domingo, 28 de agosto de 2016

OS EXCEDENTES ALEMÃES




(Continua a impressionar a não aproveitada elevada margem de manobra alemã para um relançamento fiscal não só da própria Alemanha mas da União Europeia em geral, o que coloca de novo em evidência que o cumprimento exigido das regras é só para alguns)

O governo federal alemão atingiu no primeiro semestre deste ano um excedente orçamental de 1,2% do PIB, contrariando a estimativa do FMI que previa um relançamento fiscal, embora ligeiro, no âmbito da chamada cláusula IV de consulta com o governo alemão.

Como é conhecido, existe uma tautologia macroeconómica que determina que a poupança pública líquida (impostos menos despesas públicas) e a poupança líquida privada (poupança das famílias e das empresas menos investimento) são conjunta e aritmeticamente iguais à balança de transações correntes. Ora, na economia alemã, com excedentes orçamentais e uma capacidade elevadíssima de poupança de uma Alemanha envelhecida (aliás gerando dificuldades extremas aos bancos de poupança alemães que enfrentam taxas de juro negativas), a balança de transações correntes teria forçosamente de apresentar elevadíssimos saldos positivos. Ou seja, a Alemanha não está a cumprir o seu papel de motor da economia europeia, intensificando importações das restantes economias europeias, particularmente das economias do sul. E, mais do que isso, está a repercutir esse excedente externo global para a restante economia global.

No gráfico que abre este post, é visível como o saldo positivo da balança de transações correntes da Alemanha marca o idêntico saldo positivo da zona euro. Mas, de acordo com a tautologia macroeconómica (T-G) + (S-I) = Balança corrente externa, o saldo positivo da balança corrente alemã é indissociável do seu excedente orçamental e da capacidade de poupança dos alemães. O problema não está em que esta conjuntura possa manifestar-se. O problema é que ele está a transformar-se em algo de estrutural e por isso o comportamento macroeconómico da Alemanha não é simétrico, como deveria estar a ser, dos países com défices externos. E sem essa simetria a união monetária está em perigo.

Brad Stetser observou-o bem no Follow the Money do Council on Foreign Relations (Nova Iorque) (ver link aqui) e Krugman seguindo a pista de Setser é como o costume curto e grosso para com a obsessão excedentária dos alemães: “Mas a Alemanha quer atingir excedentes e que toda a gente atinja também excedentes. A política fiscal alemã restritiva contribui para a debilidade da procura global alemã e a sua obsessão contra os défices é uma razão importante pela qual os outros países europeus que enfrentam baixos custos de acesso a financiamento estão ainda a prosseguir a austeridade” (ver link aqui).


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