(Riki Blanco, https://elpais.com)
Vivemos um tempo absolutamente único, seguramente inédito para os seus frequentadores e quiçá também na história do Planeta. Por um lado, observamos e (pres)sentimos os efeitos da explosiva afirmação de um “admirável mundo novo” em que extraordinárias criações tecnológicas permanentemente nos surpreendem, fascinam e produzem mudanças facilitadoras nos nossos modos de vida e de trabalho. Por outro lado, assistimos impotentemente a expressões brutais de medievalismo numa relação entre os povos ditada e imposta por governantes sôfregos em termos de poder pessoal e de ganância material e completamente destituídos das faculdades emocionais e humanitárias que a qualidade de ser existencial supostamente implicaria.
Neste quadro, sobressaem os trabalhadores intelectuais que se deixam alienantemente capturar pela iniludível atratividade das inovações tecnológicas e pela forma como elas motivam saltos e realizações sempre maiores e mais capacitantes (ou, por vezes, apenas viabilizam aparentes capacidades em quem nunca poderia sequer conceber a respetiva existência, assim gerando frequentemente indesejáveis efeitos perversos) e saem de cena aqueles outros que mais não conseguem do que permanecer agarrados ao seu triste e quase imutável quotidiano, feito de trabalhos árduos e mal pagos ou de “ganchos” e pensões de miséria e alimentado por mecanismos como as telenovelas televisivas, os “Alertas CM”, os infindáveis debates futebolísticos em torno das façanhas que vão logrando os dois compinchas da Segunda Circular, as cervejas no café da esquina ou os jogos de cartas no jardim mais próximo de casa e os acessos imbecilizantes ao “Facebook” ou ao “Instagram”, tudo modernamente potenciado pelos inopináveis prodígios obtidos a partir de uma máquina falante de funcionamento cada vez menos percetível e mais viciante; todos obviamente desligados e desinteressados das desgraças que pelo mundo se vão incessantemente espalhando a uma velocidade tremenda.
(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)
Pelo meio disto tudo, ou nos seus interstícios, há as vidas perfeitas e paradisíacas daquela estranha fauna que escapou, por obra e graça das suas prósperas genealogias ou dos seus variegados e espertos atributos propiciadores, aos fados malditos da maioria dos semelhantes ou às crescentes desventuras dos remediados em vias de apoucamento ou extinção. Vivendo fora da realidade que se apresenta aos comuns mortais, contratando especialistas que por eles multiplicam sob comissão os seus proventos e posses, agindo em função dos agenciamentos locais e nacionais que em conformidade os tratem e melhor lhes aproveitem, eles são, pela sua incomensurável capacidade de abstração, os mais lucidamente desfocados senhores deste mundo do Século XXI; eles não têm mesmo de chegar a incomodar-se em se apresentarem como sendo nada ou em defenderem o que quer que seja, ideologica e socialmente falando, pois que simplesmente lhes é bastante a encomenda aos seus capatazes do financiamento e do voto no liberalismo económico e no autoritarismo político, limitando-se a aplaudir à distância as vitórias daqueles que saibam interpretar os seus justos princípios nos moldes destemperadamente populistas que pululam no seio da ralé e na multiplicidade de comunicações que esta assimila e repete.
Têm a sua razão, no entanto, aqueles que se deixam seduzir por tão “admirável mundo novo”, já que ele não deixa de ser indiscutivelmente novo e pujante como quer que o queiramos caraterizar. Só que esse mundo é também tão novo pelo que traz como pelo que exclui, pela desigualdade que intensifica, pela concentração de fatores de riqueza que fomenta, ou seja, pela inclusão que não promove e pela generalização do bem-estar que não garante, apesar de um brutal alargamento das fronteiras tecnológicas em dimensões absolutamente inigualáveis no contexto das sociedades humanas. É um mundo dual aquele que vamos vendo construir-se sob os tremendistas ditames da lei da força e da força de um conhecimento essencialmente apropriado e reproduzido ao serviço de grupos de interesses específicos e integralmente avessos aos valores do bem comum. À nossa pequena escala, não faltam por cá os exemplos deste dualismo em gestação, não apenas bem ilustrados pelas configurações urbanísticas e organizacionais patentes nos projetos da Comporta como por tantas outras iniciativas reservadas/fechadas que alastram quase impercetivelmente pelo território nacional.




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