domingo, 18 de agosto de 2013

COISAS (PREOCUPANTES) DOS STATES



Já aqui repetidas vezes invoquei a New Yorker como a minha revista de eleição, de leitura temporariamente em versão impressa (com chegada a casa sempre com algum atraso) enquanto que a recuperação de poupanças não dá para um novo Ipad que substitua o perdido/roubado. A leitura em Ipad é extremamente apelativa, pelo que o reencontro com aquele ícon será também um reencontro com a leitura digital da revista, já que, sabe-se lá porquê, a leitura no Portégé não dá o mesmo gozo.
O jornalismo de investigação da New Yorker é sobretudo notável pelas coisas desconhecidas e inesperadas que nos traz da sociedade americana, seja no plano militar e da defesa, seja no dos costumes e sobretudo no estado da democracia americana. O número duplo de 12 e 19 de agosto traz numa coluna chamada Reporter at Large um artigo preocupante sobre o estado dos direitos cívicos nos EUA intitulado “Taken” de autoria da jornalista Sarah Stillman.
O tema em inglês chama-se “civil forfeiture” e poderia ser traduzido muito livremente para português segundo a expressão “confisco civil”. De que é que se trata?
Trata-se da possibilidade legal exercida por alguns Estados e cidades americanas de confiscar bens móveis e imóveis de cidadãos com problemas potenciais com a justiça americana, incluindo tráfico de droga, branqueamento de dinheiro, desobediência civil continuada, roubo e outros delitos dessa natureza. O esquema permite às polícias dos referidos estados submeter os potenciais condenados à escolha de serem condenados ou de assinarem cedências de bens que substituam essa condenação.
A peça de Sarah Stillman documenta que as receitas conseguidas pelos Estados com este estratagema judiciário-policial é em alguns casos avultada e face às condições de penúria orçamental de alguns desses Estados, muitos deles têm sido ferozes adversários de medidas legislativas orientadas para uma defesa mais sólida dos interesses dos cidadãos atingidos pelas malhas dessa estranha legislação.
Mas a força da peça jornalística de Stillman tem que ver sobretudo com histórias de casos de cidadãos vulgares atingidos pela prepotência de algumas situações policiais orientadas para a caça ao confisco em circunstâncias de muito duvidosa proteção dos direitos de cidadãos. Hispano-latinos, população negra, idosos, gente classificada como propensa a situações de criminalidade sem prova demonstrada estão entre a gente concreta que passa pela reportagem e desfia as suas desventuras por passar pelo Estado errado no momento errado. Uma imagem algo aterradora da sociedade americana passa pela reportagem, embora o outro lado, que bem conhecemos, com os defensores independentes de gente indefesa a fazer o seu papel e a velar pelos seus interesses desprotegidos, também seja uma marca a ter em conta.

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