domingo, 19 de janeiro de 2025

POR ONDE ANDA A SOCIEDADE CIVIL DO PORTO?

 

(Imagem que acompanha um dos artigos sobre o associativismo no Porto que me saltou de uma pesquisa rápida no Google)

(Lembro-me de no passado relativamente recente ouvir e eu próprio recorrer a esse argumento de que o Porto acolhia formas associativas de vida cívica e sobretudo cultural, em muitos casos combinada com a promoção da prática desportiva, que lhe asseguravam alguma resiliência quando às candeias avessas com os poderes públicos, nos tempos do consulado de Rui Rio, ou em épocas de austeridade, o financiamento público escasseava. Lembro-me também desse argumento ser invocado em confronto com os ambientes de Lisboa em que a dependência da bondade dos apoios públicos era mais significativa. Sem querer partir do princípio de que tal diferença se esfumou nos últimos tempos, não tenho evidência clara sobre isso e por isso não me atravesso por essa hipótese, tenho-me colocado a seguinte questão: por que razão essa capacidade endógena não se transmitiu a uma procura de candidato decente para a própria Câmara do Porto? Não pretendo com esta questão escarnecer dos nomes que se vão perfilando como possíveis candidatos, Pedro Duarte do PSD, Manuel Pizarro do PS e muito provavelmente Filipe Araújo pelas forças políticas que apoiaram Rui Moreira, mas temos de convir que o cenário não é entusiasmante. Não se vislumbra nenhuma dinâmica vinda do tal universo da sociedade civil mais profunda da Cidade, mas isso já esteve claro na eleição de Rui Moreira. Daí o título.)

Uma explicação possível para esse silêncio das bases mais associativas pode apontar para que as forças políticas do PS, do Bloco de Esquerda e do PCP tenham arregimentado parte dessa dinâmica que terá entendido que, afinal de contas, o tempo não estará para basismos, sendo melhor procurar a proteção de forças políticas com poder mediático já criado. O velho PSD arregimentaria ainda hoje, estou certo, alguns desses movimentos, mas o atual PSD perdeu essa matriz e não tenho evidência segura que o PSD do Porto seja substancialmente diferente do que Montenegro e seus pares está a recriar a nível nacional, não compreendendo que querer estar no meio de questões como a da xenofobia, insegurança e intolerância é objetivamente estar mais perto do Chega. Quanto à base das forças mais liberais, elas estiveram agrupadas em torno do movimento que elegeu Rui Moreira e que veio agora a público tentar o chamamento necessário para que Filipe Araújo, vice de Rui Moreira, venha a terreiro disputar o seu legado. Devo reconhecer que esta dimensão mais liberal do Porto, com raízes históricas relativamente progressistas na Cidade, foi a única que se conseguiu organizar fora do ambiente estritamente partidário e que, sobretudo na primeira eleição, Rui Moreira teve na campanha eleitoral uma capacidade inesperada de se aproximar de meios populares que eu próprio não lhe reconhecia.

Na campanha de Elisa Ferreira, que acompanhei em alguma medida, foi visível a presença de alguma dessa força associativa do Porto, mas as sucessivas entorses que o aparelho do PS colocou à campanha acabaram por não permitir dar continuidade a esse afloramento, entrando ele num novo afundamento de projeção da sua capacidade de intervenção popular em termos políticos.

Mais do que vinte anos passados da animação que a Porto 2001 gerou também nestes meios, a verdade é que não temos por agora uma caracterização sociológica e organizativa do que permanece após a austeridade da Troika, a pandemia e os últimos mandatos de Rui Moreira que, temos de reconhecer, não foram nem auspiciosos, nem amigos deste traço que julgávamos identitário da Cidade. Eu próprio sinto-me desprovido de informação capaz para refletir de modo mais estruturado. Sei, por exemplo, que lendo a descrição bastante pormenorizada que a edição de fim de semana do Diário de Notícias faz da relação tensa entre o Bolhão profundo e o executivo de Rui Moreira, designadamente da estrutura municipal que gere o espaço, senti o chão a fugir-me, sem informação de contexto credível para compreender a referida tensão.

Admito, assim, que nestes vinte e anos e picos o atrás mencionado movimento associativo e também de redes colaborativas informais no plano cultural e social esteja diferente, envelhecido, virado para si próprio ou seja para círculos cada vez mais reduzidos de intervenção ou arregimentadas pelas forças políticas representadas na Cidade. Se assim for, algo se perdeu e um pouco mais de entusiasmo pelas próximas eleições autárquicas no Porto seria algo de rejuvenescedor, de que a Cidade estaria a precisar. E que me desculpem os candidatos já perfilados. Não é por mal, mas o cenário que teremos pela frente é pouco entusiasmante.
 

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