Já era minha intenção dedicar o post de hoje à despedida presidencial de Joe Biden. Mas a realidade é que o que seria o essencial do meu argumentário surgiu tomado, com clara vantagem, pela magnífica crónica de Teresa de Souza (TS) no “Público” deste Domingo. Por tal razão, e porque o texto de TS não deixa de me parecer, ainda assim, excessivamente laudatório em relação a um mandato bastante positivo (Bidenomics, política externa e reposição de normalidade quanto ao lugar dos EUA no mundo, entre muitas outras vertentes relevantes e sendo que talvez seja correta a sensação de que “o seu legado é menor do que a soma de cada uma das partes” e de que a imagem de um “Presidente transformador” poderá ceder para a posteridade à de quatro anos que se saldaram por “um interregno entre dois mandatos de Trump”), limito-me aqui a um breve apontamento sobre as dimensões suscetíveis de serem consideradas mais polémicas da prestação de Biden.
Seleciono como mais elucidativos três tópicos principais: a retirada caótica do Afeganistão em início de mandato, a descuidada gestão política de como foi preparada uma eventual continuidade dos Democratas na Casa Branca e o perdão presidencial concedido ao filho Hunter em processos judiciais. O primeiro constituiu-se, objetivamente, numa falha que terá de ser assacada à vontade de sinalizar, sem apelo nem agravo, um caminho de mudança de política internacional que parecia assumido e consensualizado mas omitia ou desvalorizava dimensões importantes que não deviam tê-lo sido. O segundo ficou à vista na candidatura apressada de Kamala Harris (após o debate desastrado de Biden contra Trump), uma vice-presidente que teria tido em quatro anos de exercício todas as condições para ser projetada calma e seguramente não fora a contracorrente da entourage do presidente. Já o terceiro é mais discutível, na medida em que coloca nos pratos da balança o respeito inexorável pelos princípios contra a certeza de um adversário que subsequentemente iria proceder a práticas de vingança cirurgicamente dirigidas, um dilema que me faz considerar aceitável que Biden possa ter atuado com uma espécie de razoabilidade salomónica que a análise concreta da situação concreta lhe determinava.
A partir de hoje, Biden passa a ser uma página virada da vida política americana. Nela escreveu maioritariamente com letras de ouro, vistos o patriotismo e a dignidade com que desempenhou a sua função e a credibilidade reputacional que recuperou para o seu país. Um julgamento que me surge como incontroverso mas que terá necessariamente de ficar sujeito ao julgamento final da História.
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