segunda-feira, 6 de outubro de 2025

A INSUPORTÁVEL LIGEIREZA DO MINISTRO DA DEFESA

(É do conhecimento generalizado que as eleições legislativas representaram para o CDS o equivalente a ganhar um prémio robusto na lotaria. A sua integração na AD garantiu-lhe dois lugares no Parlamento em ambiente de morte anunciada e mais do que isso um lugar no Governo. O problema é que no contexto atual o ministério da Defesa não é pera doce, exigindo maturidade e consistência, características de que Nuno Melo nunca deu prova cabal. O caso da flotilha de protesto ativo contra a situação em Gaza, sim porque é mais uma manifestação de ativismo que em democracia é legítima e possível e não uma operação de ajuda alimentar, colocou de novo à prova a inconsistência e imaturidade do ministro, gerando um problema de coerência comunicacional e de decisão no Governo. Não só foram registadas falhas de comunicação entre o ministério da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, e não devemos ignorar que é este que conduz a política externa, quanto à utilização da base das como a maneira como Nuno Melo identificou os ativistas portugueses detidos e deportados pelo Governo de Israel é do mais vil e grotesco que poderia ser imaginado, pois as convicções legítimas no plano pessoal e partidário sobrepuseram-se ao dever de defender os cidadãos portugueses detidos pelo Governo de Israel. Identificar os ativistas como apoiantes de terrorismo e implicitamente do Hamas é do mais execrável que poderia esperar-se de um governante. No plano pessoal, o ministro da Defesa pode pensar o que entender sobre Mariana Mortágua e restantes ativistas portugueses, pode combatê-los no plano político se tiver força e oportunidade para isso. Outra coisa bem diferente é fazê-lo no quadro de funções de Estado, onde o seu posicionamento deve pautar-se pela defesa possível dos cidadãos portugueses.)

Todo o alarido que a participação de Mariana Mortágua e restantes ativistas suscitou na sociedade portuguesa é indicativo da onda de direitização instalada nas instituições e na população em geral. O ativismo internacional faz parte dos mecanismos democráticos, podendo ou não ser alvo de crítica política. O ativismo político generalizado que precedeu o reconhecimento da independência de Timor suscitou na sociedade portuguesa um amplo apoio e compreensão, gerando uma frente alargada de apoios. A tragédia de Gaza é bem mais fraturante, mas a diferença principal está no contexto atual. O ministro da Defesa tem esfregado as mãos com a evolução neste contexto, pois tem-no dispensado dos esgares de sobressalto democrático a que a função o obriga, esperando por uma praia mais confortável e onde se sinta mais à vontade.

É um facto que está em cima da mesa uma hipótese de paz, orquestrada pela estratégia de força de Trump e Nethanyahu. Mas isso não implica que o plano de paz (a confusão é muita sobre quantos planos de paz existem e qual é a versão que os contendores estão a interpretar) não seja suscetível de crítica, sobretudo pelas condições em que será negociado, apontando mais para um trado de capitulação do que propriamente para uma paz negociada.

O moribundo CDS atual está longe do personalismo cristão que poderia inspirar uma visão mais compreensiva do ativismo da flotilha, por isso a oportunidade de destilar a animosidade aberta contra esta forma de manifestação política foi aproveitada com sofreguidão. O homem (o Ministro) deve suar as estopinhas e colocar-se permanentemente em bicos de pés para se fazer ouvir no Governo.

O problema é que para quem ontem à noite hesitava em ver o jogo no Dragão ou a chegada dos ativistas ao aeroporto foi fácil compreender que os ativistas tiveram as suas duas ou três horas de glória comunicacional, pois todas as televisões se mantiveram na receção, que começara já em reportagens em Madrid, aguentando firme contra a chegada dos comentadores desportivos em força, para explicar o taticismo de Mourinho e a não ambição de Farioli. Mariana Mortágua foi muito criticada por, num momento difícil do Bloco de Esquerda, ter preferido o ativismo no Mediterrrâneo à imersão nas suas bases em plena campanha autárquica. Mas estou em crer que se entre esses críticos estavam apoiantes ou simpatizante do Bloco eles terão percebido que o estrondo comunicacional da chegada talvez tenha dado um pequeno impulso de resistência ao partido.

Quanto ao Ministro terá começado a treinar mais alguns esgares histriónicos de convicção democrática, pois esta descaída saiu-lhe mal, deu espaço para Chicão parecer um progressista e há que partir para outra, pois a oportunidade de se manter à tona é coisa que tem de ser preservada a toda a força.

