quinta-feira, 21 de junho de 2018

UM GRANDE SENHOR QUE DESAPARECE




Penso que foi Maria Filomena Mónica que chamou a estes protagonistas do Portugal económico “capitães da indústria”, que talvez devêssemos substituir neste caso por capitão da economia do vinho. O trajeto de Fernando Guedes escalpelizado no artigo de Manuel Carvalho é em si ilustrativo de como foi possível construir um grupo empresarial de raiz familiar (a família Guedes e duas outras de figuras que ajudaram na construção do universo Sogrape) apontado à economia global do vinho. Sabemos como essa economia global do vinho é trituradora dos que não têm unhas para ousar enfrentar o gigante. Essa trajetória de união de referenciais na criação de valor só temporariamente foi ameaçada pela entrada na participação do capital do “alien” Joe Berardo, que obviamente não poderia dar certo porque ofendia a coerência do projeto. Na construção do universo Sogrape há seguramente dimensões organizacionais que valeriam poderosos estudos de caso de gestão nos tempos complexos da economia mundial do vinho, a braços com estruturas de distribuição cada vez mais concentradas e ameaçadoras. Essas dimensões organizacionais estiveram seguramente presentes mesmo antes do universo se ter projetado na economia global, compreendendo que uma coisa é fazer umas coisas engraçadas e valiosas para aparecer nas revistas da especialidade, outra coisa bem diferente é ter escala para poder responder aos desafios da procura. Ter-se-ão reforçado à medida que a Sogrape se transformou numa economia global. Mas o que me interessa destacar é que essas dimensões organizacionais não teriam existência sem a figura de quem assumiu inicialmente o risco da aventura, quem definiu os seus colaboradores mais próximos de jornada, quem educou a família para o seu projeto e preparou a sucessão com paixão e responsabilidade.

Do Norte para país e para o mundo sem perder os valores, sem os comprometer, criando uma relação equilibrada entre o capital e o trabalho, fazendo dos valores da excelência organizacional a base de toda a afirmação, eis a imagem do Norte que sempre admiti ser possível que muitos compreendessem. O Senhor Fernando Guedes personificou exemplarmente essa imagem do Norte global, foi uma das suas essências e por isso o seu desaparecimento é uma perda que a organização Sogrape e os seus timoneiros de hoje irão compensar, estou seguro disso, continuando a inscrever uma das raras presenças portuguesas na economia global do vinho.

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