O FASCÍNIO DA PROSPETIVA
(Por necessidades profissionais e também por interesse simplesmente intelectual, o mundo da prospetiva que acompanha regra geral os exercícios de cenarização que o planeamento contingencial nos obriga a considerar conduz muito frequentemente a visões alternativas extremadas, identificadas com roturas assinaláveis nos contextos das nossas vidas diárias. Compreende-se a necessidade da cenarização evoluir por percursos extremados, marcando diferenças entre trajetórias para melhor serem compreendidas as dimensões de mudança que a prospetiva sugere poderem acontecer. Essa tendência para os cenários contrastados que a prospetiva traz normalmente consigo tem o grave risco de nos fazer esquecer que grande parte das mudanças que enfrentamos podem acontecer ao nível mais mundano possível. Assim, grande parte dessas mudanças acontecem não necessariamente agrupadas, emergem nas nossas vidas e quotidianos, gerando comportamentos de adaptação que lidos a posteriori nos parecem sem dívida mãos gigantescos do que a adaptação no dia-a-dia sugeriu. O excerto de verão que hoje transporto para o blogue resulta de um artigo de um designer americano, Nick Foster, que trabalhou em sítios importantes como a Apple, a Google, a Nokia e a Sony e chama-se “O futuro será mundano”. Pareceu-me ter simultaneamente a leveza e a profundidade com que imaginei estes excertos.)
“Quer estejamos a falar de inteligência artificial, de mudança climática, robótica ou tempo passado frente a ecrãs pelos jovens, é incrivelmente fácil – e incrivelmente preguiçoso- perspetivar o futuro como um lugar de extremos. É muito mais difícil – mas muito mais útil – tentar compreender coo é que essas coisas podem afetar um ato tão simples como passear um cão.
Os humanos são incrivelmente adaptáveis. Demonstrámos ser muito capazes de ajustar o nosso comportamento e tecer o que quer que surja de novo nas características do nosso modo de viver. Ao longo da minha carreira descobri que pensar sobre o futuro como uma experiência vivida e usual – e não como uma fantasia utópica ou um horror distópico – ajuda sempre as pessoas a gerir essa mudança, dando-lhe um sentido e ajudando a conversar sobre tais factos.
Quando pensamos no futuro, abrimos sempre caminho a grandes e ambiciosos planos, alertando as pessoas sobre colapsos ou desastres potenciais, mas o trabalho não acaba aí. Enquanto as histórias de mudança radical podem nos causar excitação ou horror, elas podem igualmente soar a algo de muito abstrato. Se não começarmos a pensar no futuro como uma extensão do presente – e se não desenvolvermos um foco obstinado nas implicações da mudança nos ritmos mundanos da nossa vida – o futuro continuará a ser entendido como algo de distante, intangível e de certo modo como outra coisa, e essa fraqueza pode transformar-se num falhanço crítico da nossa geração”.
A relevância das mudanças que dialogam com os nossos quotidianos não são de modo algum incompatíveis com a ideia de alteração de grandes paradigmas, que dão origem a constelações de inovações. Mas essas constelações de inovações são inteligíveis e compreendem-se a posteriori. Mas o tempo longo manifesta-se sempre de algum modo no tempo presente e por isso Nick Foster tem razão quando nos cita a necessidade de compreender que a mudança é sempre uma extensão do presente.
Talvez seja uma boa forma, em contexto trágico de incêndios, de fazer compreender às pessoas que a severidade climática está aí encontrando-se connosco ao virar da esquina ou na surpresa de um matagal transformado em massa combustível. A resiliência constrói-se como extensão do presente, trágico é certo, mas suficientemente vivo para nos induzir uma compreensão mais profunda.
E é necessário começar a preparar os territórios para a gestão das enxurradas de outono e inverno.

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