sábado, 6 de setembro de 2025

COMADRES DESAVINDAS

 

(Relvado do Palácio de Monserrate, onde se realiza anualmente o festival de Jazz com o mesmo nome, sítio ideal para desvalorizar controvérsias como a das comadres desavindas)

(Fim de semana por terras de Sintra para reunião familiar de fim de férias, aproveitando o conhecimento profissional do meu filho Rui para redescobrir velhos sítios como Monserrate ou os Capuchos, a Pena está inacessível tanta é a massa de turistas com visitas marcadas, logo pouco tempo para escrever. Os temas para o fim de semana são obviamente a nossa cultura de (não) segurança, transparente no acidente trágico do elevador da Glória, que me merecerá nos próximos dias uma reflexão sobre as condições em que a externalização de serviços de manutenção está a ser feita em inúmeras infraestruturas, mas queria fixar-me na controvérsia que estalou entre a Reitoria da Universidade do Porto, a Direção da Faculdade de Medicina do Porto e o Ministro da Educação Fernando Alexandre. Intitulei a reflexão de as “Comadres desavindas”. A designação não é depreciativa, conheço as personagens, tenho até uma excelente impressão do Ministro. Mas a minha interpretação é que a controvérsia trouxe simplesmente à luz do dia tensões que existem há já algum tempo. A questão das entradas especiais em Medicina do Porto foi simplesmente o combustível para revelar a tensão já existente e que por vezes se manifesta com maior contundência. Vou tentar explicar-me para que não fiquem com a ideia que são mexericos. Não, são simplesmente relações entre instituições que deveriam ser mais claras e menos sujeitas às incompatibilidades dos egos, e alguns são bastante fortes.)

Comecemos pela relação entre a Reitoria da UP e a Direção da Faculdade de Medicina. Há relativamente pouco tempo, tive a oportunidade de realizar algum trabalho de planeamento estratégico com a Reitoria da UP, que haveria de ser posteriormente interrompido com as eleições para a Reitoria. Contactei com todas as unidades orgânicas da UP, que foi sem sombra de dúvidas a parte mais interessante do trabalho. A reunião com a unidade orgânica da Faculdade de Medicina do Porto foi um “monumento” de frontalidade, dirigida pelo controverso Professor Altamiro Costa Pereira. Conhecia há muito a rivalidade (para mim incompreensível e desajustada nos tempos que vivemos) entre as comunidades da Faculdade de Medicina e do Instituo de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Historicamente, essa rivalidade teve algum sentido, já que as Biomédicas pretendiam sob a inspiração de Corino de Andrade e Nuno Grande seguir um rumo alternativo na formação em Medicina, tornando-a mais interdisciplinar e com especialização desejável na saúde comunitária. O tempo passou, a procura do rumo alternativo foi-se e Biomédicas e Medicina são hoje Faculdades miméticas, concorrendo pelo mesmo e com, respetivamente os Hospitais De Santo António e de S. João como unidades hospitalares de suporte. Se António Sousa Pereira (Reitor e ex-professor nas Biomédicas) e Altamiro Costa Pereira são os centros da controvérsia e aparecem ligados às suas instituições isso não deveria ter qualquer importância em termos institucionais. Mas não é assim e até passou por uma candidatura inglória de Altamiro à Reitoria.

Tal como contam os jornais que deram conta da controvérsia, com destaque para o Expresso, o incidente revela falta de comunicação entre as duas instituições, vou pressupor que sem dolo, o que face ao contexto conhecido pode ser manifestamente discutível. É um facto que existe um critério de nota mínima de 14 valores para os candidatos a esta via especial de entrada e é também certo que o júri da Faculdade de Medicina do Porto que apreciou as candidaturas meteu foice em seara alheia quando propôs a substituição da nota mínima de 14 pela de 10 valores. Mais ainda terá comunicado diretamente aos interessados que teriam a entrada garantida mesmo sem a nota mínima de 14, sem dar conhecimento ao Reitor que tem a incumbência legal de homologar os resultados do concurso. Quanto ao Reitor António Sousa Pereira não esteve mal na não homologação, mas é dúbia a sua declaração ao Expresso de que teria tido pressões de gente influente e com acesso ao poder, criando a ideia talvez errada de associar essas pressões à conversa telefónica que teve com o Ministro.

