quarta-feira, 6 de agosto de 2025

ESTE GOVERNO NÃO QUER NADA COM AS POLÍTICAS BASEADAS EM EVIDÊNCIA

 


(A ministra Maria do Rosário Palma Ramalho foi um dos nomes do elenco governativo de Montenegro que me suscitaram a invocação do benefício da dúvida. É uma Professora Catedrática prestigiada da Faculdade de Direito de Lisboa, conhecia bem o Ministério e desde cedo assumiu uma postura contributiva que, em meu entender, a diferencia do tom geral destes dois Governos, onde se fala mais do que se atua, sempre prontos a flirtar com a comunicação social mais metediça. Surpreendentemente, nos últimos dias, a Ministra apareceu associada a alterações no Código de Trabalho relacionadas com os períodos de amamentação das mulheres que deram à luz, fazendo-o com declarações aparentemente infundadas sobre abusos desse direito, quando a verdade efetiva é que o Governo nem tem dados sobre o número de mães que solicitaram o uso desse direito. O que significa esta deriva numa Ministra que aparentemente se situava do lado da prudência e das políticas baseadas na evidência? O que se passa, em meu entender, é que Maria Rosário Ramalho cedeu ao tom predominante neste Governo, sempre pronto a conceder eco aos rumores de café, segundo os quais o “diz-se que se disse” é suficientemente importante para gizar alterações de política, afinal para agradar a outros Senhores que não os da evidência. Que tanto podem ser empresários que têm suspeições sobre as reduções de horário que se viram forçados a aceitar ou então querer agradar ao Senhor Ventura, mestre na transformação do salpico em evidência inabalável ou do rumor em base de geração de políticas públicas. Por isso, à revelia do rumo de boas práticas que as políticas públicas estão a tomar em alguns países, dando origem ao que se chama política pública baseada em evidência. Que uma personalidade como Maria do Rosário Ramalho tenha sucumbido a esta tentação mostra inequivocamente que se trata de uma dinâmica que transcende a personalidade e coerência dos ministros ou ministras e que se trata de uma orientação que vem do primeiro-Ministro e dos seus principais representantes no Governo como Leitão Amaro e no Parlamento como Hugo Soares.)

As políticas baseadas na evidência são o que de melhor temos ao nosso alcance para desideologizar as políticas públicas, mesmo que aceitemos que haverá sempre um núcleo irredutível de políticas baseadas em valores. Mas as “evidence-based policies” veiculam também uma relevante externalidade positiva. Comprometem os Governos na defesa intransigente na qualidade e independência da informação estatística publicada e acessível a todos. Dou de barato que nem todos os governos podem cruzar as políticas baseadas na evidência com políticas experimentais de avaliação do que vai ser proposto. Mas o compromisso com a evidência é uma orientação saudável de resposta aos rumores e ao “diz-se que se disse”, contrariando os que navegam alegremente pelo mundo das perceções ou do subjetivismo ampliado nas cloacas das redes sociais.

Em relação ao caso concreto, o que ficamos a saber é que o legislador não consegue suportar as alterações sobre os direitos de amamentação, porque não sabe sequer o número de mulheres que usaram esse direito que lhes assiste. Cedeu ao mundo dos rumores e das impressões e seguramente a algum empresário mais reacionário em relação aos direitos das mulheres. Não há informação, paciência. Baseámo-nos no universo do rumor.

Será também por acaso que as estatísticas da imigração sofreram um enorme apagão, porque o INE e a AIMA não se entendem nos critérios ou em qualquer outro pormenor? Não é por acaso, porque é essa indeterminação que reforça o critério das perceções em detrimento da política baseada em evidência. Já não falo na prática que Trump estará a instalar de demitir elementos da administração quando as estatísticas oficiais não agradam ao soberano. Os dados do emprego na economia americana ficaram abaixo do esperado – logo demite-se a responsável. Obviamente que por cá não estamos nesse cenário. Mas o desprezo pelas políticas baseadas na evidência pode conduzir a disparates desse quilate.

Mas o paradoxo mais rudimentar é este Governo que, aparentemente tanto se preocupa no discurso com a queda da fertilidade em Portugal, segue rumos de alteração de política que batem de frente com essa imperiosa necessidade de criar condições favoráveis a uma fertilidade mais generosa.

Alguém imagina que a criação de melhores condições para o aumento da taxa de fertilidade poderá passar ao lado do contributo das empresas para a melhor integração da prática profissional das mulheres com a sua vida familiar? As empresas devem também contribuir para esse objetivo, pois dele beneficiarão a prazo, empregando quadros-mulheres mais motivadas e socialmente responsáveis.

 

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