sexta-feira, 29 de agosto de 2025

EXCERTOS DE VERÃO (TAKE 5)

 


Questões de geopolítica

(As questões da geopolítica internacional regressaram em força à ciência política e à política externa na justa medida em que o elefante na sala Donald Trump veio baralhar o já abalado consenso mundial em torno da globalização. A utilização dos direitos aduaneiros como arma descarada de pressão política e de bullying internacional está em franco desenvolvimento com epicentro em Washington, tendo as economias emergentes dos BRIC o alvo principal. Assim, o demonstram os direitos aduaneiros de 50% sobre as importações para os EUA provenientes da Índia e do Brasil, mas por razões fundamentalmente diversas. A Índia porque Trump pretende dissuadir aquela potência mundial de continuar na influência da órbita de Moscovo e o Brasil porque Trump, revendo-se nele próprio, acha que Bolsonaro é primo da Madre Teresa de Calcutá e que os seus problemas com a justiça brasileira são resultado puro e simples de perseguição política. Tal como noutras decisões do tresloucado Presidente americano nada é estudado com profundidade antes delas serem tomadas. Se o tivesse feito, compreenderia que a Índia e o Brasil são ossos duros de roer, mesmo no bullying mais abjeto, porque, nem sempre pelas melhores razões, a Índia e o Brasil têm desenvolvido em simultâneo com a interação com a economia americana uma tentativa determinada de desenvolvimento de novas relações, designadamente com o eixo asiático da economia mundial.)

O excerto que hoje vos trago vem de um artigo de alguém com visão a partir de dentro desta questão, pois é professor de Relações Políticas Internacionais na prestigiada Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. É um pequeno excerto, mas suficientemente claro e denso para preencher os critérios desta seção estival

“(…) Washington olha hoje para a política externa segundo uma perspetiva de aliados ou de adversários. Para as economias emergentes esta é uma falsa escolha. O posicionamento estratégico significa cultivar múltiplas e sobreponíveis relacionamentos que previnam qualquer dependência de um único grande poder. Pensem nisto como uma versão geopolítica de uma estratégia de portfólio de títulos: tais como os investidores diversificam o risco por vários ativos, as nações diversificam a dependência por muitas relações. O objetivo não é a autossuficiência, mas antes manter a liberdade de ação. Quando as alternativas existem, nenhum parceiro pode por si só ditar os termos. (…)”

Matias Spektor

New York Times, edição internacional de 28 de agosto de 2025.

O que o artigo de Spektor nos traz é uma série de evidências sobre estratégias concretas da Índia e do Brasil para diversificar as suas relações comerciais, se bem que o modelo de capitalismo de compadrio que ainda caracteriza as duas economias possa funcionar como um travão a essa tentativa. De qualquer modo, no seio dos BRIC, a Índia e o Brasil são os que têm mais avançado nesta direção, sendo por isso monitorizados com atenção pelos restantes países ameaçados pelo elefante na sala.

Trump recusa-se a entender que uma postura de bullying internacional não favorece ninguém na cena internacional, até porque a diversificação de relacionamentos na cena internacional exige custos elevados de coordenação. Mas o que estes países compreendem é que a ordem económica internacional marcada por hegemonias claras se não está em vias de extinção, está pelo menos abalada exigindo estratégias de salvaguarda por parte dos países interessados em redirecionar e mitigar as suas fontes de dependência.

Até que a situação se clarifique, o principal obstáculo está nas características internas do capitalismo instalado nestes países. O “crony capitalism” com fortes nuances de capitalismo de Estado nem sempre encontra as estruturas de coordenação mais pertinentes e desligadas dos interesses de compadrio que o definem para organizar uma prudente diversificação de relações.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário