segunda-feira, 31 de maio de 2021

A CORRESPONDÊNCIA INTELECTUAL DE CELSO FURTADO

 

(Celso Furtado e o Brasil estão na confluência de uma das grandes contradições da minha formação, essencialmente auto, em economia do desenvolvimento. Se há país em concreto que mais tenha estudado nesse processo de acumulação de conhecimento é seguramente o Brasil e nunca tive oportunidade de o visitar. A publicação da correspondência intelectual de Celso Furtado entre 1949 e 2004 pela mão e sensibilidade inultrapassáveis de sua mulher Rosa Freire d’Aguiar pela editora brasileira COMPANHIA DAS LETRAS faz-me mergulhar num tempo de formação que me deixou largas saudades e perceber a ambiência intelectual de elevado nível em que Celso Furtado se movia.)

Acabo de receber o livro e por isso ainda não tenho ainda investimento de leitura suficiente para me abalançar a uma visão mais abrangente da correspondência. Quando pelo Facebook de Rosa Freire d’Aguiar, que tive o extremo prazer de conhecer em Serralves numa apresentação que fiz de um livro póstumo de Celso Furtado em que ele escreve sobre a sua experiência como ministro da Cultura (por convite do saudoso Artur Castro Neves), tomei conhecimento do livro, troquei umas saudações com a organizadora e percebi que estava ali material de grande relevo, sobretudo a correspondência com Alfred O. Hirschman (um dos patronos deste blogue), mas também de Raúl Prebisch, o primeiro a estudar profundamente como economista o conceito de centro-periferia, Nicholas Kaldor, Fernando Henrique Cardoso, Maria da Conceição Tavares, Francisco Oliveira, Florestan Fernandes e tantos outros. Relembrar estes nomes é para mim percorrer a memória de tantas horas de leitura na FEP e em casa, sobretudo em torno do que Fernando Henriques Cardoso cunhou de “análises concretas de situações concretas de dependência”. Afinal a matéria nunca por ninguém totalmente resolvida da causalidade interna e externa do (sub)desenvolvimento. Mas já nesse tempo se percebia a reverência profunda pelo que Celso Furtado tinha iniciado. Acho que isso não está estudado por ninguém, mas intuo que a publicação em português pela Dom Quixote do hoje esgotadíssimo Teoria e Política do Desenvolvimento Económico tenha deixado marcas para sempre em quem mergulhou na sua leitura.

Quando a Amazon me fez surpresa de galgar o Atlântico num ápice e me trazer o livro (caríssimo) bem mais depressa do que o esperado, fui a quente direitinho às cartas trocadas entre Hirschman e Furtado. O contacto começou em 1960 quando Celso Furtado dirigia a Sudene e Hirschman se mostrou interessado pela experiência de planeamento e de abordagem ao subdesenvolvimento do Nordeste brasileiro. Andarilho do desenvolvimento e do subdesenvolvimento, sempre focado na identificação de sequências aparentemente pouco canónicas de superação do subdesenvolvimento, Hirschman visitou o território, claro que lhe soube a pouco para perceber a dimensão integral do subdesenvolvimento histórico do Nordeste e por isso manteve uma longa correspondência com Celso Furtado não só aquela região, mas também sobre a evolução da própria situação política brasileira até ao malfadado golpe militar de 1964. Hirschman intuía perfeitamente que precisava da sabedoria global, histórico-económica, de Furtado para compreender as razões daquela situação concreta.

Com a devida vénia ao contributo enorme que a edição de Rosa Freire d’Aguiar para a compreensão da evolução da própria economia do desenvolvimento com esta sistematização da correspondência intelectual de um dos seus mestres (que espero venha a ser distribuída em Portugal), fica-me na memória esta preciosidade de Hirschman dirigida a Celso Furtado:

(…) Precisamos de uma análise do que deu errado, quando e porquê. Por que as forças da extrema esquerda na América Latina são tão perdidamente dogmáticas? Por que elas se tornam tão facilmente, e tão depressa, superconfiantes depois dos primeiros sucessos, pensando que podem tratar qualquer pessoa como um bloco reacionário e irremediavelmente equivocado? Por que são tão incapazes de analisar ou perceber as verdadeiras relações de poder? Por que se tornam mais irresponsáveis quando conquistam um pedaço de poder, em vez de ficarem menos, como em geral seria de esperar? Por qur se comportam tão provocativamente em relação a seus inimigos enquanto dificilmente tomam alguma medida destinada a reduzir sua base de poder real? Por que são tão corruptíveis como você mesmo apontou? Quase que parece que devêssemos acrescentar, ao desejo de morte de Freud um “desejo de derrota” profundamente entranhado, que parece ser prevalente entre as forças de esquerda. Posso pensar em várias hipóteses por que seria assim, mas primeiro o fenômeno precisa ser inteiramente descrito e assimilado. Você, Celso, pode dar uma contribuição única para essa tão necessária autocrítica e espero muito que você o fará” (Obra citada, página 263).

Infinitamente grato, Rosa Freire d’Aguiar, por esta profunda arqueologia do saber em torno do desenvolvimento.

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