segunda-feira, 12 de novembro de 2018

E AGORA, DEMOCRATAS?



(Em post anterior, dei conta que os resultados eleitorais obtidos pelos Democratas nas eleições intercalares americanas tenderão a exacerbar o debate entre progressistas socialistas e moderados. Houve vitórias e derrotas para todos os gostos. Mas há uma outra frente em que os Democratas precisam de clarificação urgente: que atitude e posicionamento assumir face ao estilo e ao modo de fazer as coisas de Trump?)

Ezra Klein, um dos mais perspicazes jornalistas americanos, conta no VOX (link aqui) que inquirições a votantes para a Câmara dos Representantes (vulgo Congresso), eleição que deu a vitória aos Democratas, permitiram concluir que: (i) a maioria dos votantes considera que a chamada investigação Mueller (de grande preocupação para Trump) tem mais motivos políticos do que justificação relevante; (ii) a maioria opõe-se a um eventual “impeachment”de Trump; (iii) 33% dos votantes considera as suas políticas imigratórias corretas, 17% defende que deveriam ser reforçadas e apenas 46% admite que Trump foi longe de mais. Estes números são impressionantes sobretudo porque se trata de votantes numa eleição que os Democratas ganharam com clareza.

O artigo de Klein desenvolve sobretudo duas atitudes predominantes (não necessariamente alternativas) que os Democratas poderão assumir.

Uma atitude possível é a do confronto e investigação direta ao mundo de irregularidades, falcatruas fiscais e comprometimento em processos pouco respeitáveis como a das ingerências russas nas eleições que o levaram à Presidência dos EUA. Este é o circo em que Trump se movimenta como peixe na água ou animal que não necessita de domador para as suas habilidades. Trump usa a velha tática de contrapor a uma denúncia de irregularidade ou de escândalo uma decisão ainda mais controversa e desregrada. Temos o exemplo do despedimento do Procurador-Geral Jeff Sessions e a sua substituição por um cão de fila e a cena da conferência de imprensa com a expulsão do jornalista da CNN com o desplante de publicação de um vídeo manipulado. Com isto terá conseguido abafar a sua derrota no Congresso. Os Democratas terão a tentação de utilização da sua maioria no Congresso para conduzir este combate, mas reduzir o seu posicionamento face a Trump a este comportamento dificilmente lhe trará grandes resultados. É nesse campo que o seu adversário gosta de jogar.

Klein apoia-se noutros observadores do comportamento de Trump para concluir que a sua principal incapacidade reside no entendimento das políticas públicas. Por isso, o grande desafio que os Democratas enfrentam é o de serem capazes de colocar na agenda política e mediática a questão de políticas públicas tais como, por exemplo, a expansão do Medicare. É nesse campo que Trump se movimenta mal, pois é impreparado e inculto e não domina a essência dos temas.

Terão os Democratas o talento para discernir entre estas duas atitudes e posicionamentos face a Trump, não abandonando o primeiro mas não se limitando ao combate num campo que o seu adversário domina melhor? Será que o combate interno entre o progressismo de pendor socialista e a moderação social-democrata perturbará essa lucidez de posicionamento?

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