sexta-feira, 8 de agosto de 2025

EXCERTOS DE VERÃO (TAKE 3)

 

A LOUCURA DA DESREGULAÇÃO MUNDIAL

(O excerto de hoje provém de um artigo assinado pelo meu Amigo Fernando Laxe, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Corunha, Galiza, que já foi Presidente da Xunta de Galicia e com o qual tive o prazer de realizar alguns trabalhos conjuntos no âmbito da Associação de Ciudades Eixo Atlântico. O Fernando é um daqueles representantes da chamada economia estrutural, cujas origens remontam a economistas como François Perroux e que tem resistido a toda a tentação neoclássica de expurgar da economia a noção de tempo real e irreversível, em que a evolução das economias é “path-dependent” (dependente do percurso e da irreversibilidade do tempo). Essa resistência metodológica tem-lhe permitido manter a lucidez teórica na compreensão da economia galega e da importância da sua dimensão infraestrutural na economia-mundo, hoje fraturada. A ele se devem as análises mais lúcidas e completas do sistema marítimo-portuário da economia galega e com ele muito aprendi na extensão dessa perspetiva a toda a economia da chamada Euro-região, inexistente para muitos, ambição para outros, área de trabalho para poucos. Um economista estrutural como Laxe tem naturalmente uma visão diferente da loucura das guerras comerciais, não hesitando em considerá-las uma perda global para todas as partes envolvidas no processo. Esta convicção é muito importante em que alguns economistas dobram a cervical, condescendendo com a arbitrariedade da política comercial externa. Um economista estrutural como Laxe compreende que o tempo em economia tem uma dimensão por vezes lenta e arrastada, antecipando por isso que os malefícios das políticas de Trump podem seguir um tempo de manifestação mais lento do que o desejaríamos, o que o pode colocar a salvo de mostrar resultados negativos nas eleições intercalares para o Congresso de 2026. Essa dimensão do tempo dilatado pode ser benéfica ou penalizadora para Trump, ainda não o sabemos bem. Tanto os efeitos demagógicos por ele proclamados podem não se concretizar, o que lhe seria desfavorável, como os efeitos antecipáveis mais penalizadores podem demorar o seu tempo a manifestar-se. )

O excerto é retirado da sua crónica na Voz de Galicia, onde Laxe escreve com alguma regularidade, de onde retiro também, com a devida vénia à sua autora, o cartoon escolhido para abrir este Take:

“(…) A desconfiguração da ordem mundial já está entre nós. As apostas caóticas e desorganizadas no protecionismo comercial vão pôr à prova as políticas económicas e comerciais dos países. Para tornar efetiva a imposição de direitos aduaneiros de 25% a todas as importações de bens, são os primeiros compassos de uma guerra comercial global que se perfilam.

Olivier Blanchard (ex economista-chefe do FMI) afirma que a situação atual caracteriza-se por uma mudança nas regras de jogo internacionais, na medida em que “quando se assina um contrato com ele (Trump) não se tem a mínima ideia sobre se o vai ou não cumprir”. Isto é, entramos num mundo em que a lei da selva vai dominar, ou o que é o mesmo, num mundo com guerras comerciais sem regras. Daí que se insista em que a imposição de direitos aduaneiros gera perdas para todas as partes, gerando brechas, fraturas, economias fragmentadas e onde as tensões provocam choques no sistema hiper-globalizado, e em que a segurança e a defesa se converteram em objetivos prioritários e onde a intensidade do comércio internacional diminui”.



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