da inclusão.

Finalmente, promover a função de elevador social do ensino superior exige a capacidade de identificar concretamente quais as instituições e mesmo os ciclos de estudos em cada área que cumprem melhor essa função. A utilização de dados administrativos massivos que cruzem a dimensão socioeconómica das famílias, o percurso no ensino superior e a posterior integração no mercado de trabalho começa hoje a ser exequível também em Portugal. O tratamento e posterior disponibilização pública de forma absolutamente anonimizada, transparente e intuitiva de estatísticas e relatórios individualizados de mobilidade e de (in)sucesso no mercado de trabalho poderá promover decisões individuais mais informadas, criar mecanismos de competição saudável entre instituições e permitir que o financiamento público seja mais eficiente e sujeito a demonstração de resultados. O potencial de transparência existe. A realidade das escolhas individuais e da ação política ainda não o aproveita devidamente. Como resultado, estes debates continuam muitas vezes a ser feitos com base em impressões ou visões distorcidas da realidade que atrasam mais do que promovem uma maior igualdade de oportunidades."

Professor Auxiliar na Universidade de Aveiro e investigador do CIPES (Centro de Investigação em Políticas do Ensino Superior)

PODE O CATALANISMO NÃO INDEPENDENTISTA REERGUER-SE?

(Parlament)

(Nas minhas análises do problema catalão sempre dei atenção ao potencial de concertação que a expressão cultural e socioeconómica do Catalanismo não independentista representa. O seu desaparecimento de cena e perda quase total de intervenção política complicou o já de si complexo problema. Poderá reerguer-se?)

A história da Catalunha e dos seus intermitentes sobressaltos seja com o reino de Castela (já desde os tempos de Isabel, a Católica), seja com a Espanha franquista, seja ainda com Madrid e outras regiões da Espanha democrática (não esquecendo o período da República posteriormente arrasada pelas forças falangistas) é, como tenho sublinhado neste blogue, uma matéria movediça, com uma evidente conflitualidade interpretativa. Sei também que o ganho de forças do independentismo catalão acabou também por ter alguma tradução numa espécie de revisionismo da história da Catalunha, com interpretações de eventos que estão longe de estar totalmente validados pela comunidade científica.

Não ignorando esse material que, como seria de esperar, não é do apreço do independentismo catalão que busca todo o tipo de narrativas para justificar o passo mais largo do que as pernas que acabou por dar, a existência de uma realidade cultural e socioeconómica a que chamaremos catalanismo é irrecusável. Nesse reconhecimento, teremos de ter em conta o revisionismo de sinal oposto que ao abrigo de um “espanholismo” muitas vezes serôdio e passadista se recusa ele também a aceitar a individualidade cultural catalã.

O problema é que, por razões diversas, o catalanismo não independentista viu afundar-se o seu protagonismo político, particularmente depois da queda do “pujolismo” que as evidências mostraram ser bem menos bondoso e honesto do que esperámos. Dizem alguns “mentideros” da vida catalão que, quando a Convergencia i Union se constituiu e no meio da burguesia catalã emergiu Jordi Pujol como a personalidade que haveria de conduzir o processo político dessa perspetiva, terá havido um pacto secreto entre os que continuariam a dedicar-se aos negócios e os que assumiam o compromisso político da liderança do catalanismo e da Generalitat. Esse pacto não teria sido inocente e a família Pujol estaria “autorizada” a compensar sabe-se lá por que meios a sua ausência forçada dos negócios. Esta narrativa é em parte confirmada pela sequência de atos de corrupção em que diferentes membros da família Pujol se viram mergulhados. Com a desagregação política da CiU e a desgraçada chegada ao poder regional de Artur Más, onde todas as derivas independentistas começaram, abriu-se um largo vazio político que o radicalismo independentista ocupou, preenchendo o vazio. Não sei se exatamente apenas por esse motivo, essa desagregação da CiU coincidiu com a saída de cena do catalanismo. O Partido Socialista Catalão (PSC) rapidamente deu mostras que não tinha unhas para tal empreendimento e o início promissor do CIUDADANOS rapidamente resvalou também para que o catalanismo fosse pelo cano abaixo.

Porquê então regressar ao tema, a uma espécie de quixotismo catalão, embora perceba que Cervantes não seja lá muito querido nestas paragens?

Tudo isto porque fui hoje alertado por uma notícia do El Mundo (link aqui) que faz referência a um movimento de intelectuais catalães decididos a protagonizar uma tentativa de superação do conflito aberto entre a Catalunha e a restante Espanha, regressando ao protagonismo do catalanismo não independentista. O grupo integra intelectuais, empresários, professores, executivos, economistas e juristas, apontando a uma formação que tem de assumir alguma expressão eleitoral em torno do que poderíamos designar “centralidade catalanista”.

Tudo dependerá da dimensão da ferida fraturante que se instalou. O catalanismo não independentista sempre existiu e tem experimentado nos últimos tempos uma sensação de não representação. No manifesto afirma-se que “a Catalunha tem de estar presente na construção da política espanhola com um peso específico grande, por vezes determinante, em lin.ha com a sua realidade histórica, o seu potencial económico, o seu tecido cultural e a sua vontade de ser”. Bonitas palavras. Mas será necessário que o eleitorado reconheça que essa é a via de representação do catalanismo independentista, forçando o radicalismo catalão a novas tréguas, sabe-se lá até quando.