Portanto, entendamo-nos, é conhecida a falta de lisura institucional entre a Reitoria e a Faculdade de Medicina, sendo tão conhecida que nos comunicados da Federação Académica e da Associação de Estudantes essa não relação é mencionada com todas as letras.

Mas existe o outro plano das interrogações que pairam sobre a relação entre o Ministro da Educação e os Reitores em geral. É conhecido de todos que a chegada de Fernando Alexandre ao Ministério foi olhada com reservas pelos Reitores e o da UP não fugiu à regra. O facto de o Ministério não ter sido dedicado ao Ensino Superior, os propósitos reformistas do Ministro, a sua decisão de substituir a FCT e a ANI por uma única agência focada na translação do conhecimento e o facto do Ministro vir de uma área científica, a Economia, contrariando o duopólio das ciências da vida e das engenharias tudo ajudou a uma relação institucional tensa ou, pelo menos, incomum face a governos anteriores. A entrada de Fernando Alexandre na controvérsia foi de uma dureza algo desabrida, acusando o Reitor da UP de mentir neste processo, o que não é líquido pois as declarações de Sousa Pereira ao Expresso não permitem associar diretamente as tais pressões que mencionou ao Ministro.

Temos pois um triângulo, não amoroso, mas que revela tensões de vária ordem, penalizando o ambiente institucional que deveria ser fluido e transparente, além de favorável à perspetiva reformista do Ministro, que não é coisa dispicienda neste país de letrados e de Senadores que fogem da mudança como o diabo foge da cruz. Neste triângulo, apesar da sua posição desnecessariamente desabrida, o Ministro é aquele que deve ficar. Quanto às duas restantes personalidades, a bem da coerência institucional da UP, seria bom que dessem lugar a outras personalidades. Prestariam um grande serviço à comunidade académica do Porto.


 

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

INCENDEÁRIO E CHEGUISTA ENCARTADO, DOIS EM UM?

Uma notícia surpreendente para André Ventura: o mandatário da candidatura do seu partido à Câmara de Vendas Novas, que por sinal já foi líder da respetiva concelhia e também candidato ao Município em eleições anteriores, foi detido em flagrante por suspeita de atear fogos. Dizer o quê quando a realidade fala por si? Assobiar para o lado e prosseguir na odiosa senda da denúncia “venturosa” de tudo e todos, do “regime”, que afinal só se aplica a alguns? Continuar a entender, entre a escolha fácil de uma postura romântica e a paralela evidência de um oportunismo conveniente, que a democracia é um puro espaço de expressão igualitária, incluindo discursos e propostas que a combatem e inibem de facto?

 

Interrogo-me sobre o modo como a notícia será recebida em Vendas Novas, um dos concelhos que estimei como mais propensos a uma vitória autárquica do Chega em exercício que recentemente publiquei no “Expresso”. Será o partido populista castigado pelos atos e omissões dos seus apaniguados, com o povo a ser agente ativo de uma lição democrática, ou ninguém quererá verdadeiramente saber por se tratar de um mero pecado pontual de alguém que cabe na velha categoria dos que “roubam mas fazem”?

 

Circunscrevo-me ao PSD e às próximas autárquicas para não explorar as recorrentes contradições de Montenegro e do Governo em matéria de “não é não”, ou seja, do respetivo relacionamento com a extrema-direita, repentinamente tornada mais responsável na palavra do primeiro-ministro (será a responsabilidade função do peso parlamentar?) e assim aceite como centro de um diálogo que antes se considerara impossível.

