quinta-feira, 15 de junho de 2017

A BALADA DO CAFÉ TRISTE




(Sou um admirador confesso da literatura americana do século XX, com o universo das short stories de Carver e de outros à cabeça, mas o primeiro contacto com a obra de Carson McCullers foi amor à primeira vista, juntando-se a uma lista que já vai longa e aguça o apetite para outras obras da autora…)

A literatura americana fascina-me e bem pena tenho do esforço por vezes inglório de a tentar ler na língua original, coisa que por vezes uma boa tradução é capaz de superar. Talvez este fascínio tenha começado pela obra de Raymond Carver e com as suas desconcertantes histórias curtas, mas a verdade é que tenho acumulado uma vasta lista de grandes impressões, de que destaco Cormac McCarthy, Flannery O’Connor, J.D. Salinger, Katherine Ann Porter, obviamente Jack Kerouac e mais recentemente Don de Lillo, mais lá atrás Faulkner. A Ficções da Relógio de Água, mas também a D. Quixote, têm-se encarregado de alimentar a lista.

Para mim o fascínio de que falava há pouco prende-se sobretudo com os ambientes (e de pessoas) inusitados que se respiram nessa literatura, das selvas urbanas mais densas, problemáticas ou sofisticadas como Nova Iorque às atmosferas mais profundas de uma América perdida, que tive oportunidade de simplesmente contornar e não penetrar, profunda, impossível de integrar no mais rudimentar roteiro turístico, mesmo que informal. A Balada do Café Triste da escritora Carson McCullers, aguardava pacientemente na estante por uma oportunidade, que surge normalmente em períodos de férias. É uma obra pequena, setenta páginas, que só é possível ler de um só fôlego, aproveitando o repouso de um alpendre em tarde de canícula.

Aparentemente localizada numa main street típica do interior americano nas encostas da Géorgia do Norte, a história do Café Triste é essencialmente o produto de uma interação que viria a revelar-se primeiro redentora e depois trágica entre três personagens: Miss Amelia Evans, uma mulher masculinizada, de grande força muscular e envergadura que vive e dirige um pequeno negócio nessa rua, do tipo vende tudo, incluindo mezinhas para qualquer maleita; Lymon Willis o anão que irrompe na história numa tarde de agosto que só naqueles ambientes do interior americano tem o seu significado profundo, identificando-se como primo afastado de Miss Amelia e Marvin Macy, marido por 10 dias de Miss Amelia e que depois de uma longa passagem pela prisão regressa ao povoado para incendiar a relação entre os três personagens. A escrita de McCullers é prodigiosa na descrição deste ambiente e sobretudo na transformação da loja de Miss Amelia num café que revolucionou a vida da referida povoação, produto da chegada do anão e da sua influência na mudança de comportamento da enigmática figura da sua proprietária. A tensão do regresso de Macy ao povoado e a influência que provoca no anão Lymon e na sua relação com Miss Amelia é de tal maneira envolvente e ofegante que só a explosão final do afrontamento entre Miss Amelia e Macy, com o café transformado em recinto de luta, nos pode acalmar. Nesse combate/luta prodigiosamente descrito por McCullers, quando Miss Amelia está prestes a desferir o golpe final, com o pescoço do adversário controlado, um fenómeno estranho e impensável acontece no ringue improvisado. O anão Lymon num voo felino e improvável crava as suas unhas nas costas de Miss Amelia e desequilibra o combate que se traduz na vitória de Macy e na humilhação da proprietária do café.

O leitor nunca chega a saber as razões do casamento falhado de 10 dias de Miss Amelia com Macy. A derrota na luta, inverte a história, o café desaparece, Miss Amelia entaipa a própria loja e a Main Street regressa ao seu isolamento profundo, com Macy e Lymon a deixarem na sua fuga restos de destruição gratuita.

O epílogo/epitáfio da Balada é um prodígio de escrita sensorial.

Com a devida vénia ao tradutor José Guardado Moreira (excelente tradução), vale a pena citar:

“Os doze homens mortais

A estrada de Forks Falls fica a três milhas e é aí que trabalham os presos. A estrada é de alcatrão e as autoridades municipais decidiram tapar os buracos e alargá-los numa curva mais perigosa. O grupo é composto por doze homens, todos vestidos com os fatos às riscas brancas e pretas, agrilhoados nos tornozelos. Há um guarda, de olhos vermelhos semicerrados, por causa da luz intensa. Os presos trabalham todo o dia; chegam ao nascer do sol amontoados no carro celular e partem ao anoitecer. Durante o dia, ouve-se o ruído das picaretas batendo no chão de argila, sente-se o sol forte e o intenso cheiro a suor. Há música todos os dias. Começa, a medo, uma voz soturna, como que fazendo uma pergunta. Passados uns momentos, outra voz, a que depressa se junta o resto do grupo. As vozes são sombrias, apesar de a luz do Sol ser intensa, e a música mistura, estranhamente, tristeza e alegria. O canto avoluma-se de tal maneira que não parece vir do grupo de doze homens, mas brotar da própria terra ou cair do céu. É uma música que dilata o coração de qujem a ouve e provoca estremecimentos gelados de medo e êxtase. Depois, lentamente, o canto esmorece até restar apenas uma voz isolada, em seguida um som rouco e respiração, o Sol e o som das picaretas no silêncio.

E que espécie de grupo de grupo é este, capaz de criar música assim? Apenas doze homens mortais, sete pretos e cinco brancos, rapazes da região. Apenas doze homens mortais numa estrada.”

Em inglês para se perceber a excelência da tradução:

THE TWELVE MORTAL MEN
The Forks  Falls  highway  is  three  miles  from  the  town,  and  it  is  here  the  chain gang has been working. The road is of macadam, and the county decided to patch up the rough places and  widen  it  at  a  certain  dangerous  place. The gang  is  made  up  of  twelve men, all wearing black and white striped prison suits, and chained at the ankles. There is a guard, with a gun, his eyes drawn to red slits by the glare. The gang works all the day long, arriving huddled in the prison cart soon after daybreak, and being driven off again in the gray  August  twilight.  All  day  there  is  the  sound  of  the  picks  striking  into  the  clay  earth, hard sunlight, the smell of sweat. And every day there is music. One dark voice will start a phrase, half sung, and like a question. And after a moment another voice will join in, soon the whole gang will be singing. The voices are dark in the golden glare, the music intricately blended, both somber and joyful. The music will swell until at last it seems that the sound does not come from the twelve men on the gang, but from the earth itself, or the wide  sky.  It  is  music  that  causes  the  heart  to  broaden  and  the  listener  to  grow  cold with ecstasy and fright. Then slowly the music will sink down until at last there remains one  lonely  voice,  then  a  great  hoarse  breath,  the  sun,  the  sound  of  the  picks  in  the silence.

And what kind of gang is this that can make such music? Just twelve mortal men, seven  of  them  black  and  five  of  them  white  boys  from  this  county.  Just twelve mortal men who are together.

Sem comentários:

Enviar um comentário