quinta-feira, 28 de agosto de 2025

QUE SE PASSA EM SERRALVES?

Há um “não sei quê” de esquisito que está a acontecer no Porto. Já não é de agora esta minha sensação, já tem algum tempo de cozedura em lume brando, mas a realidade é que crescem os indícios, às vezes quase impercetíveis, de que estão a ganhar peso no Porto modos de estar e viver, quando não modos de ser, que têm relativamente pouco que ver com as essências, as tradições e os pergaminhos da Cidade.
 
Por um lado, a multiplicação de focos de pobreza e envelhecimento poderá explicar o fenómeno, fechando segmentos importantes da população numa incapacidade de acesso à modernidade e ao cosmopolitismo que sempre fizeram parte do código genético do burgo. Mas, por outro lado e a meu ver ainda mais relevante, a ganância imobiliária e concentração da riqueza (também no mapa das localizações habitacionais) conduzem, de forma cada vez mais visível, a manifestações de novo-riquismo incompatíveis com a genética do “portuense de gema” ou a opções e atitudes despropositada e falsamente elitistas, ademais aferrolhadas em desinseridos convívios de natureza estritamente autocentrada ou umbilical, que igualmente pouco têm a ver com o papel que desempenharam as elites que noutros tempos foram sendo encaradas e assumidas como um verdadeiro exemplo social e relacional a seguir pelas camadas anónimas da população.
 
Vem todo este arrazoado na decorrência do espanto com que recebi a notícia da demissão de Isabel Pires de Lima da presidência da Fundação de Serralves e do que dela intuí sem qualquer inside ou conhecimento de causa. Porque se trata de uma Instituição incontornável para a imagem atual do Porto – contando com décadas de obra notável no domínio da arte contemporânea, da arquitetura, do cinema, do ambiente e de atividade cívica de múltipla ordem –, e porque para o bom funcionamento da mesma muito contribuíram personalidades diversas e de diferentes origens e trajetos (João Marques Pinto, Teresa Patrício Gouveia, Fernando Pernes, Álvaro Siza Vieira, António Gomes de Pinho, Luís Braga da Cruz, Rui Vilar e Ana Pinho, sem quaisquer pretensões de exaustão e sem deixar de salientar os mais de 350 Fundadores que são mostra de vitalidade e abertura à sociedade envolvente e empresarial), o facto ocorrido não deixou de me suscitar apreensão e alguma surpresa, não por ele trazer à tona alguns dos motivos de desagrado que já me invadiam as meninges mas designadamente por ele ter tornado públicas incompatibilidades e desavenças que nunca antes tinham alcançado a dimensão de “roupa suja por lavar” que lhes devia estar vedada.
 
É certo que havia uma clara e difícil transição a fazer na sequência da longa e muito marcante passagem de Ana Pinho pelo comando da Fundação. No entanto, tal estará longe de explicar tudo aquilo que gostaria que não estivesse a afetar a reputação da Instituição e a função de role model que lhe coube enquanto expressão vibrante de uma sociedade local colaborante e parceira. E é aqui que volto ao início, àquela minha sensação de um “não sei quê” de esquisito que está a acontecer no Porto. E quando o tal caminho em direção ao defraudar das essências, tradições e pergaminhos da Cidade por razões de inconfessável supremacia de interesses pessoais, frívolos ou ostentatórios, se encontra com uma ação política central, regional ou local incapaz de o contrariar, quando não capaz de o estimular, ficam criadas condições ótimas para uma lamentável implosão de projetos que pareciam poder estar na base de saltos culturais de qualidade e da correspondente esperança num revitalizador fortalecimento da sociedade local e nacional envolvente...

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