quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

ESTAR NO MAPA …

 


(É muito frequente tomar conhecimento de decisões europeias através de jornais espanhóis, o que pode ser considerado um indicador da indigência da informação europeia em Portugal, praticamente reduzida à incidência, quase sempre pelas piores razões da execução, ver meu post mais recente sobre a matéria. Neste caso, é a VOZ DE GALICIA a dar conta da decisão da Comissão Europeia de incluir a ligação Corunha-Vigo nas 10 ligações ferroviárias transfronteiriças que serão por ela apoiadas. Os jornais galegos têm concedido a este tema nos últimos meses uma especial atenção, sob o enquadramento do chamado Corredor Atlântico, no âmbito do qual as Comunidades Autónomas da Galiza, das Astúrias e da Cantábria se têm movimentado em frente comum para que o Governo de Madrid consagre uma posição mais clara a esta matéria, rompendo de vez com as interrogações, contradições e atrasos que o Corredor Atlântico tem suscitado.

 

Diga-se, de passagem, que também não foi fácil nem intuitivo encontrar a decisão da Comissão Europeia que serve de base à notícia da VOZ. Depois de alguma pesquisa lá encontrei a fonte que é uma comunicação da Comissária Europeia dos Transportes Adina Vălean (link aqui). A notícia envolve a decisão de apoiar 10 projetos piloto de novos ou melhoria dos serviços existentes a nível ferroviário, destinados a melhorar as ligações ferroviárias transfronteiriças. Palavras da Comissária: “Enquanto a procura da mobilidade verde está a aumentar, precisamos que o mercado ferroviário responda melhor e mais depressa, especialmente no que respeita às travessias transfronteiriças mais longas. Essa é a razão pela qual a Comissão Europeia quer agora ajudar as companhias ferroviárias a criar ligações internacionais de caminho de ferro – dia e noite- quebrando as muitas barreiras às ligações transfronteiriças. Vou trabalhar com o setor ferroviário para fazer destes 10 projetos piloto um sucesso e inspirar que muitos outros se juntem ao processo”.

Estas coisas demoram o seu tempo e a comunicação agora realizada concretiza um plano de ação que data de 2021 destinado a impulsionar ligações transfronteiriças ferroviárias de longa distância, integradas na Rede Transeuropeia de Transportes (TEN-T) e envolvendo o Banco Europeu de Investimento (BEI) no financiamento dos investimentos necessários.

A novidade da questão reside no facto de às ligações no território ibérico, Lisboa-Corunha e Lisboa-Madrid vir associada uma empresa privada ILSA (agora IRYO) que já opera em Espanha no transporte ferroviário de alta velocidade. Esta questão ainda tem sido menos discutida do que as próprias ligações e desconheço de que maneira o operador IRYO irá articular-se com a CP para operar em território nacional.

Se me projetar no passado em que do ponto de vista profissional comecei a mexer com estas questões compreendo rapidamente que a inércia destes processos é exasperante. Por cá, foi no tempo do ex-ministro Pedro Nuno Santos que se deu o “golpe de teatro” (para muitas cabecinhas lisboetas, entenda-se) da ligação Lisboa-Vigo-Corunha ser colocada pelo menos (senão mais importante) ao nível da prioridade da Lisboa-Madrid. Afinal, tudo resultava do facto do TGV Vigo-Madrid estar aí à porta e por isso ser mais pragmático Portugal começar por ligar-se à Europa através da ligação Vigo-Madrid, abrindo novas perspetivas a Terras de Trás-os-Montes, sobretudo Bragança.

A decisão da Comissão Europeia de colocar no mapa dos 10 projetos pilotos que vai apoiar o Corunha-Lisboa e o Lisboa-Madrid pode constituir a desejada aceleração do projeto que se pretendia alcançar. A minha interrogação situa-se no tipo de posição diplomática que Portugal vai assumir neste processo: apoiar-se na ajuda que as Comunidades Autónomas da Galiza, Astúrias e Cantábria dão ao processo, puxando pelo Corredor Atlântico e contrariando a inércia continental e madrilena do governo de Sánchez ou ceder à pretensão madrilena de remeter para as calendas o Corredor Atlântico, favorecendo obviamente a ligação Lisboa-Madrid? A posição do governo de António Costa foi bem clara de afirmar a prioridade do Lisboa-Porto-Vigo, apostando aliás no tramo inicial Braga-Vigo. Voltar atrás nessa opção seria o descrédito regional deste Governo.

Estar no mapa ajuda, mas não é uma condição suficiente. O facto de se tratar de 10 projetos piloto aos quais a Comissão Europeia através do BEI concede o seu apoio é essencial para desbloquear a inércia observada, com relevo para a construção do túnel a sul de Vigo que permitiria uma melhor conexão com a ligação a Braga.

Que me perdoe o Círculo de Estudos do Centralismo mas esta questão é bem mais estratégica do que o debate sobre a Linha de Alta Velocidade Porto-Zamora-Madrid no âmbito da Consulta Pública 2022-2023 da Rede Ferroviária Nacional.

Nota final:

 A ligação do Corredor do Atlântico parece estar embruxada. O mapa publicado pela Comissão Europeia situa a Corunha no lugar de Vigo, quando a ligação é de facto entre Lisboa e a Corunha. O erro deve ter resultado da maior notoriedade das reivindicações quanto ao Porto-Vigo, mas sem dúvida que o mapa está errado. Dispenso-me de mencionar os chistes que o erro está a suscitar na Galiza, sempre atenta e reativa a estas coisas.

Sem comentários:

Enviar um comentário