(Riki Blanco, https://elpais.com)
Cumpro hoje, com cerca de um mês de atraso, a promessa resultante da minha procura dos votos improváveis ou logicamente menos compreensíveis ocorridos nas eleições legislativas de maio. Juro que a minha tentativa foi séria, mas a realidade é que a “adivinhação” não é o meu forte e, por outro lado, os elementos a que acedi ou que consegui construir não se me revelaram suficientemente consistentes entre si. Assim, a melhor estimativa estará associada às matrizes indicativas das transferências de voto entre partidos que foram divulgadas por ocasião da sondagem à boca das urnas feita no próprio dia das eleições pelo Centro de Estudos e Sondagens (CESOP) da Universidade Católica Portuguesa para a RTP. Seguem algumas das principais conclusões possíveis.
Primeiro, a AD e o Chega terão sido os partidos cuja fidelidade partidária exibiu maior grau de significância, com os respetivos votantes de 2024 a repetirem a sua escolha em 2025 em altíssimas percentagens (92% e cerca de 88%, respetivamente); em sentido inverso, o PS, o Livre e a CDU apenas fixaram apoio num valor em torno de dois terços do obtido no ano transato, a IL ficou-se por pouco mais de 55% e o Bloco não chegou aos 30%.
Segundo, os cruzamentos de votos mais marcantes aconteceram entre os três maiores partidos, em favor do Chega relativamente aos outros dois (150 mil contra 70 mil – ou seja, 80 mil votos líquidos – conquistados à AD e 105 mil contra 15 conquistados ao PS – ou seja, 90 mil votos líquidos) e da AD perante o PS (104 mil conquistados contra 44, ou seja, 60 mil líquidos).
Terceiro, acresce ainda que o Chega alcançou ganhos líquidos em todos os casos, com destaque para o balanço face à IL e a recuperação de uns milhares de brancos e nulos e previsivelmente também para alguma captação de abstencionistas (pese embora o aumento globalmente superior a 170 mil votos registado nestes, que terá incidido em apoiantes prévios de outras forças).
Quarto, outras indicações adicionais relevantes são a perda líquida da AD face à IL (cerca de 35 mil votos), o que contrasta com uma perda de 15 mil dos liberais relativamente ao Chega e com o equilíbrio entre os mesmos e o PS; no tocante aos partidos mais pequenos, o Livre retém 26 mil votos líquidos anteriormente assacados ao Bloco, embora tenha perdido uns escassos 5 mil líquidos para o voto útil no PS (valor que ascende a cerca de 30 mil no caso das trocas com o Bloco).
A tendência de mudança comportamental dos eleitores nacionais fica assim confirmada. Sem prejuízo desse facto, o que apurei vai mais no sentido de uma complexificação por quebra das rigidezes que predominavam nas escolhas do que de um desastre puro e duro em desfavor do Partido Socialista, o que conduz a perspetivas mais cinzentas do que negras nos escrutínios que se avizinham. Mas estas são parte de outra história que ainda não estou em condições de contar.

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