segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

INTERROGAÇÕES ECONÓMICAS DE 2026 (TAKE 1)

 

Fonte: Brad W. Setser, "China´s Massive Surplus is Everywhere (Yet the IMF still has trouble seeing it clearly". Council of Foreign Relations, novembro de 2025

(Sem qualquer pretensão de prospetiva, quero dedicar alguns posts às principais interrogações económicas que vão colocar-se em 2026, num contexto geral em que a globalização já viveu melhores dias e onde parece que está a regressar-se ao velho tema da manipulação do comércio internacional como forma de fazer a guerra. Os direitos aduaneiros foram utilizados em 2025 como uma modalidade do bullying económico mais agressivo que alguma vez fora visto na economia mundial por parte de Trump, segundo um modelo profundamente errático e à mercê dos humores do presidente americano. A economia mundial passa por tempos da mais profunda incerteza, mesmo descontando que algumas das ameaças económicas de Trump têm sido inconsequentes. Mas, mesmo numa economia mundial à deriva e desesperadamente à procura de princípios que lhe garantam alguma estabilidade de horizontes futuros, é possível identificar os principais tipos de interrogações que sobre ela irão colocar-se em 2026 e, sabe-se lá, se com continuidade para anos seguintes, dada a espessura estrutural de algumas dessas interrogações. Vou começar por tratar uma dessas interrogações, começando por uma com consequências sistémicas consideráveis, incluindo nestas consequências a questão do seu efeito sobre a conflitualidade bélica e política. O tema com que abro esta série de fim de ano é a questão de saber o que vai acontecer ao “excedente comercial chinês” que tem dominado a economia mundial na última década, sobretudo na segunda metade da mesma. Estou confortável com esta opção, até porque posso recorrer à reflexão que Paul Krugman tem vindo a realizar sobre este tema, não com o horizonte de antecipar o que 2026 nos pode trazer economicamente falando, mas essencialmente com o objetivo de situar a até agora inglória e falhada tentativa da administração Trump para combater esse problema.)

Keynes, melhor do que ninguém, nos contextos do pós-1ª Guerra Mundial e pós-2ª Guerra Mundial, ajudou-nos a compreender que uma economia mundial saudável não pode permitir-se ao luxo de acolher no seu seio países que desenvolvam excedentes comerciais externos permanentes. A existência de países duradouramente excedentários no plano externo pressupõe a existência da outra face da medalha, países permanentemente deficitários. Um panorama saudável da economia mundial pressupõe, pelo contrário, que os países alternem posições excedentárias e deficitárias. A administração Trump tem como sabemos a fobia de encarar os défices comerciais externos como uma forma de debilidade económica e um indicador de que a economia americana é maltratada por aqueles países que mantêm com a economia americana uma situação de excedente comercial. E utiliza o bullying dos direitos aduaneiros como forma canhestra de ameaça a esses países. É conhecida a iliteracia económica básica de grande parte da administração de Trump e tudo indica que as eleições intercalares de 2026 vão colocar Trump perante a evidência do carácter interno nefasto dessa política comercial externa do antigamente.

O excedente comercial externo chinês já ultrapassou no tempo e na magnitude a característica de excedente temporário e todos os compromissos verbais assumidos pelas autoridades chinesas têm caído em saco roto. Krugman tem razão quando refere que a ultrapassagem dos milhões de milhões de dólares no montante desse excedente comercial externo representou uma espécie de marco. A magnitude deste valor associado à permanência do excedente significa que a economia mundial tem aqui um problema e peras para gerir. Os EUA e a Europa são a outra face da moeda e percebe-se a azáfama de Trump em tentar combater esse problema, podendo até dizer-se que a sua malévola aproximação á Rússia não é mais do que a tentativa de manter as relações entre a Rússia e a China num estado de relativa estagnação, questão cujo sucesso tem sido igualmente relativo.

Vou passar por cima, dada a sua natureza marcadamente técnica, da questão de saber como medir o tal excedente comercial externo. A medida absoluta mais corrente é a da balança externa corrente (o que se designava no meu tempo de balança das transações correntes) e em termos relativos é a sua relação com o PIB dos países. Há analistas que se insurgem com esta medida, pois atribuem às autoridades chinesas práticas pouco abonatórias de medida com rigor dessa balança, interessadas que estão essas autoridades em diminuir artificialmente a magnitude desse excedente comercial. Por isso, muitas vezes se utiliza a balança comercial, pois nesta forma é sempre possível confirmar valores nos países de destino das exportações chinesas.

