domingo, 29 de outubro de 2023

MORREU O CHANDLER BING

 


(Graças ao devido destaque que o New York Times lhe concedeu tomei conhecimento este sábado que o Matthew Perry, o popular Chandler da série Friends, nos deixou aos 54 anos, estima-se que no prolongamento de uma longa luta contra as drogas e o álcool. Os 200 episódios de dez temporadas da série tornaram aquele conjunto de atores cúmplices do nosso quotidiano de lazer, no meu caso aqueles fins de tarde depois do trabalho em que não há ganas de fazer nada a não ser confundir-me com a poltrona e deixar a televisão fluir. Na recente revisitação sobre a série, se não me engano em 2020, Perry (Chandler) aparecia relativamente sóbrio mas no grupo era aquele que manifestamente mais acusava a passagem do tempo e sobretudo os efeitos da adição de drogas e álcool, que quando muito prolongada acaba por ter uma estranha repercussão física, como que assinalando uma má sina.

Neste momento, a única reflexão que o acontecimento me suscita, além obviamente o de lamentar o desaparecimento de mais um dos cúmplices do nosso lazer, é o confronto entre o ambiente sedutor daquela série, a Manhattan de todos os encantos da juventude informal e as vidas estranhas, complexas e por vezes dolorosas e trágicas de quem assume esses personagens.

Parece ser o caso do Matthew Perry (Chandler) cuja longa luta contra as drogas e o álcool é uma espécie de reverso do encanto e liberdade daquela vida que se respirava naqueles dois apartamentos e nas relações cruzadas que se estabeleciam no grupo.

 

sábado, 28 de outubro de 2023

NOVA ENCRUZILHADA ARGENTINA

(cartoons de Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Reação atrasada à primeira volta das eleições presidenciais argentinas, apenas para registar aquilo que parece ser o inultrapassável destino dessa maravilhosa e prometedora América Latina. Desta vez, e após a difícil e quase impossível escolha a que ficaram reduzidos os eleitores no maior país daquele subcontinente (o Brasil), cabe ao segundo maior país (a Argentina) deparar-se com uma situação algo idêntica, prolongando a sua agonia política (com os trágicos reflexos económicos que há décadas de manifestam), numa escolha a ter de acontecer entre um esgotado peronismo (protagonizado pelo ministro da Economia Sergio Massa) e um populista de extrema-direita e detentor de propostas quiçá mais absurdas do que as de Bolsonaro (protagonizado por Javier Milei através de uma estética “rockeira” e discursivamente agressiva, num negacionismo das mudanças climáticas e do terrorismo de Estado da ditadura argentina e em propostas tão incendiárias quanto as de uma dolarização da economia, de uma supressão do Banco Central e dos ministério da Saúde, Educação e Obras Públicas, de uma liberalização do uso de armas ou de uma legalização da venda de órgãos humanos). Com efeito, a primeira volta produziu um resultado conducente a tal desfecho, ainda que com o lado positivo de ter sido algo sustida a onda de entusiasmo e apoio (estimulada pela fadiga de amplos setores da classe média e media-baixa e da juventude perante a tremenda e duradoura crise económica que persiste em assolar o país) que parecia envolver o candidato-fantoche (que apenas obteve 30% dos votos, contra os 36,7% de Massa) e com o lado mais duvidoso de a terceira candidata mais votada (Patricia Bullrich, conservadora) ter logrado uma significativa expressão de 23,8% e apelado junto da sua heterogénea base social (alegadamente mais republicana e liberal do que simpatizante de radicalismos arriscados) a um apoio a Milei para derrota do “inimigo principal” (o peronismo e o kirchnerismo).

