segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

E SE OS CHECK AND BALANCES NÃO FUNCIONAREM PORQUE AS PESSOAS NÃO OS VALORIZAM?

 


(Estou claramente deprimido com a situação internacional e, por isso, tenho feito das tripas coração para conseguir dar uma olhada às televisões e sentir o pulso ao comentário político mais representativo sobre o que ele pensa da deriva da sociedade americana que a eleição de Trump representa. A reação dominante à investida de Trump é curiosa e tudo se passa como se toda a gente tivesse virado diplomata, usando uma linguagem do tipo que é necessário não destruir os laços entre Portugal e os Estados Unidos, caso de Ventura, por exemplo, que é necessário esperar para ver, que o ego imenso e patológico de Trump fá-lo prometer mais do que irá na prática fazer e outras interpretações do género, procurando convencerem-se a si próprios de “que não vai passar nada”. Outros, por sua vez, libertam-se desinibidos e convencem-se que vai negociar tudo, prometendo benesses a quem seguir as suas propostas e combater duramente os que invoquem outros valores que não o do vil metal, bitcoins, e assim resolver problemas considerados complexos. Outros ainda, de pensamento mais elaborado, continuam otimisticamente a acreditar que os diversos checks and balances da sociedade americana serão capazes de suster as megalomanias narcísicas de Trump, ainda que reconhecendo que o domínio de Trump é avassalador, Congresso, Senado, Supremo Tribunal de Justiça, número de Estados em que ganhou e não ignorando ainda a mais que provável sanha persecutória de que as instituições mais progressistas vão ser alvo. É sobre esta questão dos checks and balances que gostaria hoje de refletir, a partir não de uma perspetiva institucional, mas antes a partir do princípio de que para funcionarem em toda a medida do seu potencial será necessário que haja população a reconhecer e a reclamar a sua importância. E aí começam as minhas dúvidas …)

Seguindo na esteira da intuição de Noah Smith, pode perguntar-se se a eleição de Trump se deve ao reaparecimento na sociedade americana de um outro modo de vida mais conservador ou se, pelo contrário, é por agora a expressão de uma rejeição, por vezes ríspida, do progressismo em todas as suas dimensões – cultural, estilo de vida, costumes e valores. Enquanto expressão de rejeição das elites e do seu confortável e desprendido way of life, o movimento global que levou Trump ao poder não é substancialmente distinto do populismo mais rançoso que tem prosperado também na Europa. Por agora, e nada impede que daqui a algum tempo tenhamos de corrigir a perspetiva, o que se vai manifestando e sustentando a ascensão de Trump é mais a rejeição do progressismo nas suas diferentes expressões do que propriamente o regresso a modos de vida mais conservadores.

Uma evidência que aponta para esta interpretação é a queda abrupta da influência da religião entre os americanos. Uma sondagem da GALLUP mostra que pertencer como membro a uma igreja abrange hoje menos de 50% dos adultos americanos (47%), quando essa percentagem atingiu no passado mais de 70%, com relevo para os anos 40. Sabemos que as convicções religiosas faziam parte intrinsecamente do modo de vida conservador de grande parte das famílias americanas. A não ser que consideremos a dependência das redes sociais uma nova forma, estranha, de religiosidade, não será pela religião que o conservadorismo de raízes antigas estará a instalar-se de novo na sociedade americana.

Uma outra evidência bastante ilustrativa do que vai grassando na sociedade americana é a evolução significativa de opinião que vai sendo registada em temas fraturantes de hoje, como é o caso da imigração considerada ilegal e de variantes em torno do tema.

A imagem que abre este post e que fornece algumas percentagens de opinião pública registada em sondagem do New York Times é, por si só esclarecedora: (i) 87% dos americanos apoia a deportação de imigrantes ilegais e com registos de criminalidade; (ii) 63% apoia a deportação de imigrantes ilegais chegados nos últimos 4 anos; (iii) 55% apoia a deportação de todos os imigrantes em situação ilegal; (iv) 41% rejeita a concessão de cidadania americana a filhos de imigrantes em situação ilegal; (v) 34% aceita o fim da proteção a imigrantes que eram crianças quando entraram ilegalmente no país. Não é difícil antecipar que a anunciada deportação em massa de imigrantes anunciada para o início da governação, com todos os atropelos que a medida implicará, não terá o eco de reprovação que admitimos ir acontecer.

A mesma sondagem revelou também uma generalizada reação ao movimento trans, neste caso não deixando de fora os próprios eleitores democratas. Duas simples percentagens ilustram o que pretendemos dizer: por um lado, 77% da população americana sustenta que se foi longe de mais na acomodação da população trans, subindo essa percentagem para 93% entre os Republicanos e, mesmo assim, 62% da população Democrata também o considera; por outro lado, 71% da população americana não aprova a utilização por menores das substâncias clínicas designadas de bloqueadores da puberdade. No mesmo sentido, poderíamos falar da translação da população hispânica e asiática nos EUA para o voto em Trump.
Tecnocratas digitais multimilionários e os mais ricos financiadores do movimento MAGA que se inscreve numa outra ordem de razões, assistem de cadeirinha e batendo palmas a esta rejeição de diferentes formas do progressismo, não estando agora em causa, essa é uma outra discussão, se as formas que esse progressismo tem revestido são ou não as mais adequadas.

Não sabemos se estará em formação uma nova forma de conservadorismo, indo além do que poderá ser entendida como uma rejeição do progressismo mais esquerdista. Certamente que os Democratas estarão a pensar nisso e, por isso, a moderação e o centrismo Democratas poderão ter uma palavra a dizer e quem sou eu para os contrariar.

Mas o ponto onde queria chegar era que o fenómeno dos checks and balances pode perder relevância se uma crescente massa de eleitores deles não necessitar ou não os valorizar. Nesse caso, eles tenderão a transformar-se em focos e capital de resistência para os que continuam a acreditar em valores mais progressivos. E não direi isso a pensar na elite mais abastada. Essa continuará nos seus núcleos isolados e autossuficientes, no seu próprio mundo. Estou antes a pensar nos militantes de base de todo o movimento associativo e cívico que não vende facilmente a alma ao diabo e que continuará a lutar pelos seus valores. A grande interrogação consiste em saber se no sistema judicial americano haverá ainda espaço e alma para proteger a defesa desses direitos, incluindo aqui também os ambientais, que serão sujeitos nos próximos tempos a uma onda desenfreada de desregulação.

Estou em crer que as cenas dos próximos capítulos serão inquietantes.
 

Sem comentários:

Enviar um comentário