terça-feira, 12 de agosto de 2025

UMA OUTRA FORMA DE CONVERGÊNCIA A NÍVEL MUNDIAL?

 


(O mainstream do crescimento económico defende, acredita talvez seja uma expressão mais adequada, que controlando por algumas características estruturais dos países menos desenvolvidos, o desenvolvimento económico em economias abertas determinará que os mais desenvolvidos cresçam menos do que os mais pobres. A esta pretensa evidência das economias abertas a economia de mainstream designa de convergência condicional. O condicional deriva das condições estruturais de partida das economias menos desenvolvidas que podem condicionar fortemente as taxas de crescimento em economia aberta que se oferecem aos menos desenvolvidos. O argumento que subjaz a esta convicção de que a convergência condicional é possível é também amplamente conhecido: quem começa mais tarde pode ter acesso a condições de progresso tecnológico inexistentes para os que começaram primeiro. Logo poder crescer mais, desde que os tais condicionantes sejam atenuados ou erradicados, constitui uma possibilidade real, basta que não se imponham obstáculos artificiais aos benefícios de tirar partido da acessibilidade ao progresso tecnológico. Deixaremos de lado a questão da velocidade a que se converge.Tudo isto se observa no domínio da convergência económica. A pergunta inevitável consiste em avaliar se essa confiança na convergência é passível de ser estendida a outras formas de convergência – a social e a psicológica. No que respeita à convergência social, tratar-se-á de questionar se crescer mais quando mais tarde se inicia o processo implicará também ganhos sociais equivalentes. A matriz psicológica é mais complexa e implicará saber se a convergência económica é percebida do ponto de vista da satisfação pessoal – convergir economicamente implicará que os cidadãos desses países se sintam por isso mais satisfeitos com o que alcançaram e alimentem expectativas mais positivas quanto ao futuro? Trata-se de questões que acompanham naturalmente a reconsideração crítica dos indicadores de crescimento económico, seja o crescimento do PIB, seja o crescimento do PIB por habitante ou mesmo da produtividade. Há estudos e sondagens para tudo. A GALLUP tem desenvolvido gigantescas sondagens a nível mundial e a Universidade de Harvard tem desenvolvido um não menos gigantesco estudo a partir de 2022, O Global Flourishing Study (GFS), com entrevistas a mais de 200.000 pessoas em 22 países em estádios de desenvolvimento diversos. É sobre estes resultados que construo na crónica de hoje.)

O resultado mais interessante desta nova abordagem à questão da convergência é a ideia de que existe no universo inquirido de pessoas um número crescente de pessoas que há 10 anos a esta parte declara ter melhores expectativas quanto ao futuro, como resultado da melhoria da sua situação material. Essa conclusão é dominante nas populações de países menos desenvolvidos, com ganhos significativos de bem-estar nesses países. Em contrapartida, as populações de economias mais desenvolvidas, como os EUA, o Canadá, a Europa Ocidental, a Austrália e a Nova Zelândia, embora continuem a evidenciar níveis superiores de bem-estar, são as que apresentam quedas de bem-estar mais significativas. Para estes países, menos de metade (49%) alimenta fracas expectativas quanto ao futuro e essas expectativas estão em queda flagrante. Os americanos destacam-se nesta matéria, com 30% apenas a manifestar-se esperançoso num futuro, em linha com os indicadores conhecidos de aumento das taxas de suicídio, de isolamento social e de queda vertiginosa da confiança nos outros.

Tudo se passa como se o sistema de valores que impulsionou o crescimento económico mais rápido dos que iniciaram primeiro o processo “quando assumidos de modo mais excessivo acabam por ser penalizadores para o bem-estar”, quebrasse designadamente o sentimento de pertença a uma dada comunidade. Por outras palavras, como se a preocupação excessiva com o sucesso económico acabasse por degradar as condições sociais e morais que deveriam acompanhar o enriquecimento humano e a satisfação individual.

Estamos perante uma estranha forma de convergência e más notícias que baste para o mundo ocidental desenvolvido. A cultura do ressentimento explorada até ao tutano pelo populismo de extrema-direita tem aqui um novo campo de desenvolvimento, já não apenas determinada pelos deserdados do crescimento e da globalização, mas também com a incapacidade real de valorizar em termos de satisfação a melhoria das condições materiais.

 

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