quinta-feira, 28 de agosto de 2025

FISSURAS EM SERRALVES

 

(O meu colega de blogue já se pronunciou sobre o pedido de demissão da Professora Isabel Pires de Lima da presidência da Fundação de Serralves, com a sua própria interpretação de algo que é uma exceção em relação à duração de Presidências anteriores. Mas a justificação dada pela agora demissionária Presidente é simultaneamente tão contida e sugestiva que não resisto a elaborar uma pequena crónica sobre o assunto. Para tal não disponho de qualquer informação adicional além da que pode ser obtida a partir dos jornais que registaram a notícia, pelo que a minha interpretação está simplesmente ao nível do que qualquer vulgar cidadão, frequentador das instalações da Fundação e dos seus projetos mais proeminentes, pode elaborar a partir dos materiais noticiosos que foram tornados públicos. É curioso que Isabel Pires de Lima utiliza o termo de falta de confiança institucional não no sentido que seria de esperar numa parceria público-privada, que teria de ser proveniente quer do representante Estado, quer dos representantes do setor empresarial e civil que apoiam a Fundação. O termo é, porém, utilizado para cobrir segundo a Presidente demissionária a falta de confiança dos restantes elementos da Direção, expressa numa espécie de controlo minucioso de todas as decisões que deveriam ser assumidas em plena autonomia pela Presidência. Além disso das notícias publicadas, destaco dois outros aspetos que suscitam interesse de discussão – as relações com o Conselho de Fundadores presidido pela anterior Presidente Ana Pinho e uma reflexão breve e fugidia, mas importante que Isabel Pires de Lima realiza sobre a missão que deveria caber a Serralves e que se depreende ela pensa não estar a ser cumprida na sua plenitude. Matéria suficientemente sugestiva para não passar despercebida.)

O pedido de demissão apresentado por IPL é acompanhado de um esboço de razões que a terão determinado, cobertos pelo conceito de falta de confiança institucional, mas proveniente dos seus parceiros de Conselho de Administração. A indicação de IPL para o cargo foi aprovada, sabe-se, por maioria absoluta e não por unanimidade, o que sugere que o seu nome, embora ligado à instituição desde 2015, não tenha sido do agrado generalizado de quem poderia pronunciar-se. Imagino que o nome de IPL tenha sido ainda proposto no âmbito do governo do Partido Socialista, mas não tenho a certeza de tal circunstância. O que é evidente na justificação adiantada é segundo a Presidente demissionária a alteração das condições com que as decisões de IPL começaram a ser escrutinadas pelos restantes elementos do Conselho de Administração.

Creio que valeria a pena existir uma explicação mais cabal e estruturada das razões que terão levado IPL a considerar que as suas decisões estavam a ser escrutinadas de modo mais minucioso não proporcionando à Direção executiva uma maior autonomia de decisão. Sem essa explicação, o clima de suspeição fica no ar acerca da possibilidade do Conselho de Administração considerar eventualmente que o nome de IPL não corresponderia ao que o Conselho pensa ser a orientação desejável para Serralves. Dada a importância da Fundação para a política cultural da Cidade esta questão não poderá ficar no segredo dos corredores. A Cidade tem o direito de saber o que é o CA da Fundação pensa sobre o seu futuro.

Mas, em meu entender, o aspeto mais intrigante das justificações que constam da notícia do Público é a referência que IPL faz ao Conselho de Fundadores, que é presidido como sabemos por Ana Pinho, anterior Presidente da Fundação. Refere a notícia que IPL não terá nunca recebido qualquer prova de desconfiança do Conselho de Fundadores, mas deixa no ar a afirmação de que membros do Conselho de Administração lhe terão referido que essa desconfiança existiria. Ora aqui está matéria que urge esclarecer, sobretudo porque é conhecido o estilo de Presidência de Ana Pinho na Fundação, uma espécie de Senhora disto tudo na instituição, como foi sendo conhecido a partir de testemunhos informais vindos de dentro da instituição.

Mas talvez a dimensão de maior importância analítica futura é a afirmação de IPL sobre a missão que segundo ela Serralves deveria protagonizar: “Na minha perspetiva, um espaço de produção de arte como é Serralves tem, a todo o momento, de incomodar, desestabilizar, interrogar ou então será apenas um lugar de pessoas demasiado contentes consigo próprias, naquela felicidade potencialmente castradora que o sucesso traz”. Ora, sem querer ser mauzinho, esta afirmação pode ser lida através do seu contrário, sugerindo assim que Serralves terá deixado de “incomodar, destabilizar e interrogar”. Esta é que me parece ser a matéria mais crítica e inspiradora de toda a notícia sobre o pedido de demissão de IPL.

E, para memória futura próxima, convirá ir monitorizando a política da instituição, para avaliar se a premonição da sua agora Presidente demissionária estava certa.  Nada mais sugestivo do que compreender como é que uma instituição como Serralves se posiciona face à onda de convicções que por aí grassa, em nada próximas com o incomodar, desestabilizar e interrogar”.

 

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