terça-feira, 25 de julho de 2017

TRAGIC SEASON

(Jornal Público on line)


(Receio bem que o período em que já entrámos dificilmente seja coberto pela muito usada expressão da silly season, sucedem-se fragilidades e descoordenações na máquina do Estado que não podem deixar de sobrar para a valoração da ação governativa, nelas incluindo o destemperado e desesperado comportamento da oposição…)

Se o diagnóstico das causas profundas dos fogos florestais é de facto aquele que os principais especialistas do tema têm vindo a avançar teremos seguramente um verão quente de incidentes. Nas causas profundas mais conhecidas incluo o desordenamento florestal e a não limpeza dos materiais transformados em fator de combustagem, o agravamento do problema das mudanças climáticas, a desconsideração que tem sido atribuída à estrutura da propriedade, eminentemente privada e a descoordenação dos serviços com intervenção na prevenção e no combate aos fogos. Como resposta de curto prazo a mais um verão com temperaturas elevadas nenhuma daquelas causas tem abordagem eficaz assegurada. É por isso legítimo esperar que, sem a trágica dimensão de Pedrogão, tenhamos mais Alijós, Mações, Sertãs ou Proenças. Creio que era o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Mação que dizia que contava anos a fio a denunciar o problema que calhou hoje na sorte ao seu concelho. Tenho dificuldade em compreender a inação de muitas Câmaras Municipais nesta matéria, atendendo a que muitas vezes os municípios em geral protagonizam escolhas públicas discutíveis face pelo menos a este tipo de necessidades.

Por outro lado, PSD e CDS descobriram uma caixa de Pandora em termos de ataque à governação a partir de tudo que diga respeito a incêndios florestais, pois arrasado o filão da situação económica, que traiu as suas expectativas, haverá durante o verão matéria combustível que baste. A sua posição em relação à lista de vítimas de Pedrogão é, no mínimo, macabra. Pelo que consegui perceber do alarido criado, é o Ministério Público que tem a responsabilidade de divulgar a lista de vítimas depois de criadas as condições para o poder fazer em termos das investigações que considere necessárias. Compreendi também que há penalistas que defendem que o Governo pode pedir ao Ministério Público a quebra do segredo de justiça, invocando interesses superiores de clarificação e confiança dos cidadãos. Se meios e competência para discutir a questão no plano jurídico, parece-me que o Governo se deixou encurralar não apresentando desde logo as razões para a sua não publicação no curto prazo, sendo obrigado já em desvantagem a uma justificação. A publicação hoje da lista de vítimas e o comunicado da Procuradoria Geral da República tem pelo menos a virtude de um corte de fogo. O Governo parece ignorar que, nos termos em que está hoje organizada e face à debilidade da sua agenda política, a oposição é sempre capaz de pior, não enjeitando entrar em domínios sobre os quais havia aparentemente um sentido de Estado partilhado entre as diferentes forças políticas. A experiência de António Costa nestas matérias da governação far-me-ia esperar uma atuação mais liderante do tempo político das decisões e não a cedência pelo menos neste tipo de situações a uma via reativa e dependente da agenda de guerrilha da oposição.

A fragilidade das instituições do Estado e a progressiva depauperação da administração pública em termos de elite de dirigentes podem ser fatais para a proliferação de situações que os analistas da direita (vide a malta do Observador) definirão sempre como a falência do Estado e culpando por essa via quem acaba com a bomba nas mãos, o governo. Não correu bem (mas quem poderia imaginar que corresse bem?) a coexistência entre técnicos superiores responsáveis pela memória e pela credibilidade dos serviços e a invasão que essa mesma administração experimentou vinda dos corredores e das influências partidárias. A má administração acabou por correr com a boa administração em muitos serviços e até que a situação se recomponha em termos qualitativos teremos décadas para o conseguir.

Por isso, receio bem que, em vez de uma silly season, teremos uma tragic season. Podemos questionar se as fragilidades do Estado que saíram em sorte ao Governo atual terão repercussões nas autárquicas. É muito discutível que isso aconteça. Estaria mais preocupado com alguma sobranceria socialista na abordagem a alguns municípios.

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