domingo, 3 de agosto de 2014

BES...TIAL


(Satoshi Kambayashi, http://www.economist.com)

Até aflige! O que por aí se vai passando com o caso BES é realmente de um dramatismo ímpar, embora tudo leve a crer que a solução a anunciar esta noite pelo governador do Banco de Portugal seja a única possível e desejável (mais detalhe, menos detalhe) e com as imprescindíveis credibilidade e isenção perante as circunstâncias. Veremos...

Entretanto, e num plano diverso, o dito caso é também sintomático do voyeurismo e do fala-baratismo ignorante que grassa por este País. Veja-se a exemplaridade do que foi a contrainformação ao longo do último fim de semana, a qual atingiu os seus momentos televisivos culminantes com Marques Mendes, de ares doutorais irritantemente assumidos, a antecipar a comunicação de Carlos Costa e os dois Pedros comentadores (Marques Lopes e Adão e Silva) a comentarem desencontradamente e ao desafio as aparências da situação em presença (um defendendo a intervenção pública para estancar os estragos de um buraco que decretou por sua livre recreação ser bem menor do que se diz, outro criticando uma alegada nacionalização e o seu prejuízo para os contribuintes). Tirem-nos deste filme!

Adenda pós-comunicação do governador Carlos Costa (visivelmente nervoso, naturalmente cansado, mas rigoroso, seguro e esclarecedor): e a coisa segue, porque a asneira é livre e ainda não paga imposto! Nos canais de informação com maior audiência, a SIC Notícias ainda teve algum pudor e convidou um jornalista conhecedor (Vieira Pereira) e outro de boas fontes (José Gomes Ferreira) para esclarecerem os contornos possíveis do problema, mas a TVI 24 e a RTP Informação levaram a sua incúria ao ponto de darem tempo de antena a dois verdadeiros cromos – um professor do ISEG incapaz de completar uma ideia (Landeiro Vaz) e um “especialista em mercados financeiros” provavelmente preocupado com os maus aconselhamentos que tem proporcionado aos seus clientes (Marco Silva) – e a um jovem (Ricardo Arroja, Arrojinha de nickname) que, na esteira do liberal e ofuscante pai Pedro, lá foi confessando que tudo aquilo era jurídico e que essa não era a sua área de conhecimento! Portugal está perigoso e isto já não vai lá com amadorismos primários, meus senhores!

(Aleksi Cavaillez, http://www.lemonde.fr)

O FIM-DE-SEMANA DAS DÚVIDAS



O torpor das férias contrasta fortemente com o fim-de-semana alucinante que deve estar a ser vivido no Banco de Portugal, no Governo e nos elos de ligação entre estes e a Comissão Europeia. O camarada Mendes, sempre bem informado e escondido por detrás do estatuto de estudioso deste tipo de situações, antecipou-se ontem na SIC a toda a comunicação social, traçando os contornos possíveis da intervenção no BES que o governador do Banco de Portugal anunciará hoje pela noite.
Hoje, praticamente toda a imprensa retoma os traços anunciados por Marques Mendes, permanecendo a curiosidade se a comunicação de Carlos Costa ratificará ou não a premonição do azougado comentador.
A questão central, a única que valerá a pena monitorizar nos tempos que se aproximam, consistirá em saber qual a margem de perda que resultará de tudo isto para os contribuintes em geral. Pelos comentários que foram sendo produzidos, duas interpretações foram confrontadas. A comunicação de Marques Mendes procurou fazer passar a ideia de que os contribuintes não serão lesados e que desta vez, ao contrário do que se passou com o BPN, não haverá dinheiro público torrado na operação. A operação do “bad bank” visará, em princípio, fazer reverter as perdas integralmente para acionistas e credores, protegendo os contribuintes, completada pela entrada do Fundo de Resolução no banco bom. Mas outros comentadores, por exemplo, o Professor Avelino Jesus (grupo de trabalho das PPP) fala de ingenuidade quando se pensa que, embora em menor grau, não revertam perdas a ser suportadas por dinheiro público. O argumento para essa suspeição prende-se com a capacidade que os acionistas, designadamente a família Espírito Santo, terão tido de proteger o seu património. Fazendo fé na dinâmica de incumprimento observada no mês de julho e na engenharia de manigância que a tribo ES praticou para iludir as orientações vinculativas do Banco de Portugal, todas as dúvidas poderão ser alimentadas quanto a esta interrogação.
De qualquer modo, a dúvida está em saber se a comunicação de Carlos Costa abrirá hoje um novo paradigma de resgate de instituições financeiras ou se, pelo contrário, permanecerá viva a impunidade dos incumpridores malévolos.
Por ironia do destino, também deste desfecho poderá depender o lugar futuro que Carlos Costa assumirá na história da regulação financeira em Portugal. O estado de graça que o sistema financeiro e as forças políticas lhe concederam complicou-se. Veremos o que a anunciada comunicação nos reserva.