O que choca verdadeiramente no excedente comercial chinês é a sua relação com uma economia com a dimensão da chinesa. Os valores desta natureza tenderão sempre a perturbar a economia mundial, aliás como está a acontecer.

Fonte: Mattew Higgins. "Why Investment Led.growth lowers Chinese living standards". Liberty Street Economics, novembro de 2024.

Como é óbvio, a dimensão deste excedente comercial está indissociavelmente ligada à capacidade espantosa de exportação chinesa. Mas a interpretação mais sábia da magnitude desse excedente é a sua relação com o subconsumo da população chinesa. Existem materiais políticos das autoridades chinesas que mostram que a hipótese do subconsumo é deliberadamente assumida. Esta hipótese é por vezes deficientemente compreendida, porque a existência de excedentes comerciais permanentes pode ser interpretada como um sinal de fraqueza económica interna. Krugman mostra com clareza que o consumo per capita dos chineses está abaixo do que o seu rendimento per capita global justificaria (ver gráfico acima). Tudo se passa como se o regime chinês não queira deliberadamente que a sua população alinhe o seu consumo per capita com o seu rendimento, forjando obviamente a alternativa de uma elevada taxa de poupança. Este subconsumo tem permitido que a economia chinesa mantenha taxas de investimento claramente mais elevadas do que as economias ocidentais, sem, contudo, evitar a desaceleração evidente dos ritmos do seu crescimento económico, designadamente em consequência do seu declínio demográfico.

Projetando esta questão no tema das interrogações económicas suscitadas pelo ano de 2026, pode concluir-se que a erradicação na economia mundial do excedente comercial chinês constituí um problema intrincado, já que a ultrapassagem do subconsumo tradicional da população chinesa exigirá uma profunda mudança do modelo económico e social chinês, que o regime comunista pode não estar interessado em promover. A rede de segurança social da população chinesa é ainda muito incipiente e essa incipiência explica a voracidade das famílias em aforrarem o mais que podem.

Ou seja, por muito que isso custe a compreender por parte de Trump, os excedentes comerciais chineses são uma consequência do permanente subconsumo a que o regime chinês submete as famílias de baixo e médio rendimento. O que significa que se a China quer ser acolhida na economia mundial como uma nação de pleno direito não pode persistir em políticas internas que prolongam no tempo os seus excedentes comerciais externos. E não há adulteração possível das estatísticas dos défices correntes que oculte esta realidade.

Esta é para mim uma das grandes interrogações de 2026.

Como é que a economia mundial aguentará esta significativa entorse nos equilíbrios mundiais?

 

QUANDO SE CHEGA TARDE À RAZÃO...

O ainda presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte comunicou ontem no espaço público a sua decisão de se candidatar a um novo mandato à frente da Instituição. Proclamando valores e posicionamentos que não lhe tinham ocorrido aquando do processo que o levou àquela presidência em 2020, na sequência de um arranjo partidário ocorrido entre o PS e o PSD, leia-se entre António Costa e Rui Rio. Foi então eleito da mesma forma desajustada e caricata que agora critica, em nome de uma independência e de um conhecimento do terreno que objetivamente não possuía, ao que acrescenta “cinco anos de resultados consolidados” que importaria evidenciar e demonstrar. À época, a soberba de um deslumbrado fez dele um proclamado milagreiro como nunca o Norte experimentara, à mistura com uma espécie de comandante de oportunistas pretensamente “iluminados” mas mais mestres em gestão de burocracia e redes de interesses do que em discernimento, sensatez e saber.

 

Cunha anuncia desta vez o apoio de 51 personalidades, concretizado num manifesto de recusa de “um delegado do Governo no Norte” e de defesa de um exercício “sem amarras partidárias ou de qualquer outro diretório”, onde gente de bem e com múltiplas provas dadas ao serviço da causa pública, em geral, e com responsabilidades de intervenção ativa na evolução histórica da questão regional, em particular – embora hoje manifestamente distanciada dos detalhes que marcam a complexa atualidade do tema em concreto (como Valente de Oliveira, Braga da Cruz ou Miguel Cadilhe) –, se junta a outra gente igualmente de bem mas completamente alheada do essencial que marca o passado e presente âmago das matérias em causa (como Alexandre Quintanilha, Tiago Brandão Rodrigues ou Artur Santos Silva).

