(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)
Este post nasce de uma leitura do “El País” de ontem, um jornal que se vai impondo crescentemente como aquele que trata de modo mais equilibrado as questões europeias. Isto também porque se respira melhor aqui na Península, visto que os franceses são algo suspeitos na sua lógica por demais franco-francesa, os alemães são mais inacessíveis e estão a braços com dificuldades internas de monta que lhes não permitem o desempenho adequado de responsabilidades supranacionais, os ingleses já estão noutra, os italianos parecem inebriados pela ardilosa Giorgia Meloni, os polacos e demais parceiros de centro e leste europeu estão preferencialmente a olhar para os vizinhos do lado de lá e os nórdicos e os pequenos ricos do Continente já não sabem muito bem de que terra são nas suas perdidas divagações entre imigrantes e direitos humanos.
Os títulos, de que acima reproduzo alguns mais elucidativos, falam por si. Entre peças sobre o desnudamento da Europa em seis meses por parte de Trump, a submissão a Trump a abrir mais caminho à extrema-direita e o beco sem saída em que a UE acabou na guerra comercial com os EUA, o editorial aponta a óbvia e extrema debilidade da Europa e uma desejável mas improvável reação adaptativa urgente em resposta às inúmeras ameaças em presença.
Tornou-se cada vez mais claro, à medida que Trump chantageava, o dilema de sempre perante as manifestações de força (seja ela mais ou menos real): ou mantermo-nos agarrados aos princípios, não recusando um árduo e imprevisível braço-de-ferro, ou cedermos em nome da previsibilidade aos ditames intimidatórios do tirano. E a verdade é que há boas razões para argumentar em defesa de uma e outra perspetiva, o que surgiu bem evidenciado em vários episódios da História Universal em que se defrontaram convicções inalienáveis e realismos convenientes.
De entre estes ressaltam duas prioridades conjunturais iniludíveis: “evitar uma escalada na guerra tarifária e evitar o abandono na guerra da Ucrânia”; ao que se acrescenta a anterior “resignação dos aliados europeus da NATO face à imposição de um exagerado objetivo de gasto militar” para fazer ressaltar quanto a “Europa carece dos instrumentos e da confiança em si mesma para a geopolítica atual”, ou seja, quanto “faltam capacidades, falta coesão política para as construir e falta utilizar adequadamente as que efetivamente existem”. Os termos do caminho a seguir parecem inequívocos: completar o mercado único para ultrapassar a fragmentação que prevalece, investir coordenadamente, construir bens públicos europeus, fomentar a inovação e fortalecer e estreitecer capacidades militares criando um pilar europeu na NATO – só que, se o caminho parece óbvio, os meios mais integracionistas (e federalistas?) necessários à sua concretização carecem de emergir, antes recrudescem escolhos importantes como os do imparável crescendo do nacional-populismo e os da miopia associada à dominância dos interesses nacionais.
Não obstante os sublinhados precedentes, a questão que se deparou à União durante estes meses não deixa de possuir alguns contornos adicionais razoavelmente específicos. Desde logo porque a negociação ficou integralmente entregue a uma dirigente sem qualificações políticas e legitimidade democrática para se assumir como todo-poderosa, a senhora Ursula von der Leyen, fazendo com que a sua incapacidade para fazer prevalecer primordialmente a autoridade moral do projeto europeu e a predominância das suas ambições de afirmação pessoal se tenham sobreposto à procura de posições comuns ou articuladas aos Vinte-e-Sete. Daí a justeza de frases como “claudicação política perante a coerção” ou “lógica de submissão”. Importando ainda não esquecer “a irrelevância autoimposta da UE [incapaz de tomar a mais mínima ação coletiva para pressionar o governo de Netanyahu] perante a matança de Gaza” que objetivamente corresponde a “uma abdicação imperdoável da sua liderança moral no mundo”.
Depois porque não é em nada irrelevante que de um dos lados da limitada contenda negocial estivesse uma União Europeia portadora de um trajeto inédito e incomparável à escala mundial, ademais dotado de um historial construtivista que não deve ser menosprezado (a começar pela paz e prosperidade que granjeou ao Continente durante muitas décadas). O que aconteceu aos olhos do mundo na Escócia foi não apenas uma lamentável e escusada exibição da “fragilidade e dependência de um bloco europeu que não está preparado para afrontar o desafio de lidar com grandes potências governadas com instintos avassaladores” como também uma vergonhosa e covarde exibição de “palavras e gestos de submissão ao valentão norte-americano”.
Arriscando mais uma versão de “Pedro e o Lobo”, concluirei afirmando que a “solução final” não será agradável para esta Europa que diz que muda sem mudar, que diz que faz sem fazer e que diz que é sem verdadeiramente o ser – nem com a expectavelmente inspiradora assistência presencial do “otimista irritante” que nasceu com o traseiro voltado para a Lua...


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