 

Assim, voltamos a estar defrontados com uma situação de “nem-nem” em termos racionais mas de justificada opção por um mal menor que evite a completa descredibilização da política e, pior, a irresponsável dinamitação das estruturas básicas do sistema democrático. Como escreveu o “El País” em editorial, “Massa tem agora diante de si a tarefa de atrair os votos de todas as forças democráticas.”; ou ainda: “O fardo de Massa é, sem dúvida, grande; e o seu desafio, enorme. Como Ministro da Economia, não foi capaz de dar respostas contra o disparo da inflação, o crescimento da pobreza e a queda do PIB. Mas uma crise económica, por mais grave que seja, não pode servir de desculpa para soluções extremas que põem em perigo consensos básicos como a coexistência, o respeito pelos rivais, a proteção dos excluídos e das minorias e a defesa dos direitos humanos. (...) É importante que, com o acordo de todas as forças políticas que defendem a democracia, este muro de contenção seja reforçado no segundo turno, em 19 de novembro.” Na expectativa de que, apesar do sofrimento infindável que domina a sociedade argentina, possam acabar por ser os sinais de moderação e alguma esperança reformista a prevalecer…

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

A ELEIÇÃO DAS NOSSAS VIDAS

 

                                (Rebecca Chew para o New York Times)

(À boleia da magnífica e lúcida entrevista que Martin Wolf realizou com um preparadíssimo Vítor Gonçalves na RTP 3, retomo para reflexão a paradoxal e obtusa situação em que os EUA se encontram, cada dia que passa mais adensada de nuvens negras a pairar no horizonte político da nação americana. O cronista e editor do Financial Times, cuja evolução de pensamento constitui em si própria uma espantosa descrição da evolução do capitalismo (vejam a evolução de pensamento desde “Why Globalisation Works” ao “The Crisis of Democratic Capitalism” agora apresentado em Portugal, passando pelo “The Shifts and the Shocks”), não hesitou quando referiu que as eleições presidenciais americanas em 2024 seriam as eleições da sua já longa vida. O mundo da liberdade está hoje dependente do êxito e empenho de um velho de 81 anos, desaparecidas que estão para parte incerta as promessas que a personalidade de Kamala Harris nos inspirava. Nesse mundo de liberdade, está o modo como o Presidente americano articulará a defesa da Ucrânia e a sua intervenção no conflito Israel-Hamas, mas também o futuro da própria nação americana. Aquilo que julgávamos não ser um mito, a solidez das instituições democráticas americanas, tem vindo a desfazer-se em etapas sucessivas, à medida que o insurrecionismo trumpista vai dominando o Partido Republicano e dinamitando a política americana. E o que é preocupante é a sequência lógica e irreversível que se observa nos acontecimentos, da recusa em aceitar resultados de eleições livres, da invasão do Capitólio até à mais recente crise do Congresso americano, com um trumpista inqualificável como speaker desse órgão vital da democracia americana.

A imagem de Rebecca Chew por mim selecionada para abrir este post acompanha o editorial do New York Times que, com desassombro, traz a ideia de que “o trumpismo rege o Congresso”. O desatino da situação é tão profundo que por vezes temos dificuldade em compreender que estamos perante uma situação real e não face a uma curiosidade distópica e passageira. Não, a verdade é que o Partido Republicano depois de três semanas achincalhantes de golpes e contragolpes palacianos, processo já por si só degradante e que afastou um candidato mais moderado, acabou por votar com unanimidade num seu representante que alinhou objetivamente com a negação dos resultados das eleições de 2020.

A ação efetiva que os republicanos trumpistas exerceram para consagrar o novo speaker deve ser vista como uma retribuição aos serviços por ele prestados a Trump no processo de negação dos resultados eleitorais e, simultaneamente, com um apagamento total de todas as outras tendências não diretamente alinhadas com o trumpismo. Podemos imaginar o cenário de bastidores que acompanhou e conduziu a este apagamento e nele seguramente veríamos podridão de processos.

Não vou discutir aqui o que é que este passo pode representar do ponto de vista da inação e bloqueio à governação da administração Biden. Esse será em meu entender um mal menor. O que gostaria de salientar é a imagem que os americanos estão a dar ao mundo a partir da sua casa da Democracia. Em tempos em que o mundo que aspira a ser livre está dependente da firmeza controlada que os americanos revelarem nas diferentes frentes de perturbação internacional em que estamos mergulhados, os valores projetados a partir da House não auguram nada de bom em matéria de farol democrático. Por mais essa razão, as eleições de 2024 não serão apenas as eleições mais importantes da longa vida de Martin Wolf, mas também de todos as que aspiram a preservar a todo o custo os valores da democracia.

