(Rebecca Chew para o New York Times)
(À boleia da magnífica e lúcida entrevista que
Martin Wolf realizou com um preparadíssimo Vítor Gonçalves na RTP 3, retomo
para reflexão a paradoxal e obtusa situação em que os EUA se encontram, cada
dia que passa mais adensada de nuvens negras a pairar no horizonte político da
nação americana. O cronista e editor do Financial Times, cuja evolução de
pensamento constitui em si própria uma espantosa descrição da evolução do
capitalismo (vejam a evolução de pensamento desde “Why Globalisation Works” ao “The
Crisis of Democratic Capitalism” agora apresentado em Portugal, passando pelo “The
Shifts and the Shocks”), não hesitou quando referiu que as eleições
presidenciais americanas em 2024 seriam as eleições da sua já longa vida. O
mundo da liberdade está hoje dependente do êxito e empenho de um velho de 81
anos, desaparecidas que estão para parte incerta as promessas que a personalidade
de Kamala Harris nos inspirava. Nesse mundo de liberdade, está o modo como o
Presidente americano articulará a defesa da Ucrânia e a sua intervenção no
conflito Israel-Hamas, mas também o futuro da própria nação americana. Aquilo
que julgávamos não ser um mito, a solidez das instituições democráticas
americanas, tem vindo a desfazer-se em etapas sucessivas, à medida que o
insurrecionismo trumpista vai dominando o Partido Republicano e dinamitando a
política americana. E o que é preocupante é a sequência lógica e irreversível
que se observa nos acontecimentos, da recusa em aceitar resultados de eleições
livres, da invasão do Capitólio até à mais recente crise do Congresso
americano, com um trumpista inqualificável como speaker desse órgão vital da
democracia americana.
A imagem de Rebecca Chew por mim selecionada para
abrir este post acompanha o editorial do New York Times que, com
desassombro, traz a ideia de que “o trumpismo rege o Congresso”. O
desatino da situação é tão profundo que por vezes temos dificuldade em compreender
que estamos perante uma situação real e não face a uma curiosidade distópica e
passageira. Não, a verdade é que o Partido Republicano depois de três semanas
achincalhantes de golpes e contragolpes palacianos, processo já por si só degradante
e que afastou um candidato mais moderado, acabou por votar com unanimidade num
seu representante que alinhou objetivamente com a negação dos resultados das
eleições de 2020.
A ação efetiva que os republicanos trumpistas exerceram
para consagrar o novo speaker deve ser vista como uma retribuição aos serviços
por ele prestados a Trump no processo de negação dos resultados eleitorais e,
simultaneamente, com um apagamento total de todas as outras tendências não
diretamente alinhadas com o trumpismo. Podemos imaginar o cenário de bastidores
que acompanhou e conduziu a este apagamento e nele seguramente veríamos podridão
de processos.
Não vou discutir aqui o que é que este passo pode
representar do ponto de vista da inação e bloqueio à governação da
administração Biden. Esse será em meu entender um mal menor. O que gostaria de
salientar é a imagem que os americanos estão a dar ao mundo a partir da sua
casa da Democracia. Em tempos em que o mundo que aspira a ser livre está
dependente da firmeza controlada que os americanos revelarem nas diferentes frentes de
perturbação internacional em que estamos mergulhados, os valores projetados a
partir da House não auguram nada de
bom em matéria de farol democrático. Por mais essa razão, as eleições de 2024 não
serão apenas as eleições mais importantes da longa vida de Martin Wolf, mas também
de todos as que aspiram a preservar a todo o custo os valores da democracia.