(Em tempos que já lá vão, o agosto em Seixas era um frenesim de leitura, devorava tudo que ficara suspenso em fila de espera para leitura mais atenta. Atirava-me a tudo, ensaio, romance, história e alguns livros de economia que me despertaram a atenção. Esse frenesim de leitura é, por agora, uma simples recordatória do passado, vou lendo é verdade, mas não ao ritmo a que despachava os montes suspensos de livros. A modorra estival vai tomando lentamente o corpo das minhas energias e as leituras vão-se sucedendo a um outro ritmo, até porque as revistas e os jornais, New York Times, New Yorker, Economist, Prospect, Nouvel Observateur vão ocupando espaço e o tempo parece mais curto, vou dormindo cada vez mais, contrariando o que parece ser para muitos um dos indicadores do envelhecimento, dormir menos. Mas nestas leituras fugazes de agosto há uma obra que me tem ocupado bastante, sobretudo porque dá corpo e profundidade a uma das questões nas quais tenho investido mais reflexão e leitura, o declínio demográfico inexorável do ocidente e do mundo em geral. O título é sugestivo: Henry Gee (2025), The Decline and fall of the Human Empire – Why our species is on the edge of extinction, Picador (Mac Millan).
O que atrai na obra de Henry Gee é o facto de o declínio demográfico ser lido numa perspetiva de tempo longo, diria de tempo mesmo muito longo, já que a análise começa em tempos imemoriais um pouco antes do Homo sapiens se ter transformado na única espécie sobrevivente da família dos hominídeos ou humanos em geral. Sabemos que os hominídeos se destacaram pelo facto de se deslocarem em dois pés, sendo esse simples facto responsável por uma série de evoluções e também de contrariedades e doenças, das quais as hérnias são a manifestação mais conhecida. Sabemos também que entre dois a três milhões de anos atrás, os hominídeos estavam restringidos ao território africano, tendo a partir da espécie Homo, particularmente a sua espécie melhor sucedida, o Homo erectus, abandonado a sua terra ancestral para se dispersarem por todo o mundo, ocupando praticamente todas as massas continentais, a Europa ocidental e a Ásia ocidental com os Neanderthais, com exceção da Nova Zelândia, Madagáscar, ilhas oceânicas mais remotas e a Antártida que nunca foram visitas pela espécie.
A moderna investigação mostra que a espécie do Homo sapiens enfrentou sempre um problema de escassez original, sendo por isso que a variedade genética dos chimpanzés é superior à de todas as espécies humanas. O Homo sapiens tem a sua origem em pequenos grupos de fundadores que sempre lutaram contra a extinção em diversos períodos da sua evolução, sobretudo com as civilizações do frio e da secura, daí que a pegada genética da baixa diversidade seja a sua característica fundamental.
Henri Gee sublinha que:
“A teoria evolucionista sugere que as espécies são bem-sucedidas quando têm parceiros para interagir. Como o grupo de Helsínquia mostrou, quando a competição é eliminada, a estagnação instala-se e uma dada espécie torna-se vulnerável a circunstâncias do ambiente externo, em idêntica medida às forças que atuam a partir de dentro. Assim aconteceu com o Império Romano interpretado por Gibbons[1], assim como com as espécies humanas.”
Quer isto significar que o declínio da espécie humana tem origens ancestrais. Segundo Gee, a única forma sustentada de diferir no tempo o declínio da espécie humana é seguir o caminho explorado pelo Homo erectus que evoluiu da sua origem africana para a criação de múltiplas novas espécies adaptadas a nichos de território. Como a espécie humana se tornou na única espécie a habitar o universo que conhecemos, a saída possível seria a criação de colonatos na Lua, territórios longínquos e habitats isolados, acompanhado de outras medidas como a redução de vulnerabilidades alimentares, dependências das plantas e da carne e obviamente a investigação científica e tecnológica.
Mas a questão para mim mais importante é a pegada da baixa diversidade genética que paira sobre a espécie humana. Ora, se as populações caucasianas do Norte continuarem na sua senda xenófoba e isolacionista de rejeitar o contacto com o Outro, afastando a imigração, estão pura e simplesmente a adensar a ameaça da baixa diversidade genética.
Não é despropositado antecipar o cenário de que, em vez da rejeição xenófoba, não possamos ter num futuro que não será tão longínquo como isso conflitualidade da grossa na atração de populações de outros contextos demográficos, particularmente do africano.

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