(O povo diz, com a sua sabedoria, que quem não tem cão, caça com gato. Os líderes europeus estão apostados em glosar este adágio. Como não têm qualquer estratégia viável ou sequer credível para resolver o problema da Ucrânia, exploram até à exaustão a sua reatividade face às sucessivas mudanças de direção do eternamente errático Trump. Essa foi a face mais visível do que aconteceu, primeiro, na reunião entre os dois predadores no Alasca e, depois, na companhia que fizeram a Zelensky na sua viagem a Washington para ouvir de Trump o que terá saído da reunião do Alasca. De facto, se registarmos com atenção o que Trump prometeu antes desses dois eventos e o confrontarmos com o que em termos públicos foi posteriormente comunicado, é fácil perceber que as lideranças europeias terão ficado no escuto mais profundo sobre as decisões a tomar na sua companheira viagem a Washington. As exigências de cessar-fogo, a ameaça de sanções económicas a doer e a eventualidade de um acordo de paz em tempo útil para contrariar os mais recentes avanços russos no terreno tudo isso se desvaneceu rapidamente nas passadeiras vermelhas do Alasca, a mítica Anchorage de uma das minhas séries de estimação, e a nebulosidade adensou-se com as reuniões de Washington. Não se percebe o que Trump estará a tramar para não ferir as suscetibilidades do que considera ser o país nº 2 da hierarquia mundial, o cúmulo da fantasia. Pressente-se que Trump está a ser sensível à imagem que ficará de um acordo à custa do território ucraniano livre e, por isso, navega ao sabor da complexa estratégia de negociação de Putin. O confronto entre a fanfarronice errática de Trump e a frieza glacial de Putin coloca os líderes europeus em permanente expectativa, pagando os custos da sua mais completa falta de estratégia.)
O jogo de sombras em que a posição europeia se transformou acontece com os líderes europeus perfeitamente conscientes da imprevisibilidade errática de Trump, da sua falta de simpatia pela Europa e pela Ucrânia. Mas a sua posição é assumidamente tão frágil que a mínima migalha é aproveitada. Aliás isso foi visível na ausência completa de qualquer referência à coragem e resiliência ucraniana nos comunicados oficiais, disposição que o povo Ucraniano bem merecia..
No seu estilo habitual, Trump declarou vitória, tudo se passando como se tivéssemos assistido à cimeira mais decisiva da história. E a confusão é tão manifesta que mesmo os analistas mais lúcidos e profundos não sabem se essa declaração de vitória é apenas uma nova manifestação da fanfarronice de Trump, se oculta algum traço negocial que não foi divulgado. Para os Europeus, num posicionamento sem qualquer estratégia credível, a ida dos principais líderes europeus a Washington acabou por ser o único rasgo de lucidez revelada nos últimos tempos.
Nestas condições de incerteza, a ténue garantia de que os EUA assumirão compromissos de segurança à Ucrânia no desenvolvimento do eventual acordo de paz acaba por ser o que de mais positivo emerge de toda a falta de informação existente. O que, mesmo assim, deve ser relativizado face às condições de política interna americana.
Até lá, Putin e os seus agradecerão a Trump esta oferta de reaquisição de protagonismo internacional, mesmo com o Tribunal Internacional a exigir a sua detenção.
Estranhamente, nada transpirou quanto às condições de exploração das riquezas do Ártico, matéria de mais fácil tratamento para os dois predadores do que os mais ínfimos meandros da diplomacia de guerra.
Oxalá me engane, mas quando os Russos afirmam que um possível encontro Putin-Zelensky tem de ser preparado ao mais ínfimo pormenor, devemos interpretá-lo como preparar as coisas para que o líder ucraniano chegue ao encontro fragilizado e vencido.

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