 

E assim vamos até 12 de janeiro, a data fixada para que a votação de uns milhares de eleitos autárquicos aponte Cunha como um continuado vitorioso ou prefira dar lugar ao seu adversário (um tal Álvaro Santos que, após combinação entre Luís Montenegro e José Luís Carneiro, larga a sua recentíssima vice-presidência da Câmara de V.N.Gaia para vir prometer à Região “um novo salto qualitativo”, o que quer que isso possa significar). Poderia, e deveria talvez, ficar-me por aqui mas não resisto a deixar uma nota final declarando que, se por obra de um acaso inimaginável, tivesse de colocar uma cruz num dos dois males que se apresentam, acabaria certamente por me decidir pelo voto num Cunha mais experiente e menos partidariamente enfeudado, tudo aquilo que ele de todo não era em 2020.

domingo, 28 de dezembro de 2025

AS FIGURAS DO ANO

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

É conhecida de quem frequenta este espaço a minha propensão para fazer balanços nos momentos próprios, que no caso seria o deste final de 2025 que se aproxima. Mas sinceramente a vontade natural não ganhou expressão suficiente para vencer uma inércia insuflada pelo quadro que se me apresentou quando refleti sobre a matéria – um ano como o que agora termina é um osso muito duro de roer para um cidadão atento aos sinais e necessariamente preocupado com o que os mesmos parecem anunciar. Até porque, vendo os eleitos da comunicação social nacional e internacional, indiscutíveis factualmente sem que sobre eles emitamos de juízos de valor, teríamos de seguir a manada e apontar Donald Trump como a figura do ano, em total contradição com a sensação profunda de que vivemos no meio da gigantesca instabilidade e incerteza que o dito trouxe consigo e fez recrudescer de forma por vezes assustadora e sempre grotesca. Ni hablar, pois...

 

No tocante ao nosso cantinho lusitano, as coisas não se me afiguram tão gravosas, obviamente. Mas, ainda assim, ter de apontar a mediocridade de Luís Montenegro – porque vencedor das eleições legislativas e primeiro-ministro reforçado – não me é confortável, atenta a agenda radical de aceno à extrema-direita que adotou e a sua presença arrogante e eticamente duvidosa no espaço público, em permanência assistido pelo “polícia mau” que nomeou (Leitão Amaro, o patriota cunhado de Ricardo Machado, aquela aparição feita empresário que o “Expresso” designou por “quase dono disto tudo”). Mesmo quando aparenta querer ser motivador, foge-lhe o pé para o sapato e o que desenvolve é um discurso despropositado e eleitoralista (a sua ideia de que não vê eleições até ao final do mandato é disto uma ilustração subliminar). Por uma vez, concordo com António Filipe, o candidato presidencial do PCP, quando afirma que “precisamos de salários valorizados, não de discursos motivacionais”...

E DEUS CRIOU A MULHER …

 



(Mais um ícone da geração dos septuagenários que nos deixa, neste caso Brigitte Bardot, aos 91 anos. A sua presença na tela nunca foi equivalente à das grandes atrizes que já passaram por este espaço e o seu relativamente fraco rosário de prémios cinematográficos assim o sugere. Mas a sua natureza de símbolo do erotismo no cinema e de rebeldia numa sociedade francesa que demorou tempo a absorver a mensagem não pode ser-lhe retirada e com o seu desaparecimento é toda uma era de mulheres no cinema que se desvanece. A sua evolução como ativista da defesa dos animais, como criadora de uma Fundação destinada a servir esse ideal e posteriormente a sua aproximação ao partido de Marina Le Pen não vão ser as marcas pelas quais será recordada. O seu isolamento progressivo, cortando aos 39 anos com a pressão mediática de a que era permanentemente sujeita, sugere que não abraçou o seu próprio mito, pode caracterizar a sua distanciação face aos tempos em que a sua rebeldia emergiu. Mas enquanto a memória analógica e digital preservar a imagem que transmitia nas telas dos cinemas e nas capas das revistas, Brigitte será recordada para sempre como a mulher que inspirou comentários únicos de Roland Barthes, Jean Luc Godard ou mesmo Simone de Beauvoir.

Muito provavelmente com a morte de Brigitte Bardot é também uma França que se apaga, não sendo ainda visível que outra França lhe sucederá.

