(A investigação
da Comissão Europeia às ajudas fiscais da Irlanda à Apple e a determinação da
Comissária Vestager colocam treze mil milhões de dólares potenciais à
disposição do governo irlandês, com escolhas públicas cruciais não só para o futuro dos Irlandeses mas
também para um novo código de tributação das multinacionais)
Ontem era notícia que,
muito provavelmente, o governo irlandês criaria uma conta que seria intocável
para depositar os 13.000 milhões de dólares que se estima a APPLE deverá
devolver à Irlanda, acaso a Comissão Europeia vença o seu caso com a
multinacional americana. Estaria em jogo a possibilidade do governo irlandês
iniciar um longo processo judicial de tentativa de demonstração de que a
subsidiação fiscal da APPLE não constituiria ajudas de estado ilegais à luz do
direito comunitário, juntando-se assim às alegações da própria APPLE quanto à
referida decisão da Comissão Europeia.
Imagino os main partners dos escritórios de
advocacia especializados em ajudas de Estado a esfregar as mãos por contendas
jurídicas tão apetitosas.
Mas no seio desta grande
questão, há uma outra bem mais importante, relativamente ao qual o governo
irlandês e os irlandeses em geral terão de responder com clareza. Finton
O’Toole coloca essa questão de forma muito crua no The Irish Times e até pode
ser apresentada como um dilema crucial: ou a Irlanda pretende manter o seu
estatuto de território de atração preferencial de multinacionais interessadas
em pagar impostos irrisórios face ao seu volume global de negócios (e com isso
gerar toda uma série de benefícios internos apesar da quebra de punção fiscal)
ou então pretende reinventar-se num mundo em que seja solicitada a essas
multinacionais uma maior responsabilidade na geração de recursos públicos
fiscais. Este dilema tem uma variável de contexto que não pode ser ignorada: a
Irlanda tem uma taxa elevadíssima de aprovação da sua integração na União
Europeia.
Como vai o governo
irlandês posicionar-se face a este dilema? Vai apelar da sentença, manter
intocável o tesouro dos 13.000 milhões de dólares e não abdicar do seu estatuto
de bondade fiscal como atrator de multinacionais e do seu investimento? Ou vai
utilizar a prenda da devolução fiscal como um suporte de um programa de
investimentos públicos (que O’Toole elenca com pormenor, link aqui) que podem
até passar pela negociação de uma presença mais partilhada da APPLE em
território irlandês? E se a opção irlandesa, democraticamente validada, for a
primeira, será que o conflito inevitável com a DG Concorrência irá alterar a
taxa de satisfação relativamente às instituições europeias?
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