 

Temos, por um lado, a candidata à Assembleia Municipal de Lisboa nas listas de Moedas, Margarida Mano, a repetir as gastas teses da inexistência de “geometrias inadequadas ou inapropriadas” em nome de uma tentativa de branqueamento da falta de princípios valores compatíveis com uma sociedade livre mas não escancaradamente aberta aos seus inimigos. E temos, por outro lado, o candidato ao Porto (Pedro Duarte, PD), mais inteligente, a emendar a mão após o tiro no pé com que iniciou o mês de agosto e que ainda aprimorou em entrevista ao “Observador”: hoje, tudo visto e ponderado, PD afirma que nunca aceitará acordo de governação com o Chega e até acrescenta três motivos justos para tal, sustentando a terminar que “se há coisa que o Chega não é, é confiável” – e Montenegro que descalce a bota, uma bota que às tantas nem tem necessidade de descalçar dado o modo como parece pretender ficar na nossa pequena história de um chefe de governo que tudo subsume à manutenção a qualquer custo do poder pelo poder.

 

Neste quadro, José Luís Carneiro – que vive um exercício invulgarmente árduo e complexo na liderança de um PS em declínio, desorientado e fortemente dividido – merece um aceno de simpatia pelo compromisso em torno de um pacto anti-Chega que exige aos autarcas candidatos do seu partido. Haja mínimos, mesmo que não seja seguro o seu unânime cumprimento...




quinta-feira, 4 de setembro de 2025

VÁRIAS E DISPERSAS NUMA SEMANA DIFÍCIL DE REGRESSO AO TRABALHO

 


                                                                            


(O regresso ao trabalho é sempre complicado. Não porque seja suscetível a depressões pós-férias, acho que isso nunca me passou pela cabeça, mas porque o trabalho de consultadoria é cada vez mais difícil em matéria de elaboração de propostas. Retirando alguns privilegiados, como os grandes escritórios de advogados e algumas consultoras que se pagam mais pelo nome do que pela qualidade do trabalho que oferecem, em que as propostas de trabalho lhes chegam à porta sem grande esforço, a concorrência está dura e obriga a um grande investimento de elaboração de propostas para escrutínio da contratação pública. Assim aconteceu esta semana e por isso o cansaço de trabalho sobrepôs-se a qualquer tentativa de elaborar reflexão para o blogue e nem tempo tive ainda de ler o importante artigo que o meu colega do lado escreveu e bem para o Expresso, analisando as perspetivas de crescimento do Chega nas próximas eleições locais. Por isso, o que alimenta este post para retomar a prática da escrita são reflexões várias e dispersas ao sabor da espuma destes dias que fui registando no meu caderno mental para elaboração posterior)

Registo para já a cerimónia comovente de comemoração dos 80 anos da vitória aliada sobre os Nazis, através da qual a França de Macron procura encobrir para fora o grande lio em que está internamente envolvida, com o Governo de Bayrou num estado de nervos total, na corda bamba da agitação social e da pressão dos radicalismos do Rassemblement National de LePen e da França Insubmissa de Mélenchon e seus comparsas.

Podem dizer-me que a referida cerimónia é pura nostalgia do passado, mas para mim reunir no momento atual o Hino da Liberdade de Verdi (ópera Nabuco), Nana Mouskouri e a própria celebração ameaçada da Liberdade não é coisa pouca, antes pelo contrário tem um significado que só o contexto social e político atual permite compreender. Quando é que imaginaríamos que nos estaríamos a comover com os 90 anos límpidos e cristalinos da Nana Mouskouri e a força do Hino da Liberdade, com a imponência da Cidade de Paris como pano de fundo?

Verdi, o Hino e a própria Mouskouri são numa dada perspetiva passado nostálgico. Mas a Liberdade que os une não é passado, é presente ameaçado e talvez depois dos anos de ouro dos 50 e dos 60 não imaginássemos que a prezássemos tanto e com tão grande veemência. Não há como a França para construir estes momentos, mas há que convir que lhe sobra arte para resolver as suas próprias questões internas, elas próprias também ameaçadoras da Liberdade.

