sábado, 25 de janeiro de 2025

E COMO VAI A FRANÇA?

 


(A chegada de Trump ao poder ofuscou outras realidades seguidas neste blogue, algumas das quais não são menos importantes para o futuro da democracia no chamado mundo ocidental. É esse o caso do lio político em que a França está mergulhada. A pressuposta agilidade política de Macron ruiu como se de um baralho de cartas se tratasse. A esperada clarificação política que se esperava poder resultar da ida às urnas deu origem a um fracasso completo, que tem tudo para abrir caminho à chegada efetiva do Rassemblement National ao poder. Por sua vez, salvo coelho que salte milagrosamente da cartola, Macron agoniza num aparente corredor da morte política. Empertiga-se, por vezes, procura em sucessivos passes de mágica iludir as pessoas com a ideia de que controla o tempo político, mas só uma imaginação muito fértil consegue vislumbrar cenários de saída política que não passem pela abertura da porta da governação ao RN, ainda para mais num modelo possível de um Governo e de um Presidente, pois também não se vislumbra condições para um Presidente que reúna a esquerda ou de um Presidente que represente a barragem final à ascensão de Le Pen. O novo governo de Bayrouth aguarda paradoxalmente a confirmação da sua vulnerabilidade. À esquerda tudo como dantes. Mélenchon não desgruda do seu discurso impetuoso de sempre e não é homem de pontes, pois tende a dinamitá-las. O Partido Socialista pareceu poder recuperar com os resultados das últimas eleições, mas continua desaparecido, não diria em combate, mas de uma influência que se aproxime da que personalidades do passado como Rocard, Jospin e Hollande dos seus melhores tempos então exerceram. A pulverização de forças esquerdistas prossegue e os Verdes tardam em consolidar-se como força política capaz de impor “aggiornamentos” à esquerda com novos racionais …).

Este diagnóstico já é, por si só, suficientemente sombrio para justificar todas as preocupações. Mas, tal como gente da ciência política francesa o tem demonstrado com clareza, o impasse e desnorte das forças políticas está em profunda correlação com o que a sociedade francesa expressa.

A Sciences PO parisiense continua a explorar com sondagens permanentes o estado de alma da sociedade francesa e o que resulta dessa auscultação é a necessidade profunda da sociedade francesa se deitar no divã clínico e fazer análise, da mais competente que exista, se possível.

A sondagem resumida pelo diagrama que abre como imagem o post de hoje foi publicada no âmbito de uma crónica de Tony Barber no Financial Times e descreve-nos uma França particularmente desconfiada sobre o seu futuro e sobre a esperança a conceder à intervenção política, especialmente em comparação com países como a Alemanha, a Itália e a Polónia. E mostra-nos que a deriva política tem de ser compreendida no âmbito de algo mais vasto que fissura o capital social e a serenidade que está a minar a relação entre as forças políticas e a sociedade francesa. Variáveis como o nível de confiança, a serenidade, o nível de bem-estar e o medo apresentam em França valores desconcertantes, tanto mais estranhos quanto se sabe que o Estado social francês continua a manter comparativamente uma dimensão apreciável, não necessariamente extensiva a todos os segmentos da população.

A confiança dos franceses nas suas instituições políticas andava também pelas ruas da amargura (30% apenas confiavam nessas instituições pelas últimas sondagens disponíveis) e a confiança no Governo não era substancialmente mais elevada (34% apenas).

O que para um país em que o Estado social vai resistindo são valores de desconfiança que mostram que as instituições democráticas não estão a conseguir devolver aos cidadãos a confiança de outros tempos. É óbvio que as eras douradas dos anos 50 e início dos anos 60 são miragem do passado. Se pensarmos, porém, que aquilo que se passa em França não é substancialmente distinto do que se passa noutros países em que a extrema-direita se reforçou nos últimos tempos, temos aqui um bico de obra que dispensa recriminações mútuas e antes pactos alargados capazes de suster este plano inclinado.

Como se previa, 2025 anuncia-se como o ano das grandes decisões ou dos fracassos coletivos em democracia.
 

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