O FABULOSO MUNDO DA RELAÇÃO ENTRE A PSIQUIATRIA E A NEUROCIÊNCIA
(A jornalista de investigação científica da New Yorker Rachel Aviv elabora peças de investigação jornalística que dignificam a revista no que ela tem do que para muitos é um oásis elitista, cuja sofisticação deve ser odiada pelo MAGA e outros aficionados de Trump. São normalmente peças longas, o inglês não é propriamente latino ou trivial, pelo que os números em papel vão se acumulando cá por casa ou por Seixas, aguardando o tempo para aquela leitura serena que o dia a dia nem sempre proporciona. Há dias, já em preparação para o retiro em Seixas, li uma dessas peças, datada de 21 de julho passado, que me encheu as medidas e me levou a elaborar um novo excerto de verão, o take 2. O tema da investigação jornalística são as ainda misteriosas relações entre a psiquiatria e a neurologia ou neurociências, tendo por base novas evidências sobre esquizofrenia. A peça de Rachel Aviv está estruturada em torno de uma história de vida de uma mulher casada e com duas filhas que no escalão dos 40 anos (pouco frequente, pois as idades de revelação da doença são em regra em idades mais novas) começou a evidenciar sintomas de perturbação e de construção de situações ilusórias que foram diagnosticadas como evidência de esquizofrenia, tendo a partir daí seguido um rumo bastante comum na referida doença, com internamentos, tratamento com psicóticos que, também como é frequente, não trouxeram qualquer melhoria ao quadro mental da paciente. A história desenvolve-se depois em função de uma misteriosa recuperação registada pela paciente, não na sequência de tratamentos específicos para a esquizofrenia, mas antes como resultado de tratamentos a um linfoma entretanto diagnosticado, algo de semelhante a efeitos colaterais positivos de medicamentação para tratar o linfoma.)
A curiosidade desenvolvida pela filha mais velha da paciente no sentido de procurar as razões para a mais que improvável recuperação efetiva e sustentada do quadro de esquizofrenia levou-a a contactar com psiquiatras e neurocientistas interessados em explorar explicações neurocientíficas para a eclosão do quadro inicialmente diagnosticado de esquizofrenia. A via mais promissora era a de entender que poderia tratar-se de perturbações do funcionamento cerebral induzidos por circunstâncias de autoimunidade do cérebro das pacientes inicialmente diagnosticadas. A medicação utilizada para refrear a atuação errada do sistema imunitário estaria a reverter as perturbações erradamente interpretadas como esquizofrenia. Ou seja, a nova hipótese seria a de que as doenças autoimunes poderiam desenvolver as tais perturbações que no quadro do conhecimento psiquiátrico existente eram identificadas como esquizofrenia.
A investigação suscitada por estas novas revelações permitiu descobrir inúmeros anticorpos associados a perturbações psiquiátricas, a ponto de alguém ter falado de “psicose autoimune”.
Trata-se de matéria que vem trazer novo fôlego e um novo campo à colaboração entre psiquiatria e neurociência e é nesse campo que deve ser interpretado o excerto de hoje, retirado precisamente da excelente peça de Rachel Aviv:
“O S.N.F. Center está envolvido num projeto, que se iniciará este outono, que consistirá em scanarizar todos os pacientes hospitalizados no Sistema de saúde mental do Estado de Nova Iorque para identificar perturbações de autoimunidade, metabólicas e genéticas e avaliar se existem doentes cujos sintomas possam ser atribuídos a um mecanismo biológico distinto. “Sempre admiti a possibilidade de que existem causas de comportamentos psicóticos de longo prazo com tratamento possível”, afirma Joshua Gordon, Diretor Executivo do N.I.M.H. “Mas a noção de que podemos intervir praticamente no assunto – que podemos testar- apenas se tornou visível nos últimos anos”. O S.N.F. Center irá realizar trabalhos de análise de sangue para todos os que estão internados nas instituições psiquiátricas do Estado, proporcionando testes de acompanhamento, tais como punções lombares, para aqueles que revelem resultados pouco frequentes. Gordon afirmou que se o S.N.F. Center identificasse algumas dezenas de pacientes passíveis de ser tratados para abandonar o hospital, “Podemos começar a colocar a questão de ser possível estender a abordagem a toda a população diagnosticada com esquizofrenia”.
Como é óbvio, este simples excerto não substitui a leitura do entusiasmante artigo. A probabilidade desta via promissora de investigação embater de frente com as restrições orçamentais de investigação pública da administração Trump é elevada. E para essa forma de loucura não haverá provavelmente efeitos colaterais positivos de outras medicações.

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