terça-feira, 5 de agosto de 2025

EXCERTOS DE VERÃO (TAKE 1)

 


(As férias de agosto aproximam-se e esta modorra misturada com a canícula extrema, embora não possa deveras queixar-me olhando para as temperaturas acima dos 37 graus centígrados em alguns pontos do país, dá cabo de mim. E este dar cabo de mim é transversal, vai do cansaço à motivação para algum esforço físico ou mental, embora tenha arranjado, na última, disposição para atividades de manutenção caseiras, neste caso pintura de manutenção de decks, que as madeiras agradecem, também elas atingidas pela severidade climática. Neste contexto, como não penso abandonar o blogue mesmo sujeito a esta modorra estival, inventei uma nova secção, a que chamei excertos de verão, através dos quais capitalizarei, com a devida vénia, claro está, o esforço mental de outros. Começo com um excerto de um cronista pouco falado na imprensa portuguesa, Xosé Luís Barreiro-Rivas, que a esquerda portuguesa deve odiar, mas com isso posso eu bem, habituado que estou, sendo eu de esquerda, a com ela colidir em algumas frentes, sobretudo em domínios em que o seu pensamento cristalizou. Mas em Portugal os jornais galegos são pouco lidos, com algumas exceções como eu que se habituaram às charlas com Amigos galegos, alguns deles já desaparecidos pela voragem da vida.)

As crónicas de férias de Barreiro Rivas têm pormenores deliciosos no seu conservadorismo bastante heterodoxo, sobretudo porque estão pejadas de referências à sua vasta cultura religiosa e rural, o personagem andou pelos seminários, antes de ter investido na política, com um percurso pelo menos controverso, e na ciência política, catedrático em Santiago de Compostela. Há inúmeras referências à cultura rural galega, com foco especial na sua aldeia de Forcarei, município da província de Pontevedra.

Mas a crónica que invoco hoje não tem essa matriz rural. Está centrada, pelo contrário, no Concerto para Piano em ré menor de Brahms, opus 15, com estreia em 1859 com o próprio Brahms ao piano. O concerto foi considerado na altura de extrema dificuldade de execução pianística, a ponto de se considerar que apenas o próprio Brahms ou expoentes como Clara Schumann ou Liszt o poderiam tocar com alguma dificuldade. O facto de muitos anos passados o número de jovens virtuosos que o tocam com a maior das facilidades inspira a Barreiro Rivas uma conclusão à qual fui buscar o primeiro excerto desta minha nova secção:

O meu contributo limita-se a extrair uma conclusão que nem Brahms, nem Liszt, nem Joaquim José puderam imaginar. Porque a mudança cultural que está a observar-se na Europa conduz a que, também na música, as técnicas de adestramento e de interpretação alcançaram limites que tinha sonhado antes como possíveis, e hoje temos milhares de intérpretes jovens que se atrevem a tocar Brahms sem pestanejar. Mas o que em troca perdemos foram os compositores incríveis que alcançaram o topo musical de todos os tempos, que entre os anos de 1750 e 1900 se amontoaram no centro da Europa até esgotar todas as vagas de génios que a história registava. Ou seja, ganhámos a técnica, mas perdemos o saber, a inspiração e a genialidade que, remarcando a glória do Romantismo, constituem a essência inimitável da Europa”.

Será esta uma forma culturalizada do conservadorismo de Rivas? Dir-me-ão alguns que na música contemporânea também poderemos identificar os génios deste tempo. Mas será que tem sentido comparar génios de diferentes épocas históricas? Mas estaremos de facto perante técnica e tecnologia a mais e pensamento a menos?

Estou exausto de tanta reflexão, Ufa!

 

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