 

AO LADO DE GUTERRES, NÃO ATRÁS!

 
(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Pessoalmente, reconheço e simpatizo com os argumentos de tantos (incluindo o meu colega neste espaço) que por estes dias se têm pronunciado em defesa de António Guterres perante a revoltante diatribe de Netanyahu e seu embaixador contra ele, na sequência das suas declarações acerca do conflito em curso e suas presentes exigências humanitárias e históricas razões de ser em matéria de culpabilidade do Estado israelita. Isto dito a título de explicitação de interesses, importa também não esquecer que estamos perante um governo altamente radicalizado, acontecimentos excecionais e manifestamente traumáticos e ainda quentes, a atuação estruturada de organizações de pendor terrorista e riscos sérios de um alastramento explosivo do rastilho para fora da zona e até com potencialidades de alcance mundial. Neste quadro, e só nele, vejo-me forçado a também reconhecer que um secretário-geral da ONU devesse ter tido outro cuidado com cada palavra que fosse proferir, mais não seja para salvaguardar o seu papel mais importante de desejável mediador de conflitos entre partes. Pôs-se a jeito, como diz o povo, sem que disso tivesse decorrido ou possa decorrer qualquer vantagem visível para o encontrar da paz, para um enfrentamento condigno da tragédia humanitária e para um renovado favorecimento político-diplomático da incontornável solução de dois Estados.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

ORGULHO SEM PRECONCEITO

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Acabado de regressar à Terrinha após uma bem preenchida incursão pelo Reino dos Belgas, com a noite de Quarta-Feira a ser objeto de uma derivação futebolística em terras flamengas (Antuérpia no caso) para assistir ao jogo do meu clube de coração contra os locais (campeões do seu país na época transata depois de 65 anos de jejum) no quadro da Champions deste ano (cuja fase de grupos ainda vai a meio). Uma viagem curta (apesar dos engarrafamentos), chuva miudinha mas suportável, um estádio muito envelhecido (ao nível da nossa divisão secundária), muita gente conhecida de várias vidas presente nas bancadas, cerveja e uns hamburgers e hot-dogs para preencher o tempo de espera... e lá chegou a hora do jogo.

 

Durante a primeira parte, estivemos péssimos (Sérgio Conceição confessou-se “aziado” ao intervalo) e foram os belgas a exibir toda a sua vontade de ganhar (apesar de um engenho relativamente limitado). Depois do refresh que Sérgio impôs ao intervalo, a segunda parte foi bastante boa e contou com um Evanilson inspirado (marcou três golos, sendo o terceiro e o quarto magníficos!) no seio de uma equipa finalmente ligada e assim capaz de excelentes momentos exibicionais. Nesta, os destaques principais vão para Diogo Costa (julgo que nunca confiei tanto num guarda-redes como nele, sempre sereno e eficaz), os centrais (do velho Pepe a David Carmo, este a querer aproximar-se do que terá justificado a sua contratação) e a utilidade todo-o-terreno de Taremi e Pepê (este com a irritável pecha de uma capacidade de concretização quase infantil), com outros bons jogadores a continuarem ainda a mostrar-se algo irregulares (Galeno, João Mário, Varela, Eustáquio). Uma vitória indiscutível por 4-1 e mais uma jornada indiscutivelmente prestigiante para as nossas cores e o desporto nacional.

 

O pior de tudo esteve na longa espera a que fomos sujeitos por parte da polícia belga, talvez excessivamente traumatizada com o grave incidente recentemente ocorrido aquando de um Bélgica-Suécia mas a jurar a pés juntos que havia ameaças de hooligans por perto a que não podiam deixar de corresponder em termos simultâneos de segurança e repressão (ou muito me engano ou coisas destas vão recrudescer nos tempos que aí vêm). Neste contexto, valeu o convívio final entre tantos adeptos satisfeitos e, muito especialmente, o agrado de alguns reencontros (ex-alunos e ex-colegas) e o interesse de algumas boas conversas sobre temas que por cá dominam. Foi já depois da uma da madrugada que cheguei a casa e fui dormir sobre os louros conquistados.