O SOBE E DESCE DA SEMANA (V)


Uma semana estonteante, vertiginosa mesmo. Com a implosão do GES/BES a dominar praticamente, e por razões mais do que justificadas, toda a atenção informativa e os grandes focos da opinião pública nacional. A ponto de quase terem passado despercebidas afirmações tão graves, aventureiras e suicidas quanto as de António José Seguro sobre “o PS associado aos negócios e aos interesses” ou declarações tão ignóbeis, miseráveis e covardes quanto as de Durão sobre a “pipa de massa” que nos fez o especial obséquio de conceder mais a lição de moral que teve a lata de adicionar enquanto assinava o chequezinho. Por outro lado, e em termos de nota positiva, uma menção às palavras de Menezes – que desta vez com algum acerto veio lançar dúvidas em relação às soluções de tipo “bloco central”, mesmo que se saiba que as suas considerações em torno de uma “seriedade austera e poucas falas” apenas pretendem encaixar no seu alvo Rio e não em Costa – e ao sentido de oportunidade do jornalista Ricardo Costa que veio lembrar quanto a crise do BES terá estragado os caminhos que imparavelmente conduziam a uma privatização da CGD subitamente tornada indefensável...

sábado, 2 de agosto de 2014

SAIR DA CAIXA

(James Ferguson, http://www.ft.com)

Neste inóspito e perigoso planeta em que vivemos, já rigorosamente nada pode ser tomado por adquirido. E não se trata unicamente de a tradição não ser mais o que era antes, como diz aquele slogan publicitário, são também os drivers da mudança que crescentemente escapam à nossa capacidade de perceção e controlo. Neste quadro, a única resposta intelectual inteligente passa pela abertura – dos olhos para poder ver mais e melhor em redor e da cabeça para criar condições de penetração ao novo, ao diferente e ao improvável –, leia-se pelo diálogo e pela fecundação interdisciplinar.

Pensei nestas evidências, tão cristalinas quanto pouco praticadas, quando lia há dias um texto do “Financial Times” sobre a esgotada agenda curricular dos MBAs que por aí vão sendo oferecidos a pontapé. Nele se falava da necessidade que algumas Escolas mais atentas e menos ortodoxas vão sentindo de alargar os seus horizontes disciplinares para além dos seus muito especializados e bem embrulhados menus centrados na contabilidade, nas finanças, no marketing, nos recursos humanos e na gestão de operações.

Em conformidade, o referido artigo sublinhava ainda quer o facto de os atuais desafios de um mundo sem fronteiras serem cada vez menos compatíveis com abordagens assentes em silos, antes exigindo o manuseamento de uma gama de matérias de largo espetro (da mudança climática ao ciberterrorismo, acentuava-se), quer o facto de as atuais saídas profissionais resultarem cada vez menos em posições funcionais nos grandes grupos empresariais do que na criação de empresas próprias, na exploração da tecnologia e das redes sociais ou no envolvimento em novas áreas de negócio (saúde e ambiente, p.e.) e em dimensões de empreendedorismo social – multiskillng e pensamento integrado são, então, duas das recomendações apropriadas à complexidade da situação. Sendo ainda que, e cito, “quando se derrubam os silos entre as escolas de negócios e outras escolas do campus, criam-se oportunidades para novas ideias” – to whom it may concern...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

BOA OU MÁ MOEDA (S)



Confesso que não estou particularmente entusiasmado com o debate aberto em torno da nomeação de Carlos Moedas para Comissário Europeu, sobretudo em torno do pingue-pongue governo-oposição sobre as capacidades do dito.
O problema é que nem o governo nem oposição parecem ter uma ideia definida de qual o papel que Portugal pode politicamente desempenhar nesta fase atribulada da construção europeia e por isso toda a discussão em torno do nome de Moedas é mera retórica de circunstância, apenas para marcar posição na opinião pública.
Dos comentários dispersos que escaparam a essa retórica de circunstância destaco o de David Dinis no Observador que considera a nomeação de Moedas o reflexo da profunda relação de confiança que o une a Passos Coelho e o de Teresa de Sousa que remete a nomeação para a evidência recolhida por Passos Coelho junto de Juncker de que Portugal não poderia aspirar a uma pasta de relevo, isto é, com capacidade de influenciar o rumo da política europeia.
Da trajetória de Carlos Moedas de Beja a Bruxelas, passando por outras paragens, e sem querer ser má língua diria que o ativo principal passa pela experiência na Goldman Sachs. O que abona ou não abona a favor do futuro Comissário, dependendo das perspetivas. Cá para mim, a nomeação de Carlos Moedas reflete ainda o conjunto de influências de pensamento que muito provavelmente vão continuar a dominar o projeto europeu, mais mercado único e pouco mais do que isso, com a tribo da financialização a marcar o compasso.
O que significa que se a mensagem de Matteo Renzi é sincera e independente, então teremos muitos muros que derrubar para criar um ambiente mais favorável a uma União Europeia mais solidária.

