sábado, 3 de novembro de 2018

AS POLÍTICAS DE COESÃO PERCEBIDAS PELOS CIDADÃOS (II)



(Mais alguns desenvolvimentos em torno do artigo de Roberta Capello e Giovanni Perucca de Novembro 2018 na Regional Studies, sobretudo do ponto de vista da operacionalização e medida dos conceitos apresentados. Matéria interessante anda por este artigo, com um elevado potencial de aplicabilidade.)

Vimos no post anterior que a abordagem se organizava em torno de dois conceitos fundamentais: o de sensibilidade, que mede a necessidade e desejabilidade de uma dada política e o de recetividade que mede duas coisas, o modo como a qualidade das instituições é percebida e a aceitação dos valores europeus. Ambos os conceitos apresentam uma dimensão objetiva e uma outra subjetiva. O que quer dizer que para a primeira dimensão será necessário conceber e calcular indicadores e que para a segunda teremos de recorrer a inquéritos de opinião (existentes ou expressamente realizados para o efeito). A tarefa é hercúlea pois não estamos a falar de indicadores globais para a política de coesão, mas antes para os domínios das políticas que a configuram (economia, de I&D, turismo, tecnologias de informação e comunicação, saúde, energia e ambiente e sociedade). Ou seja, muito trabalhinho pela frente.

Comecemos pela dimensão objetiva das reais necessidades das regiões.

Esta dimensão é talvez a mais elaborada e a que nos traz mais desafios e novidades. A conceptualização é relativamente simples. Numa dada região e para o recurso que estrutura o domínio da política de coesão (por exemplo, na economia, o investimento), a existência de necessidades reais convoca a comparação entre a oferta e a procura desse recurso. A existência de necessidades reais vem associada a um desequilíbrio entre oferta e procura potencial não resolvido por via do mercado. É importante notar que a procura é potencial e não a atualmente manifestada. Exemplos:

  • A dotação de TIC e de transportes assegurada pelo setor privado não é assegurada devido aos custos elevados que esse fornecimento implica: neste caso a necessidade real corresponde a uma insuficiência de oferta face à procura;

  • Na presença de externalidades negativas (poluição ambiental, por exemplo), a necessidade real corresponde a uma situação em que a oferta do recurso que gera a externalidade negativa excede a procura;

  • A oferta de políticas sociais é inferior à procura de apoios sociais.

A operacionalização desta abordagem passa sobretudo pela resolução dos problemas (sérios) de medida da procura potencial, já que para as variáveis de oferta a informação estatística existente resolve a contento o problema. A metodologia seguida por Capello e Perucca encerra alguma sofisticação, embora aparentemente a ideia de base seja simples. A oferta de um dado recurso numa dada região é entendida como diretamente dependente do conjunto das características da procura, por sua vez determinadas pelas características da Região. O desequilíbrio entre oferta e procura é medido por um fator de erro que representa a tal medida imperfeita das necessidades reais da Região. Esta abordagem tem que se lhe diga pois equivale a admitir que o modelo considerado consegue especificar todas as características relevantes da procura e que nada de relevante fica de fora. O artigo apresenta detalhadamente os indicadores de oferta e procura considerados para cada um dos domínios de política de coesão, o que constitui um auxiliar precioso para compreendermos as dificuldades da operacionalização.

Em matéria de medida das dimensões subjetivas, da perceção do que é que a Região necessita e da perceção da qualidade das instituições e aceitação dos valores europeus, Capello e Perucca baseiam-se fundamentalmente em inquéritos de opinião publicados. Para a perceção das necessidades das Regiões, os autores convocam o Eurobarómetro e sobretudo os resultados das questões colocados aos inquiridos sobre as prioridades de intervenção que as instituições europeias devem assegurar. Para ultrapassar a questão da representatividade regional (NUTS II) das respostas válidas, os autores trabalham várias edições do Eurobarómetro tentando obter essa representatividade. Apesar de todas as reservas que podem colocar-se aos indicadores objetivos, esta convocação do Eurobarómetro deixa-me pouco satisfeito, sobretudo atendendo ao facto de que as políticas de coesão não constituem o core desse inquérito aos Europeus.

Quanto à proximidade com os valores europeus, já me parece credível que o indicador utilizado seja o da percentagem de votos em partidos que não são eurocéticos. No que respeita à perceção da qualidade das instituições, os autores baseiam-se num estudo específico realizado pela Universidade de Gotemburgo em colaboração com a Comissão Europeia. O estudo mede a nível sub-nacional a qualidade percebida das instituições. Nada a opor.

Resumindo, embora a introdução na abordagem da perceção pelos cidadãos das necessidades das regiões penalize a consistência da abordagem dados os problemas de recolha de informação atrás assinalados, o estudo de Capello e Perucca vale sobretudo pelas pistas que traz ao desenvolvimento de estudos para grupos mais reduzidos de NUTS II sobre a perceção das políticas de coesão. Bastaria a tentativa para operacionalizar um modelo de medida de necessidades reais das regiões para justificar a valia que atribuo ao artigo.

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