quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

TERMINOLOGIA PARA AS VICISSITUDES DA GLOBALIZAÇÃO

 


(Este passa por ser um dos temas quase recorrentes deste espaço de reflexão. Após um longo período de intensificação das condições de integração económica, financeira e humana internacional, que alguns autores como Brad DeLong integram num período mais vasto de 1870 a 2010, a globalização passa por vicissitudes sérias. Isto não significa que no seu período mais florescente estivesse isenta de derivas e desvios, dos quais provavelmente a não repartição equitativa dos seus benefícios e custos representa a manifestação mais importante. Mas, mais recentemente, o reconhecimento dessas vicissitudes atravessa o debate corrente sobre as saídas possíveis, ocupando nesse âmbito uma posição central. Tal como o já referi em alguns posts anteriores, não imaginaria de todo que, alinhando com as visões mais críticas do período mais florescente, estaria hoje do lado dos que pensa que recuar desordenadamente no processo de globalização equivalerá a danos irreversíveis para a economia mundial, sobretudo para as economias de menor dimensão e com mais baixo nível de desenvolvimento. Por isso, dedico hoje mais uma reflexão ao tema, concentrando-me no léxico de terminologias que têm sido propostas para descrever tais vicissitudes.

Um grupo de investigadores pertencentes ao quadro do Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de publicar um valioso trabalho de discussão interna e de avaliação crítica do periclitante estado da arte em que a globalização se encontra. Existe evidência de que o trabalho terá circulado pelos corredores de Davos. O estudo não tem propriamente nada de novo relativamente ao que diversos economistas de prestígio (Robert Baldwin ou Adam Tooze, por exemplo) já avançaram sobre o tema. Mas a sua leitura é obrigatória por vários motivos: (i) constitui um repositório de informação difícil de encontrar em fontes alternativas; (ii) concebe um relevante quadro de mecanismos através das quais os benefícios da globalização no passado terão sido observados e também por via dos quais os efeitos penalizadores do recuo da globalização irão provavelmente processar-se; (iii) concede especial atenção aos efeitos sobre o multilateralismo, o que é a mesma coisa que dizer sobre as transformações de geopolítica que a economia mundial está a atravessar. Não por acaso, já que remete para este último efeito, a reflexão do staff do FMI designa o processo atual de fragmentação geoeconómica, acrescentando assim ao já vasto conjunto de terminologias mais uma, esta talvez ainda mais expressiva do que as demais. De facto, expressões como “deglobalization” ou “slowbalization” limitam a sua descrição ao ritmo de integração económica. A fragmentação geoeconómica aponta baterias para o estado de organização da economia mundial, o que do ponto de vista do “que fazer?” e “como fazer?” para evitar o pior é bem mais aliciante.

A visão histórica de tempo longo de tudo isto continua a ser indispensável. O gráfico acima construído pelo staff do FMI sobre a evolução de tempo longo do grau de abertura da economia mundial é precioso pois recupera o “longo século” de Brad DeLong desenvolvido na obra já aqui referenciada “Slouching Towards Utopia”, identificando cinco grandes fases: (i) industrialização de 1870 a 1914; (ii) o período entre guerras de 1914-45; (iii) o período de Bretton Woods (estamos a precisar de algo similar mas faltam os vultos do pensamento como Keynes) de 1945-80; (iv) a fase da profunda liberalização de 1980-2008 e (v) o estado em que estamos da “globalização mais lenta” (Slowbalization). Não por acaso, o longo século de Brad DeLong acaba em 2010, porque depois, embora não seja propriamente o dilúvio, a verdade é que temos uma indeterminação tal que o debate interpretativo está longe de estar terminado.

O aumento prolongado do rendimento per capita tem como é conhecido consequências sobre a evolução da estrutura da procura, tendendo a determinar a queda do peso do consumo de produtos manufaturados (a globalização dos bens) e a terciarização da economia, com aumento do peso da produção e consumo de serviços no rendimento. A globalização até à crise de 2007-2008 adaptou-se a essa transformação estrutural através da mundialização dos serviços e não apenas do turismo como se sabe. A estimativa do staff do FMI aponta para que em 2022 cerca de 66% da população mundial seja utilizadora da internet, o que constitui um indicador fiável da imaterialização da globalização. Apesar dessa adaptação, a situação é de estagnação da abertura mundial e talvez valesse a pena avaliar em que termos a financeirização da economia mundial foi a grande responsável pela alteração do estado das coisas.


As perturbações disruptivas são de diferente teor e envolvem manifestações muito diversificadas: (i) interrupção das cadeias de valor globais, primeiro pelo efeito pandémico, depois pela invasão da Ucrânia pela Rússia, com efeitos prolongados, aos quais uma nova terminologia se tem adicionado, como “nearshoring” em vez de “offshoring” indiscriminado ou de “friendly-shoring” em vez de guerra comercial aberta; (ii) inúmeras formas de protecionismo do mais escancarado ao mais subtil, muitas vezes misturado com argumentos de segurança nacional; (iii) nacionalismo económico com tons mais ou menos populistas; (iv) sensibilidade crescente às desigualdades dos benefícios e custos da globalização, com retorno das ideias de que o “comércio pode fazer a guerra”; (v) fragmentação económico e retorno do regionalismo e dos grandes locos apagando o multilateralismo.

Tal como Adam Tooze o assinala (link aqui), falar de desglobalização ou de globalização mais lenta ou estagnada não é de facto a mesma coisa. Talvez a expressão mais recente do novo estado das coisas seja o Inflation Reduction Act de Biden (o IRA, que estranho acrónimo!) que mistura coisas como industrialização verde e comprar americano, enquanto hostiliza a China e procura reequacionar as cadeias de valor globais com o tal “friendly-shoring”. Como é óbvio, tanto mais persistente seja o IRA de Biden quanto mais reações de sentido similar irão produzir-se na economia mundial. Ou seja, á diversidade de choques que impactam a economia mundial (pandemia, guerra, sanções económicas, crise energética e inflacionária, manifestações populistas com impacto económico, entre outros) junta-se o do reposicionamento dos países em termos de política industrial.

Uma última nota para sublinhar que entre as razões mais poderosas para justificar a rapidez com que a globalização se intensificou a combinação entre abertura do comércio internacional e difusão do progresso técnico esteve na linha da frente. No seu reverso, obstáculos a essa abertura e entraves à disseminação do progresso técnico tenderão a alargar os efeitos penalizadores.

Um caso de estudo nos próximos tempos consistirá em acompanhar a experiência do que poderíamos designar de “substituição de importações com tecnologia regressiva”. Esse é o caso da Rússia, cujo esforço de guerra está a ser concretizado sem acesso às fontes de progresso tecnológico ocidental que a economia russa estava a utilizar. A dúvida aqui é a de saber se o embargo nessa matéria está a ser efetivo ou simplesmente cosmético. Se for efetivo, a Rússia constituirá o primeiro exemplo de economia que irá realizar substituição de importações em ambiente tecnologicamente regressivo. Outra dimensão relevante consistirá em analisar até que ponto a Rússia estará junto da China ou da Índia a superar tais dificuldades.

Moral da história: dificilmente a globalização será no futuro a mesma, o que não significa que desapareça ou que encolha. E novas terminologias irão emergir para descrever o estado da arte. Aliás, as terminologias evoluem, infelizmente, mais rapidamente do que o rigor dos conceitos.

 

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