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

UM PAÍS ADORMECIDO E VULNERÁVEL

 


(Apesar da modorra algarvia do último fôlego de férias de 2025, estou perplexo, preocupado e revoltado com o silêncio fúnebre que se instalou entre as instituições democráticas deste país, nelas incluindo toda a comunicação social, sobre a vigilância orquestrada pelo Ministério Público, logo com a anuência de um juiz, devassando a vida do Juiz Ivo Rosa para responder a uma denúncia anónima, tão conveniente em termos processos e de timing. O país democrático assiste impávido e sereno a esta violação flagrante do estado de Direito, devassando a vida do Juiz durante três anos, para depois aguardar destruição dada a completa ausência de evidência para colocar Ivo Rosa em situação de inferioridade posicional. Ficamos a saber com espanto e preocupação que o Ministério Público usa estes métodos para combater os que o criticam e decidem em oposição às suas teses por vezes mirabolantes. É da mais pura intimidação que se trata, arrasando tudo o que é sagrado nas regras do estado de Direito, juízes a perseguir juízes em função de agendas cada vez mais controversas. E o que mais preocupa em tudo isto é o adormecimento total e suspeito das instituições que deveriam denunciar com veemência esta prática, a começar pelo Presidente da República, tão propenso a falar por tudo e por nada e silencioso em relação a esta verdadeira afronta às regras do Estado democrático. O silêncio da comunicação social é estrondoso, louve-se nesse sentido os painelistas do Eixo do Mal a denunciar, ontem, com veemência a situação.)

Podemos interpretar este exasperante silêncio ou como prova de medo e cobardia, o autoritarismo precisa dos dois como tónico para a sua afirmação, ou como sinal de entorpecimento, evidenciando muito provavelmente que uma onda autoritária no país será acolhida com encolheres de ombros. Benignamente acredito que é a segunda realidade que temos pela frente, já que ela vem anunciada desde há algum tempo, está já enraizada em muita gente e em muitas instituições, considerando que defender a democracia dos autoritarismos corporativos e de toda a espécie é uma valente chatice.

A dúvida consiste em saber que dimensão tem a agenda no interior do próprio Ministério Público. A falta de escrutínio existente leva a colocar essa interrogação, acreditando que a instituição tem uma massa importante de servidores que está alheia a toda esta deriva persecutória de quem ousa pensar e decidir por outras vias, expondo as múltiplas inconsistências da prática da instituição. O silêncio do Procurador-Geral da República é ainda mais ensurdecedor. Mas o dos partidos políticos não é menos vergonhoso. Começamos a perceber que a democracia pode cair, não de madura, mas de adormecimento e alheamento face ao que importa realmente discutir.

 

A HABITAÇÃO QUE AS AUTÁRQUICAS PROMETEM

O “Inimigo Público” de hoje, publicado no suplemento “Ideias” do “Expresso”, explicita de modo eloquente algo que cada vez mais assalta os meus neurónios quando constato a facilidade com que quase todos os candidatos autárquicos de zonas urbanas se propõem atalhar a real e grave questão da Habitação que grassa entre nós: construindo, construindo e construindo. O problema é que o problema em causa tem contornos de maior complexidade do que aqueles que passam por uma mera colocação em papeis que tudo aceitam de números irrealistas e/ou por atirar pela boca fora uma caterva de promessas irrealizáveis, seja tal por razões de ordem financeira tout court ou por razões associadas às inconsistências institucionais de várias origens que nos tolhem os movimentos e a vida coletiva. Sendo que o assunto merece reflexão e debate, seguramente fora do quadro do “país das maravilhas” governamental – veja-se a sua tão desinserida e indescritível definição de uma ”renda moderada” a 2300 euros – e do quadro mais geral de uma luta político-partidária absolutamente incompatível com um sadio ambiente de rigor e seriedade.


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

POR TERRAS ALGARVIAS

 

