(Agosto vai a meio, a canícula deu tréguas cá por cima, a praia não está propriamente convidativa, sobretudo para aqueles que perderam o gosto de a frequentar com assiduidade e as esplanadas da praça central agradecem, a ponto de haver falta de cadeiras. Olho para os rostos dos que enchem as várias esplanadas e ninguém parece seriamente preocupado com o que se passa no mundo, afinal são férias que fizeram por merecer. Entretanto, hoje, para desespero de milhões de ucranianos que continuam a lutar pela sua sobrevivência como país e nação independente, dois predadores natos, Trump e Putin encontram-se no Alasca, naquilo que tresanda a repartição de espaços na ausência da vítima, numa espécie de sancionamento refletido da imoralidade feita ordem económica internacional. Imoralidade balizada pela tentativa de Trump se fazer ao Prémio Nobel da Paz, consagrando o que de mais ignóbil poderia ser imaginado em torno dessa atribuição e conspurcando a memória de todos que justa e fundamentadamente receberam esse galardão. O que esperar realmente deste encontro de predadores com ausência da vítima? Uma partilha despudorada de território a valorizar economicamente? A criação de condições para transformar em facto inevitável a cedência de território por parte da Ucrânia? Alguma imposição de limitar a força do agressor, obrigando-o a reconsiderar o alcance da invasão? Ou simplesmente negócios, passando por cima de toda a bravura de quem resiste à invasão, mas vai perdendo força no terreno? Qualquer uma destas hipóteses é credível e isso diz bem do que podemos esperar de um encontro entre dois predadores.)
A inteligência artificial diz-nos que “quando dois predadores se encontram, a situação pode variar bastante, dependendo de diversos fatores como as espécies envolvidas, os seus tamanhos, a relação entre elas e o contexto do encontro (localização, disponibilidade de presas, etc.). Em alguns casos, pode haver confronto direto, com brigas pela disputa de território, presas ou dominância, podendo levar a ferimentos graves ou até mesmo à morte de um dos animais. Em outros casos, eles podem evitar o confronto, cada um seguindo seu caminho, ou talvez até mesmo ignorarem a presença um do outro”.
O fascínio do predador Trump pelo poder do predador Putin tem encurralado o presidente americano em promessas e expectativas que a dinâmica do relacionamento com Putin tem sistematicamente desmentido. Daí talvez a inversão da estratégia, apostando em contrapartida pela linguagem transacional dos negócios e os Ucranianos que se amanhem.
Mas a verdade é que Putin chega à cimeira do Alasca com boas notícias na frente, com evidência de várias penetrações nas linhas defensivas ucranianas, o que o colocará numa posição de força relativamente á tese de que o conflito não tem fim à vista.
Estranhamente, há quem refira que isso resultou de erros de tradução no encontro em Moscovo do enviado especial de Trump com Putin, a ideia de troca de territórios emergiu no contexto preparatório da cimeira do Alasca, não se sabendo se envolvendo território ocupado por forças russas em território ucraniano, se outras parcelas do território hoje não ocupado pela ofensiva russa. De qualquer modo, a sibilina entrada do tema troca de territórios no contexto da preparação da cimeira coloca a Ucrânia e os Europeus que a apoiam numa posição extremamente delicada e de manifesta fragilidade.
A história é madrasta nestas coisas e pode bem acontecer que um Resistente como Zelensky saia vergado do teatro dos acontecimentos, associado a uma cedência de território, facto que culminaria a imoralidade feita ordem internacional.
Preparemo-nos.


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