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

DESCER À REALIDADE

 


(Enquanto o primeiro-Ministro se delicia com apelos nacionalistas e identitários, convidando-nos a seguir as pisadas de Cristiano Ronaldo, hoje ao serviço de um dos regimes mais opressivos do mundo, vendendo a sua imagem distorcida, os jornais portugueses continuam a proporcionar-nos uma visão bastante menos idílica deste país que aguarda um Novo Ano. A sempre sensível jornalista do Público Bárbara Reis, que continua a escrever numa outra linha do que a prevalece hoje na comunicação social portuguesa, assina uma crónica síntese de 2025 baseada em simples excertos de notícias que foram sendo publicadas ao longo do ano e que nos sugerem um país bastante mais disfuncional do que o apelo nacionalista e identitário de Montenegro nos transmite. Seguindo o modelo de Bárbara Reis, dedico alguma atenção a uma notícia de hoje do Público, que nos alerta para o facto preocupante de o concurso para técnicos do INEM ter ficado com mais de metade das vagas por preencher. Compreendendo que o INEM é uma peça fundamental da capacidade de resposta do SNS a situações de emergência pessoal e familiar e estando todos nós recordados das atribulações que o sistema tem atravessado nos últimos tempos, esta notícia transporta-nos para uma visão tudo menos idílica do nosso quotidiano, sobretudo de uma população envelhecida.)

Como já não é novidade para qualquer minimamente atento ao que se passa pelo país, o epicentro da notícia de 200 vagas do último concurso do INEM para recrutamento de técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) está situada na delegação de Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. Tudo isto acontece num contexto em que 380 pessoas se candidataram ao referido concurso, tendo segundo a jornalista Inês Schreck apenas 89 candidatos chegado à fase final, não havendo sequer a certeza de que todos eles venham a assinar contrato, oficializando o recrutamento.

Esta situação observa-se mesmo depois de se terem registado melhorias dos salários dos técnicos respeitantes a esse concurso. A jornalista informa-nos da exigência do processo de recrutamento, que se entende dada a relevância das funções e o contexto difícil de trabalho em que são concretizadas e revela que neste último concurso se registou um número relativamente anómalo em relação ao passado de desistências, quantificado em 10% ao longo de todo o procedimento.

À medida que a notícia vai mergulhando em diferentes pormenores percebe-se que o concurso estava limitado à região de Lisboa e Vale do Tejo, onde se regista tradicionalmente um menor interesse pela procura deste tipo de trabalho. Existem várias razões possíveis para este menor interesse da procura. Uma das razões óbvias é o facto de, apesar dos aumentos de cerca de 256 euros, o ordenado base dos TEPH ser de 1.127 euros brutos, o que convenhamos para a exigência da função não é propriamente uma remuneração atrativa. Como é óbvio, além de uma remuneração relativamente insípida, existe o gravíssimo problema das questões do alojamento para candidatos que não residem já na área de Lisboa e Vale do Tejo. A situação estava identificada e a jornalista regista planos de elaboração de protocolos com o Exército e com os Municípios para proporcionar condições mais favoráveis de alojamento. Mas, como é usual, o período em que tais protocolos se concretizem em oportunidades reais de mitigar as já muito difíceis condições de alojamento na aglomeração metropolitana da capital é muito dilatado e muito frequentemente não passam de propostas bem-intencionadas no papel.

Os custos de concentração da aglomeração da capital começam a emergir e a revelar-se por todos os lados, evidenciando algo que na minha interpretação do modelo territorial do continente já há algum tempo identifiquei em alguns trabalhos. O país não dispõe da engenharia de concentração de atividades necessária para controlar e regular a concentração observada, sendo por isso cada vez mais provável que as externalidades negativas da concentração comecem a superar as externalidades positivas associadas a uma forte concentração de pessoas e atividades. O modelo territorial está hoje desregulado – existem inúmeros territórios em que a escassez de oferta de serviços públicos é cada vez mais evidente (e os serviços de saúde corporizam bem essa realidade) e, por outro, a regulação e coordenação das concentrações de pessoas e atividades começam a estar abaixo dos mínimos exigíveis. Esperar que este modelo se regule espontaneamente é de uma total falta de prudência. A tendência é para a teimosia agravar os problemas em ambos os extremos, como está aliás a acontecer.

O velho e já gasto argumento de que os efeitos da concentração irão disseminar-se por todo o território não tem hoje a mínima adequação à realidade. Compreender bem estes problemas e neles intervir com coerência parece ser algo de bem mais relevante do que insistir no nacionalismo identitário e na procura do efémero (veja-se o alarido com o regresso da Fórmula 1 ao Algarve)