(A ilusão de adiar a decrepitude leva-me nesta altura do ano a gozar o fôlego dos três últimos dias de férias e participar nos campeonatos nacionais de veteranos de ténis, mais propriamente no escalão do topo dos cotas, os mais de 75 anos, não sabendo se a federação com o aumento de esperança de vida estará a pensar em novos escalões. Um apartamento de pessoa amiga em Vilamoura e a sua proximidade aos teatros de operações, este ano em Vale de Lobo, no campus da Vila do Lago e no complexo de Loulé, possibilitam alguns momentos de lazer e de competição, movimentando uma vasta gama de jogadores e jogadoras. A Academia de Ténis de Vilamoura, onde joguei ontem ao fim da tarde um amigável de pares, está em remodelação parcial, estimando que tenha sido por essa razão a ficar de fora dos locais para a realização dos campeonatos. O contexto para a reflexão nestas terras algarvias proporciona uma visão mais distante dos problemas do país e se não. foram os cartazes para as autárquicas dir-se-ia que o vendaval de crescimento do Chega por estas paragens é algo de oculto e de fraca expressão. Desde os tempos em que tive bastante trabalho profissional nesta região, sobretudo para a Associação de Municípios do Algarve (AMAL) e para o município de Loulé, em que as receitas fiscais provenientes do imobiliário continuam no auge, os grandes problemas da Região persistem. O turismo continua expressivo e a marcar a paisagem urbana e obviamente também a costeira. O modelo é o mesmo. A Região continua sem expressão e VOZ políticas salientes e não abundam pessoas com visão estratégica como era por exemplo o caso do Vítor Neto que chegou a ser Secretário de Estado do Turismo: Leio nos poucos jornais que se apanham por aqui que o Hospital de Faro continua fiel aos seus problemas, registando a notícia a existência de más práticas, continuando o problema da baixa atração de novos médicos. É possível visualmente reconhecer a presença na Região de praticamente todos os grupos privados de saúde (Hospitais Privados do Algarve, Lusíadas, Luz Saúde e só não tenho a certeza se o grupo CUF também estará por cá) numa crónica anunciada de onde existem vazios na oferta pública de saúde o privado preenche-as. Pressuponho que face à abertura de tantas unidades privadas, tais unidades estarão a superar os problemas de atração de médicos à região. Persistem também os problemas conhecidos de formação de uma nova base produtiva exterior às conexões com o turismo e com o setor imobiliário. Pouco ou nada mudou, afinal).

O tempo está de uma amenidade notável, convidando ainda para a praia e, por tudo isto, intuo que não seja fácil fazer política e convidar os cidadãos a uma maior participação política. Não sei dizer, entretanto, se os estrangeiros já residentes mantêm com a vida política local alguma dinâmica de colaboração. Em tempos passados, confirmei que em S. Braz de Alportel uma pequena comunidade de residentes estrangeiros era praticamente responsável pela animação cultural da vila e do concelho.

Tentando manter viva a reflexão política, apercebo-me pelo que vou lendo e ouvindo que as autárquicas não são ainda favas contadas para ninguém. Tanto poderemos ter uma noite eleitoral com ganhos da AD a ponto de poderem determinar a conquista da Associação Nacional de Municípios, como poderemos ter surpresas de resiliência por parte do PS, embora se intua que o governo entrará fortemente na campanha, procurando com a Lei dos Estrangeiros pescar votos na onda securitária protagonizada pelo Chega. Esta venda da alma social-democrata promovida por Montenegro e o seu acólito Leitão Amaro vai custar-lhes caro a prazo. A discussão do orçamento de Estado aproxima-se e não é possível saber se esta venda da alma social-democrata ao Chega veio com efeitos atrelados de dependência.

 

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

ÀS VEZES JÁ NÃO SEI DE QUE TERRA SOU!

(Ben Jennings, https://www.theguardian.com) 

O Outono começou bem-disposto e com a hora ainda por mudar os dias sucedem-se com tonalidades agradáveis e configurando um quadro não excessivamente stressante. Mas os riscos que estão ao virar da esquina são imensos e configuram situações altamente descontroladas e preocupantes no mundo, na Europa e no País. O momento culminante de tudo aquilo para que ainda estaremos guardados será o da atribuição que se prepara, com múltiplos e reputados coadjuvantes, do Nobel da Paz a uma figura da estatura completamente imprópria de Donald Trump – esta é, pelo menos, a convicção que adquiri depois de os ver e ouvir em plena ação, mais enxovalhante do que negocial e diplomática. A Europa está como está, sem rei nem roque e entregue, por falta de comparência dos que dela se deviam ocupar por dever de ofício e responsabilidade nacional, a uma política de categoria mais do que duvidosa como é Ursula von der Leyen. Por fim, o nosso “torrão lusitano” está à beira de umas Autárquicas que se apresentam como “as mais difíceis da história da democracia” e podem virar o tabuleiro político e social nacional completamente de pernas para o ar, sendo que logo depois virão umas Presidenciais que não excluem a hipótese de uma segunda volta entre duas personagens antissistema como são Gouveia e Melo e André Ventura. De momento, portanto, estou circunscrito ao contributo para o meu bom humor que provém do tal Outono bem parecido e das magníficas prestações do meu FC Porto, aquele certamente finito e estas expectavelmente mais duradouras.

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)