terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

O QUE PENSA HABERMAS DE UM ANO DE AGRESSÃO RUSSA?

 

(Um ano e alguns poucos dias de invasão e agressão russas e de forte resistência ucraniana, agora que a guerra parece concentrar-se numa frente de cerca de 1.300 quilómetros, na região oriental de Donetsk e no sul da Ucrânia, tem sido tempo de sínteses, de revisão da matéria dada, mas com reduzidos pontos de interesse do ponto de vista da novidade das ideias e das análises. Poderá falar-se da mais recente interpretação fornecida pelo intelectual francês, Bernard Henry-Levy, que fala do, em seu entender, objetivo último de Putin, a destruição e enfraquecimento das democracias ocidentais, por ele identificadas como fonte da degenerescência dos valores. Mas o que me atraiu mais a atenção foi a defesa de Habermas do momento atual como a altura ideal para negociar a paz. Eu sei que Habermas é muito provavelmente o maior filósofo vivo e marca incontornável do pensamento contemporâneo, mas sinceramente não sei se compreendi bem o seu apelo publicado em alguns jornais europeus, do qual tomei conhecimento pela versão em castelhano publicada no El País no dia 19 de fevereiro de 2023, link aqui.)

O ponto de partida do controverso apelo de Habermas é o pedido realizado por Zelensky de fornecimento de tanques Leopard, a que se seguiram imediatamente outros pedidos, envolvendo aviões de combate, mísseis de maior alcance, barcos de guerra e submarinos. O absurdo da questão, diz Habermas, é que esses pedidos são simultaneamente dramáticos e compreensíveis dada a situação da Ucrânia vítima de uma agressão bárbara contrária ao direito internacional e que volta a querer impor pela força o redesenho das fronteiras no leste europeu. O filósofo alemão entende como sendo normal a vasta audiência e aceitação que esses pedidos despertaram no Ocidente e, já não à luz do seu pensamento mas da tese de Henri-Levy, quanto mais claro for a interpretação dos objetivos últimos de Putin focados na destruição das democracias ocidentais, mais provável será a aceitação generalizada das solicitações de defesa dos ucranianos.

Habermas chama a atenção para a progressiva disseminação, inclusive nas hostes do Partido Social-Democrata alemão, não propriamente no entorno próximo de Scholz, da ideia de que é necessário vencer o medo de derrotar Putin e a Rússia nesta invasão. Enquanto pacifista, embora reconhecedor da gravidade da agressão russa, Habermas interpreta a evolução da opinião política na Alemanha como um sinal do crescimento do pensamento mais belicista face a uma elevada percentagem de alemães com dúvidas sobre esse belicismo interno.

O que Habermas sustenta no seu controverso apelo é a convicção de que a justeza do princípio de que “a Ucrânia não pode perder a guerra” não deve ser justificação para não iniciar um esforço relevante e preventivo de início de negociações, por mais complexas e por agora indeterminadas que elas se apresentem. O absurdo da questão, e a guerra é sempre absurda, é que embora o ocidente tenha razões suficientemente fortes e justificadas para responder positivamente aos pedidos de ajuda dos Ucranianos, a verdade é que quanto mais relevante e avançado for esse apoio mais o ocidente se torna envolvido e co-responsável pelo curso da guerra e suas consequências de destruição.

É neste ponto que o apelo de Habermas se torna controverso e perigoso, já que rapidamente e se não estivermos atentos o argumento pode evoluir para uma forma de proteção desavergonhada do infrator Putin. Mas sou sensível à ideia de que a partir do momento em que a ajuda à Ucrânia começa a assumir variantes de fornecimento do material de guerra mais moderno, numa zona em que se torna difícil distinguir entre o que é material defensivo e ofensivo, o argumento de que o governo ucraniano deve ser o único a definir o calendário e o objetivo das possíveis negociações pode transformar-se num obstáculo sério a um mais rápido desenvolvimento de negociações.

Podemos chegar a um ponto em que o ocidente fique na difícil posição de considerar-se parte ativa na guerra ou de aceitar uma possível superioridade no terreno. E não estou a referir-me ao célebre artigo 5º da NATO, a propósito do qual se espera que a loucura de Putin não chegue ao extremo de atacar um país membro da NATO.

Habermas desenvolve o argumento de que o Ocidente tem os seus próprios e interesses e que por isso não pode entregar apenas ao governo ucraniano a responsabilidade do prolongamento da guerra com as consequências que isso acarreta. Começam aqui as minhas grandes dúvidas sobre o apelo de Habermas. Em primeiro lugar, são os Ucranianos que sofrem na pele as consequências da devastação da guerra, são que eles que morrem, que ficam sem as suas casas e com as suas Cidades destruídas e que são obrigadas à migração forçada. Comparar as atrocidades vividas pelo povo ucraniano geradas por uma invasão e agressão do exterior com as dificuldades indiretas do povo europeu é uma prova de mau gosto. Em segundo lugar, a evolução do pensamento de Putin, ou melhor, a sua mais completa explicitação pode aproximar irremediavelmente os interesses do Ocidente e dos ucranianos.

E, pior do que tudo, a evolução do conflito pode evoluir para um ponto de sem retorno de uma ajuda cada vez mais comprometida e avançada à Ucrânia. É que não sendo belicista ainda não pressenti a existência de qualquer via que, por mais remota que seja, explicite um racional de negociações de paz que não favoreça despudoradamente o infrator. E o apelo de Habermas não fornece também essa visão necessária. Limita-se a ser um apelo generoso, com alguma lógica e argumentação, mas inconsequente do ponto de vista do racional das negociações.

O que significa que nem os pensadores mais lúcidos conseguem nos fornecer uma perspetiva de esperança com alguma solidez.

Sem comentários:

Enviar um comentário