A outra reflexão prende-se com a Cimeira organizada pela China em prol de uma nova ordem económica e de política internacional que puxa para a Ásia a força da mudança, embora reunindo capitalismos de Estado e autocracias da pior espécie, por mais embelezadas que possam aparecer aos olhos dos cidadãos do Mundo. A culminar a Cimeira ou pelo menos em articulação de expressão comunicacional com a mesma, a grande parada militar organizada pela liderança chinesa atual é de tal maneira impressionante que Trump ficou de cara ao lado. Impressionado com a magnitude da cerimónia e certamente com a postura dos militares chineses, (“very impressive”, disse ele), Trump terá percebido o modo como o seu isolacionismo e bullying político associado está a fazer emergir uma espécie de outra coligação de organização do mundo. O homem está baralhado, pois é tudo muito amigo e das suas relações, mas a força expressiva daquela cerimónia impressiona (e amedronta) qualquer um, incluindo os seus apaniguados. Colateralmente, é impressionante ver como Putin passa, num ápice, de líder internacionalmente acossado para ser recebido em diferentes passadeiras vermelhas do Alasca a Pequim, com a Europa obviamente a ver navios. O mais recente artigo de Teresa de Sousa para o Público descreve, preto no branco e sem contemplações, a humilhação europeia evidenciada neste agosto último (Oh António Costa onde é que te foste meter?).

Finalmente, o karma português de pressentir com alarme as tendências securitárias mais incompreensíveis e, simultaneamente, ignorar em absoluto o que deveria ser uma cultura nacional inabalável de segurança manifestou-se tragicamente de novo, não agora nos incêndios rurais, mas antes num acontecimento manifestamente urbano, o desastre do elevador da Glória em Lisboa. A imagem internacional de segurança da Cidade fica claramente chamuscada com este grave e trágico incidente e seguramente que os fanáticos da xenofobia securitária não irão encontrar qualquer rasto de imigração no acontecimento. Espera-se uma rápida identificação das causas que terão precipitado a tragédia de um dos mais icónicos meios de transporte de Lisboa e que tantas vezes utilizei. Ontem, o responsável da Carris veio rapidamente comunicar que todos os protocolos de manutenção tinham sido respeitados. Assim sendo, aumenta a curiosidade sobre as causas explicativas do acidente.



quarta-feira, 3 de setembro de 2025

OITENTA ANOS DEPOIS...

(Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)


(Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)

Sob a égide de Xi Jinping, que encontrou na atual situação geopolítica mundial as condições permissivas de uma iniciativa chinesa, a Cimeira de Xangai terá sido um momento marcante de afirmação da ordem internacional alternativa de que há muito se vai ouvindo falar e que corresponde a uma expressão essencial do poderio económico, tecnológico e militar paulatinamente alcançado pelo país ao longo das últimas décadas.

 

Dito isto, importa acrescentar que de entre aquelas condições objetivamente favoráveis encontraram larga parte da sua operacionalidade no surgimento de Donald Trump e da sua estratégia nacionalista e de gradual transformação dos EUA numa autocracia crescentemente alheia aos valores democráticos fundamentais, bem assim como na relativa falta de comparência europeia no tocante a um lidar efetivo e consequente (leia-se focado, competente, corajoso, solidário e unitário) com os dossiês que potencialmente mais transportariam a garantiriam o fortalecimento de fatores de esperança num provir de paz e prosperidade.


(Nicolas Vadot, http://www.levif.be) 

 

O quadro que se nos apresenta para as bandas do Ocidente não é, de facto, brilhante, antes pelo contrário. O lado norte-americano é dominado pelo narcisismo doentio e ignorante de Trump, amplamente facilitado pela pragmática e servilista covardia de todos aqueles que atualmente estão ao comando dos destinos europeus (Merz ainda nos vai deixando alguma expectativa de poder vir a ser exceção...). Embora não se deva pensar que não existe um caminho bem estudado, visto como simultâneo de destruição e renovação, por parte dos conselheiros e influenciadores mais capacitados do presidente dos EUA (que é deles frequentemente, apenas, um instrumento a jeito e preceito, embora às vezes suscitando avanços e recuos em função da sua impulsividade e caprichos, não sendo até de excluir que Marcelo pudesse estar certo quando falou de “um ativo russo”).


