domingo, 25 de agosto de 2013

SIZA



Num fim de semana de modorra estival, trabalho fora de horas que baste e uma estranha falta de motivação para o blogue, esta última foi salva pelo gongue da entrevista de Siza Vieira ao 2 do Público de hoje. Tenho um fascínio estranho pelas entranhas e insondáveis questões do tempo, não só na economia, mas em todas as ciências sociais. Quando saboreava o pequeno almoço na frescura e silêncio de uma manhã de cidade em tempo de férias, o título da capa “O tempo é um grande arquitecto” reacendeu esse fascínio e a entrevista foi lida de um trago.
Foi necessário o 25º aniversário do incêndio do Chiado, o país adora efemérides, para a serena perspetiva das coisas do Arquiteto regressar ao centro das coisas e mostrar que um país que tem gente desta tenderá a sobreviver mesmo nos tempos mais difíceis. A entrevista é, além do mais, muito bonita, com esquissos inconfundíveis e alguns pormenores de fotografia que fala uma longa olhada. Destaco a que compara as ferragens anteriores ao incêndio com as que foram desenhadas por Siza Vieira e a minha interpretação de como o passado pode ser reinventado rende-se aquele ícone das preocupações mais securitárias.

Mas a entrevista é um prodígio de elementos de reflexão para os paradigmas da renovação urbana, não esquecendo que, como o próprio Siza o anota e bem, uma coisa é renovar e reinventar a partir de um incidente trágico como o do Chiado, outra coisa é fazê-lo por exemplo na Baixa lisboeta. Não terá sido por acaso que Siza recusou o convite de Jorge Sampaio para alargar a intervenção à Baixa lisboeta e Siza explica-o bem: questões de ritmo, de propriedade e de problemas sociais.
Um aspeto muito relevante da entrevista é a reabilitação que Siza faz da personalidade de Krus Abecassis, antigo presidente da Câmara de Lisboa sobre o qual recaiu centralizadamente o apoio permanente e muito próximo do projeto, com responsabilidade pela criação do Gabinete de Recuperação do Chiado. Mas há outros aspetos decisivos da recuperação que vale a pena incorporar: optar por negociar e não expropriar; construir uma passerelle elevada que permitiu continuar os trabalhos sem penalizar decisivamente o fluxo de população que demandava o Chiado regularmente, impedindo a morte do local e mantendo em permanências as expectativas da população sobre o que se passava ali; importância das âncoras “paragem de metro Baixa-Chiado” (“uma sorte, uma grande sorte”) e “centro comercial – FNAC” para com o tempo assegurar novas dinâmicas de fluxo de população, contrariando a anterior visão do Chiado morto depois das 19 horas.
E numa leitura incontornável, encontrei uma das melhores definições do que é um pastiche: “Pastiche é uma cópia fruste de uma coisa passada. Fruste em dois aspetos. Primeiro, porque não atinge a mesma qualidade. É preciso ver que as cabeças que pensam o que é novo não são exatamente iguais, aconteceu muita coisa no mundo. Mas também as mãos que executam e as respetivas cabeças são outras”. Uma ideia de grande alcance para a recuperação do património.

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