domingo, 4 de dezembro de 2011

UMA ENTREVISTA REVERENTE


A longa entrevista de Pedro Passos Coelho (PPC) ao Público de hoje tem mais conteúdo do que a realizada na SIC com José Gomes Ferreira. Mas foi uma entrevista reverente. Uma jornalista reverente (Maria João Avillez). A introdução da entrevista diz tudo. Uma nova mensagem de comunicação começa a emergir: a resistência do Primeiro-Ministro (com invocação da costela transmontana e tudo). Um Primeiro-Ministro também reverente, sobretudo em relação à situação internacional e europeia em particular.

Destaco alguns aspectos que ora exigem acompanhamento atento futuro, ora confirmam traços de governação.

Entre os primeiros, cabe sobretudo focar a “folga” orçamental trazida para a cena política não por um inseguro e desautorizado Seguro, mas fundamentalmente pelas condições concretas em que os fundos de pensões da banca vão ser transferidos, folga estimada em dois mil milhões de euros. Conviria esclarecer publicamente os contornos desta transferência. A cobertura do tema pela comunicação social complicou o que já é, por si só, bastante complexo. Tanta iliteracia financeira junta que alguém do Governo, banca, sindicatos bancários ou mesmo Banco de Portugal deve apresentar uma explicação consistente. E aqui a entrevista não foi muito informativa. Antes havia sido transmitida a ideia de que a referida transferência iria permitir o pagamento de dívida pública à banca. PPC fala de pagamentos à economia, proporcionando condições de liquidez a alguns agentes. Tal como referi em posts anteriores, não é indiferente o modo como a injecção da “folga” é realizada na economia. Daí a necessidade de acompanhamento futuro desta ginástica orçamental de última hora.

Entre os traços de governação reafirmados pela entrevista, dois merecem aqui algum destaque.

Quanto à retórica do crescimento, em amparo de um cada vez mais desamparado Álvaro Santos Pereira, PPC martelou uma vez mais o tema das reformas estruturais. Reformas estruturais no sentido mais estrito e doutrinário do termo, isto é, criação de condições favoráveis a um ambiente de mercado: reforma da administração pública (onde está ela?) e do sector público empresarial, novo código de concorrência, legislação no trabalho para investidor estrangeiro ver, questão energética, justiça. A muito lenta produção de resultados nestas áreas combinada com a baixa de confiança empresarial induzida não só pela austeridade interna como pelo espectro da recessão europeia corre o risco da retórica de crescimento não passar disso. E a par disto não há na entrevista qualquer perspectiva favorável do problema do crédito à economia ser resolvido, mesmo sob o ponto de vista do apoio ao sector transaccionável. Preocupação não chega, sobretudo quando a nível europeu e internacional o risco do “credit crunch” está ao rubro.

Na frente europeia, a reverência às posições alemãs é defendida com base numa nuance, a coincidência e não colagem de posições. Sabendo nós, que o debate europeu será esta semana intenso, com várias interpretações da chamada “união fiscal” em conflito, nem todas necessariamente benignas, exigir-se-ia mais clareza de mensagem ao país. Com mandato eleitoral recente, seria útil conhecer a posição que Portugal defenderá na próxima cimeira europeia. Escondido nas posições da Senhora Merkel, antevendo uma vitória mesmo que parcial das suas teses? Na expectativa de tirar partido de eventuais compromissos gerados pela discussão? O carácter muito vago da entrevista é pouco confortável. Diria mesmo preocupante.

E o que pensam os deputados portugueses no Parlamento Europeu? Pegando na ideia de Wolfgang Munchau de hoje (http://www.ft.com/intl/cms/s/0/874af280-1cde-11e1-a134-00144feabdc0.html#axzz1fbo2zJlN), estarão a fazer o seu trabalho de casa como o deputado inglês (democrata liberal) Andrew Duff no âmbito da sua proposta sobre uma nova Convenção em matéria de governação económica da EU (http://andrewduff.eu/en/article/2011/538248/andrew-duff-launches-convention-agenda)? Gostaríamos de saber.

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