(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

 

Quanto ao lado europeu, diria que a situação atinge o seu exponente máximo de perigosidade, começando a ser notória a completa incapacidade dos que estão diariamente in charge (Ursula e Costa, nomeadamente) e a absoluta necessidade de se repensar a respetiva arquitetura institucional (Draghi, na sua fria racionalidade, já o veio afirmar sem grandes hesitações), tendendo a manifestar-se incontornável o reconhecimento que cresce no sentido de que nada emergirá, em termos de tentativa de salvação da exemplaridade do modelo de sociedade que se enraizou no Continente, sem que algum tipo de federalização seja equacionado com frontalidade e seriedade – o problema, que é tudo menos facilmente ultrapassável, está em que tal obrigará ao recurso a ações firmes e corajosas contra os falcões e traidores internos (Hungria e Eslováquia à cabeça), o que não parece compatível sem roturas maiores face à ascensão do radicalismo de extrema-direita que se observa um pouco por toda a parte e num contexto em que os grandes e decisivos países (Alemanha, França, Itália, Polónia, Espanha, Países Baixos) se mostram a braços com impotências e indeterminações de múltipla natureza, mas invariavelmente gigantescas. Assuntos merecedores de revisitações.


terça-feira, 2 de setembro de 2025

MERCADO ACABADO!

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Fechou ontem à meia-noite o horrível mercado que domina o futebol e faz dele uma realidade tão questionável quanto continuadamente apaixonante. Não vou aqui meter-me nos detalhes desse mundo bastante obscuro que é o das detenções e transações de passes de jogadores e das engenharias financeiras e expedientes dos tão admirados empresários sanguessugas que aos poucos vão tomando conta dos acontecimentos, antes apenas pretendo sublinhar o modo profissional e ambicioso, outros bem diriam aventureiro e protelatório, como os maiores clubes portugueses enfrentaram estes meses de defeso.

 

Visto de fora, o Sporting terá sido aquele que mais ficou a perder, muito devido à saída inevitável de Gyökeres, o sueco que foi o seu ganha-pão nestes anos titulados, mas também porque vendeu Harder e não logrou adquirir Jota Silva por inacreditável e imperdoável falha de último minuto (ficando-se assim pela curta entrada de Luis Suárez) e, ainda, porque esteve desatento ao facto de não ter uma linha defensiva suficientemente capaz da consistência necessária para assegurar a luta pelo campeonato (como demonstrou no passado Sábado em Alvalade contra o FC Porto).

 

O Benfica, por seu lado, mais parece aquele tipo, brutalhão mas pouco inteligente, do “agarrem-me senão eu mato-o” – no caso, “agarrem-me senão eu compro”, aplicado ao que quer que seja e para preencher qualquer lugar que depois se há de ver. Durante semanas, o alvo prioritário era João Félix (que pena que não tenha vindo!), depois foi Thiago Almada, falhado este foram vários outros de muitas origens e qualidades e sempre anunciados como a “última Coca-Cola do deserto” (Moussa, Amoura, Carlos Álvarez, Brahim Díaz, Dybala, Zaniolo, Solomon, etc. etc.), até que vieram a sobreposição de Barrenechea e Richard Ríos (levando à venda de Florentino e a uma interrogação sobre a paciência do excelente Aursnes e o destino de Manu Silva), um avançado inexperiente (Ivanović) que permitiu a dispensa do herói da Champions (Aktürkoğlu) para o Fenerbahçe e permitirá a manutenção no limbo de Schjelderup e Prestianni, um criativo contratado à pressa (Sudakov) para substituir Kökçü (e sentar Leandro Barreiro) e um extremo descoberto no último dia (Lukébakio) para disfarçar o abandono de Di Maria (e a lesão de um não dispensado por lesão como Bruma). Embora outras situações tenham sido bem resolvidas, designadamente o caso dos laterais defensivos (Dedić, Dahl, Obrador, a somar a Bah), ficam dúvidas quanto aos guarda-redes (Trubin dá garantias suficientes?) e ao eixo da defesa (onde Otamendi vacila de vez em quando mas continua intocável, não obstante poder vir a lesionar-se e a ter de sair de cena). Ou seja: uma confusão de focos, muito investimento (130 milhões) e algum redundante ou inútil, um mercado comandado pelo fantasma das eleições de outubro que Rui Costa quer muito ganhar.