AO LADO DE ANTÓNIO GUTERRES

 


(Já tínhamos percebido que o segundo mandato do Secretário-Geral da ONU não ia ser um mar de rosas perfumadas. A deterioração do ambiente internacional, primeiro com a brutal invasão russa da Ucrânia e agora com o ataque não menos brutal do Hamas a Israel e posterior ataque das forças israelitas ao território de Gaza e não esqueçamos o agudizar da violência no West Bank, iria colocar o frágil equilíbrio das Nações Unidas sob fogo variado. A posição de António Guterres sobre o extremar da violência e pedido de cessar-fogo talvez tenha surpreendido os mais sonsos e distraídos, mas tenho para mim que um Homem de consciência profundamente católica como o Secretário-Geral teria obviamente de colocar os pontos nos is e, sem deixar de denunciar com vigor a atrocidade inicial do Hamas, não poderia deixar de defender a Carta das Nações Unidas e condenar os propósitos de vingança de Israel, sobretudo do ponto de vista da mortandade a que os Palestinianos estão a ser sujeitos e não ignoremos a opressão cada vez mais noticiada na Cijordânia. Que o descontrolado Ministro dos Negócios Estrangeiros tenha lido de viés e enganosamente o discurso de Guterres e solicitado a demissão do Secretário-Geral acusando-o de branquear a atrocidade do Hamas não me admira de todo, pois ilustra bem a arrogância de uma réplica que vai muito além da prática do direito de defesa. Hoje em dia, é cada vez mais difícil separar a justa defesa do direito de Israel à defesa do exercício tresloucado de poder que a extrema-direita tem exercido e que transforma a relação com o Hamas numa tempestade perfeita de violência sem par e de riscos de generalização do conflito fora dos limites de um conflito local entre um país e um grupo terrorista. A pergunta incómoda e inevitável é a de saber quantos Palestinianos têm de morrer para se esgotar o direito de defesa de Israel.

Alexandre Lucas Coelho tem hoje no Público um artigo corajoso em linha com a coragem de António Guterres, mostrando com clarividência que alguém tem de pronunciar as palavras certas e colocar Israel na justa proporção da sua ira e direito de defesa. Não é de afastar que a coragem de Guterres o tenha colocado na boca do lobo e que a sua ação como Secretário-Geral vá ser perturbada pelo contágio da histeria do Ministro dos Negócios Estrangeiros israelita. Mas o direito à defesa de Israel face ao desespero do Hamas não pode equivaler a ignorar anos e anos de opressão Palestiniana e a precipitação do seu extermínio como povo como dano colateral da perseguição ao Hamas.

As palavras de gente como Alexandra Lucas Coelho ou Clara Ferreira Alves que conhecem o terreno, que têm capacidade de diálogo e interação com ambas as partes, mas que conhecem de perto as condições de opressão a que o povo Palestiniano é submetido valem mais do que quaisquer outras e a elas me atenho nestes momentos de procura de lucidez.

E já agora enquanto redigia este post, chegou-me a casa via Amazon um livro recente (2023) que me despertara a atenção em crónica do New York Times – A DAY IN THE LIFE OF ABED SALAMA – de Nathan Thrall, publicado pela Penguin – Allen Lane que me é apresentado como uma obra prima de compreensão da tragédia da Palestina, no fundo uma história da vida de Palestinianos em busca pela sobrevivência sob as regras israelitas.

A leitura certa no momento certo.

Nota final

Nesta zona central de Vila Nova de Gaia, estou há mais de cinco horas sem internet, porque segundo a informação que obtive a NOS está a realizar uma operação de manutenção com algum significado. Sem qualquer aviso prévio para os utentes e assinantes.

Ou muito me engano ou ainda nos vamos dar mal com este oligopólio das telecomunicações.