(É seguro afirmar que o modelo de Estado Social em França é o que apresenta em toda a Europa a maior rigidez. Não só o alcance e magnitude desse Estado são dos mais avançados, como qualquer reforma possível do mesmo tem sido arduamente contrariada por uma intensa agitação social de resistência a tais alterações, como nos recordamos todos ainda do fenómeno dos Gilets Jaunes e da violência que o caracterizou. Mesmo tendo em conta que a manobra oculta então promovida por Macron de, à luz da fiscalidade verde, querer introduzir mudanças fiscais que eram uma dádiva aos mais ricos, tenha facilitado a adesão ao movimento, a verdade é que a violência então libertada mostrou bem como o Estado Social francês é rígido e alérgico à mínima mudança. O governo liderado por François Bayrou tem preparado um imenso e amplo corte orçamental, estimado em 44 milhares de milhão de euros que, obviamente, irá ter impacto nas conquistas sociais dos franceses, cuja principal justificação segundo as hostes de Macron é o nível que começa a ser insuportável pelas Finanças Públicas do endividamento francês. Uma vez mais, sem qualquer surpresa, a reação popular a esta ofensiva de austeridade, sim é a palavra que deve ser utilizada, assumirá grandes proporções, mas o movimento que emergiu na sociedade francesa é agora de mais difícil interpretação. É esse o ponto do post de hoje, já que os contornos que o referido movimento tem assumido é, em meu entender, paradigmático do contexto político em que as democracias europeias se encontram.)
O movimento que se anuncia para o 10 de setembro surge configurado como uma espécie de insurreição generalizada com aspirações de bloqueio da sociedade francesa que o diretor-adjunto do Nouvel Observateur remete para a inspiração de Étienne de la Boétie, um filósofo e cientista político dos tempos de Montaigne, que considerava que a servidão voluntária era uma condição de todas as tiranias, pelo que renunciar a essa servidão era um primeiro passo para bloquear essas mesmas tiranias.
Segundo a revista, o movimento do 10 de setembro teve origem num coletivo relativamente obscuro de origem nacionalista e com ligações à extrema-direita, designado de Les Essentiels. Mas muito rapidamente a ideia de bloqueio generalizado invadiu as organizações da esquerda mais radical – a França Insubmissa de Mélenchon a ela também não resistiu – cruzando-se com outros movimentos de cidadãos desgostosos com a situação social do país, com reminiscências ainda vivas do movimento dos Gilets Jaunes.
O facto da austeridade fiscal de Bayrou incomodar uma maioria gigantesca de franceses, estima-se que 75% da população francesa estará contra o conjunto de medidas de Bayrou e disposta a manifestar-se de qualquer forma ou intensidade na rua, pode explicar a muito rápida e generalizada adesão que a paragem do 10 de setembro de 2025 granjeou.
O que é relevante na antecâmara da paragem ou bloqueio do 10 de setembro é a profunda divisão entre um movimento antissistema político, contra a classe política e todos os corpos intermédios entre ela e a população e as forças mais tradicionais, designadamente os sindicatos, que não podem obviamente aderir à vertente antissistema político do movimento.
De qualquer modo, trata-se de mobilização social seja do tipo antissistema político ou organizada pelas forças sindicais e outras forças populares associadas que tem na sua origem a profunda resistência quanto a eventuais alterações do Estado Social em França. O sistema francês está de facto longe da flexibilidade do modelo social escandinavo, mas o que é novo na antecâmara do 10 de setembro é que a resistência às reformas do mesmo deixou de ser monopólio das organizações de esquerda para passar diria a ser comandado por forças antissistema político, cujas paredes meias com o populismo de extrema-direita são hoje claramente assumidas. Claro que num contexto desta complexa natureza, o afundamento do Partido Socialista Francês faz parte ele próprio do problema, sendo por isso uma interrogação qual vai ser a resposta do governo de Bayrou e do próprio Presidente Macron. Os riscos de repressão e de guerra urbana aberta são elevados, com os conhecidos efeitos de reprodução da revolta inicial e de engrossamento dos que ousam ocupar e manifestar-se na rua.
Por isso, considero que os acontecimentos do 10 de setembro terão de ser exaustivamente compreendidos.

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