quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

PARA LÁ DO 21-D

(Vinhetas de El Roto e de Peridis)


(Os espanhóis estão em período festivo que levam normalmente a sério e os catalães penso que também. Embora a vitória do Barça em Madrid tenha servido para moderar ânimos divisionistas, vai sendo possível neste período intermédio conhecer novas leituras e interpretações do que os catalães transmitiram nas urnas. O pronunciamento das principais cidades tem que se lhe diga e a esquerda fica mal na fotografia.)

Quiseram o destino e a habilidade de Valverde que o Barça encostasse simbolicamente o Madrid às cordas logo após o ato eleitoral do 21-D. E o fizesse num “partido” relativamente exemplar em termos de convivência futebolista. Passado que está o epifenómeno futebolista, tem havido tempo para leituras complementares dos resultados. Afinal, não é sempre nos tempos que correm que temos votações com participação eleitoral assinalável. Do registo que continuo a fazer de um tema bem mais importante para a estabilidade europeia e até para a economia portuguesa do que as interpretações mais apressadas têm ignorado destaco hoje dois artigos: o de Ignacio Urquizu no El País (link aqui) e o de Roberto Blanco Valdés na Voz de Galicia (link aqui).

Começando por este último e contrariamente ao que a perceção mediática (o poder das imagens e da sua ocupação) poderia sugerir, nas 15 mais importantes cidades da Catalunha Valdés regista que o voto independentista perdeu claramente para o seu contrário (34 contra 46%), graças sobretudo à incidência urbana do fenómeno Arrimadas e Ciudadans). A sua outra referência é mais conhecida e respeita ao facto de, tendo o voto independentista representado 47,5% dos votos expressos, tendo em conta a taxa de abstenção o independentismo representará hoje cerca de 37% do colégio eleitoral recenseado. Ou seja, algo que inspira cautela face aos propósitos referendários. O que Valdés pretende assinalar, e penso que não é uma interpretação forçada ou viciada, é que o independentismo não foi sufragado pela maioria da população, o que para os propósitos referendários não é despiciendo. Por outro lado, em princípio o dinamismo territorial da Catalunha mais intenso, o das suas principais cidades também não sufraga maioritariamente o independentismo. O que não é despiciendo do ponto de vista das movimentações futuras.

É neste ponto que é importante reter o artigo de Ignacio Urquizu, professor de sociologia na Complutense de Madrid e deputado pelo PSOE no Congresso em representação da mítica Teruel (onde me lembro de realizar uma missão europeia). Se admitirmos que foi o Ciudadans a capitalizar o voto urbano, então alguém perdeu. E quem perdeu do lado constitucional foi a esquerda, quer através do PSC de Miguel Iceta (como reagiria a saudosa Carme Chacón a estes resultados?) e a coligação entre o PODEMOS e Ada Colau.

Urquizu situa este resultado no âmbito do que designa de relação tormentosa entre a esquerda e o nacionalismo. Ou a esquerda é seduzida por fórmulas de valorização do mercado interno e de valorização de interesses nacionais ou se estatela no voto cosmopolita que não capitaliza. O que é particularmente preocupante (da minha perspetiva, claro e não da de Arrimadas e seus votantes) é a queda pronunciada a partir de 2006. Urquizu apresenta duas percentagens em si reveladoras: 40% em 1984 e 55% em 2003. Mesmo incluindo a esquerda nacionalista, a percentagem atual anda pelos 30% dos votos expressos e se retirarmos os nacionalistas então os números cheiram a desastre. E regressando ao urbano, Urquizu salienta a perda relevante de voto urbano. Os socialistas são a quarta força política em Barcelona e nas aglomerações entre 50.000 e 100.000 habitantes, embora suba para terceira força nas aglomerações com mais de 100.000 habitantes. O que contrasta com a vitória de Arrimadas em 20 das 23 cidades catalãs.

O que levou a esquerda, designadamente a socialista, a perder a onda do cosmopolitismo urbano? Urquizu avança com a tese da armadilha dos sentimentos de identidade. É discutível mas merece ampla reflexão. Estará a esquerda com algum apego identitário face ao cosmopolitismo no mundo a perder o pé, a ficar demasiado velha para compreender a organização do mundo não na base da separação e da identidade mas segundo uma perspetiva de maior superação de limites e barreiras culturais? Até aqui tenho pensado que é possível ter uma perspetiva crítica e reformista da globalização, não apagando identidades e não as exacerbando a ponto de cair na tentação do nacionalismo. Não tenho razões para duvidar fortemente dessa perspetiva. Mas o que reconheço é que ela pode ser politicamente inconsequente e tornar-se rapidamente minoritária. Os catalães urbanos que votaram Ciudadans terão talvez essa perceção. E a grande interrogação coloca-se: está o PSC a ser também descapitalizado a favor do Ciudadans ou é a parte nacionalista-independentista que não lhe perdoa hesitações e derivas? Aparentemente é a segunda variante que está a acontecer. Sempre é mais fácil combatê-la do que a primeira hipótese.

O problema é que não me sinto suficientemente sossegado com essa evidência.

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