LEITURAS DE FÉRIAS



Uma passagem de circunstância pela Ler Devagar na Lx Factory permitiu-me eleger ao acaso quatro leituras de férias, que partilho.
O deambular aleatório por uma livraria e pelas suas mesas (gosto mais das mesas do que das estantes) é das minhas atividades preferidas de flâneur (les flâneurs se promènent doucement), um raro momento em que o ócio é descanso efetivo.
E aqui estão as minhas escolhas:
Honoré de Balzac – A arte de pagar as suas dívidas e de satisfazer os seus credores sem gastar um cêntimo, Edição Nova Delphi (com prefácio de José Viale Moutinho)
Um livro que recomendo sobretudo à família Espírito Santo.
Miguel de Unamuno – Portugal Povo de Suicidas – Edição Letra Livre
É famosa a afirmação de Unamuno de que os portugueses são uns invertebrados. Ela consta e é analisada pela grande maioria das obras que se preocupam com a matriz identitária dos portugueses. Este tipo de categorias sem uma correspondência sociológica rigorosa são extremamente discutíveis, mas em período de férias tudo se contorna. Nos últimos tempos, temos lançado para o terreno novas evidências que talvez reforçassem a reflexão de Unamuno.
Boris Vian, A Espuma dos Dias, EdiçãoRelógio d'Água
Tempo para recordar a escrita fortemente visual de Vian e isso basta.

Pedro Mexia – Lei Seca – Diários 2009-2012, Edição Tinta da China
Um dos intelectuais mais estimulantes da geração mais nova, uma cultura que intimida, e sobretudo a oportunidade de o ler mais sistematicamente.
Boas leituras.

MOEDAS FORTE


Ao contrário do que me tem sido habitual, hoje vou dar um aplauso a Passos. Com efeito, tudo visto e ponderado, sou levado a reconhecer que me parece positiva a escolha de Carlos Moedas para comissário europeu. Não porque o homem não seja um assumido “neoliberal” fortemente comprometido com a austeridade acéfala que nos abafou, que o é inquestionavelmente. Mas porque esta designação não deixa de corresponder a uma injeção de algum sangue novo numa Europa podre de velha, porque se trata bem mais de indicar um técnico com competências – como comprovou na gestão do dossiê das relações de Portugal com a Troika – do que um politicão/jotinha partidário, porque o dito possui boas e variadas ligações internacionais e porque o mesmo já mostrou ser dotado de sãos princípios de funcionamento em matéria do necessário equilíbrio entre determinação nas convicções e abertura ao contraditório. E, para além de tudo isso, também porque as atuais configurações da conjuntura política nacional desaconselhavam uma saída de Albuquerque das Finanças ou uma imprevisível aposta no escuro de um PS embrulhado num lamentável combate interno – ao que acresce, ainda, que qualquer favorecimento a conceder às quotas femininas só deve ser, a meu ver e na melhor das hipóteses, um elemento de desempate entre vários critérios a relevar e que, no caso vertente, a conjunção dos diversos atributos merecedores de elegibilidade vai no sentido de qualificar Moedas claramente acima das suas mais “generosamente” faladas alternativas, de Graça Carvalho a Isabel Mota ou até da desejosa Maria João Rodrigues à desejada ministra Albuquerque...

Adenda noturna: esteve entre o caricato e o grotesco a entrevista acabada de dar por Maria João Rodrigues a Ana Lourenço na SIC Notícias – como é possível que alguém com a cabeça no seu lugar, para não dizer com os cinco litros bem medidos, e um mínimo de sentido do ridículo se preste a ir à televisão fazer aquele papel de elogiosa autocontemplação? E a propósito, já agora, não valeria a pena que alguém com uma réstia de lucidez nesta provinciana parvalheira analisasse o que é que a senhora fez ao certo na Europa e com que resultados?