(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)
Ana Sá Lopes (ASL) escreve hoje nas páginas do “Público” (“No Pontal, um primeiro-ministro a brincar com o fogo”) o que qualquer cidadão que consiga preencher os mínimos de noção e decência sentirá perante o Montenegro que se nos revelou a partir de maio passado: sobre o enfrentar da chaga dos incêndios, “não houve Governo durante os incêndios”, “a ausência de comando político durante uma crise nacional como os incêndios é um problema” e “ver as imagens, nas revistas sociais, de um ‘Montenegro mais magro’ a mergulhar nas águas do Algarve enquanto o país ardia transmite uma perceção de alheamento”; sobre o Pontal, o “pior discurso de sempre enquanto primeiro-ministro”, um “discurso errático e ‘piegas’” e “quem ouviu Montenegro criticar as televisões por ‘preencherem os ecrãs com metade da imagem com labaredas e outra metade com a Festa do Pontal’ viu, naquele discurso, um grau elevado de descolamento da realidade”; sobre a questão de fundo da imigração e da Lei dos Estrangeiros, a prática e o verbo de Montenegro vão ao exato encontro de grande parte da direita e da direita populista radical, designadamente assumindo “a versão dos votos de vencido [dos juízes do Tribunal Constitucional] e pondo em causa a instituição e a sua maioria de juízes”. ASL já explicitara numa crónica anterior, cujo título era completamente onomatopaico (“Montenegro e Ventura: não há casamento (ainda) mas já há uma relação séria”), o essencial da deriva que se apoderou do líder do PSD, muito bem caraterizada noutra crónica do mesmo jornal assinada por Manuel Carvalho (”Um governo que hesita entre Passos Coelho e Viktor Orbán”) em que o articulista sublinha o desafio de Montenegro à identidade do seu partido (embora sendo ainda cedo “para decretar a traição do PSD aos seus valores”), “a troca da moderação pelo radicalismo”, a falta de “utilidade, sentido ou coerência” nessa mudança e os riscos da deriva em curso e através da qual “de mansinho, sobram sintomas de que o Chega entra na governação” e de uma “ameaça” que levará a que a propósito se tenham de pronunciar diversos militantes social-democratas de maior envergadura intelectual e ideológica. Tenho as minhas dúvidas, mas veremos o que se nos oferece; entretanto, o primeiro-ministro lá cancelou as férias que tão saborosamente gozava.

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