Foi o FC Porto que melhor abordou o dito mercado. Quer pelas figuras irrelevantes ou gastas (a maioria delas associadas a atletas esforçados mas limitados) de que se viu livre com claras vantagens financeiras em várias situações, entre vendas de passes e poupanças de salários – casos de Otávio Ataíde, André Franco, Namaso, Gonçalo Borges, Iván Jaime, Samuel Portugal, Fábio Cardoso, Baró, Grujić, Fran Navarro, Zé Pedro, João Mário e Francisco Conceição, este uma exceção à regra acima explicitada –, quer pela enorme revolução operada no plantel através de 11 contratações (Froholdt, Gabri Veiga, Alberto Costa, Borja Sainz, Bednarek, Kiwior, Pablo Rosário, Luuk de Jong, Prpić, Nehuén Pérez e João Costa), muitas largamente cirúrgicas e já testadas nas primeiras jornadas da Liga, quer pela recuperação conseguida de dois excelentes jogadores que vinham evidenciando baixa de rendimento (Pepê e Alan Varela), quer pela manutenção no grupo do categorizado capitão Diogo Costa e do “menino de ouro” Rodrigo Mora (que foi protagonista involuntário de uma novela inventada pelos comentadores da Capital, a despeito de ser mais do que claro que o seu talento carece ainda de ser trabalhado no sentido de o tornar mais forte e mais útil ao jogo coletivo), quer sobretudo pela contratação de um verdadeiro coach como é Francesco Farioli, a meu ver um treinador (focado, personalizado, liderante, sabedor, competente, lúcido e sereno) como há muito não se apresentava algum pelas nossas bandas clubísticas. Os portistas partiram para esta nova época com vários tipos de dúvidas metódicas e de fundo, talvez mesmo algo desconfiados e incrédulos, mas o primeiro mês de competição trouxe-lhes uma esperança justificada de que o seu FC Porto voltou e vai estar na primeira linha do combate pelos títulos nacionais e internacionais.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

ESTE VERÃO...

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

A viragem de agosto para setembro marca, para a maioria de nós, o prenúncio de um Verão a aproximar-se do fim. O deste ano foi particularmente escaldante, quer no plano climatérico propriamente dito quer no excesso de manifestações incendiárias que ocorreram e que tão deficientemente contrariadas foram pelas autoridades. Um dos meus cartunistas favoritos (Agustin Sciammarella), presença muito frequente no “El País”, também regressou hoje à atividade e fê-lo descrevendo apropriada e inspiradamente “um Verão entre Putin, Netanyahu e os incêndios” – optei, por isso, por aqui reproduzir o seu trabalho, obviamente sempre com a devida vénia. E a questão que nos assalta e atormenta, neste quadro mundial insuportável em que já é a natureza do regime norte-americano que começa a ser seriamente interrogada enquanto uma ordem internacional alternativa parece dar passos seguros e irreversíveis e Gaza e a Palestina são objeto de um extermínio criminoso ao lado da “operação militar especial” que os russos prosseguem paulatinamente na Ucrânia, é a de sermos capazes de olhar com um mínimo de esperança para o “lugar” que nos estará destinado quando chegar junho próximo...