sábado, 8 de maio de 2021

DOIS NÚMEROS REDONDOS

 

(Os dois números são: 700, edição de maio de 2021 da DIAPASON e 80, a idade atual da minha diva do piano, Martha Argerich. E para festejar esta conjunção dos astros, ou de coisas que me são próximas, nada melhor que, com a compra da revista, termos acesso gratuito a um memorável LES INDISPENSABLES DE DIAPASON, nada mais nada menos do que as primeiras gravações da diva argentina nos seus fulgurantes 20 anos com que emudeceu o júri do concurso Chopin em Varsóvia.)

Tudo isto é companhia de uma tarde soalheira em Seixas, esperando a mais que provável chuva de amanhã, em diálogo com um copo de néctar Soalheiro, para celebrar o terroir, sem deixar de estar atento a outros Alvarinhos que vão nascendo por aí, alguns de excelente qualidade (atenção às Terras de Basto).

80 anos é uma idade bonita, ilustrada por aquela longa cabeleira em grande medida branca com que Martha Argerich se apresenta por estes dias. É deveras impressionante a coerência da sua carreira e sobretudo a sua permanente luta pela divulgação de músicos mais jovens, que os já célebres encontros musicais de Lugano. O que eu corri pela possibilidade de um espetáculo ao vivo, para sentir a força da personagem. Não foi em Lugano, o que seria ouro caído do céu mesmo que tivesse de comprar um smoking, mas foi em Lisboa na Gulbenkian há dois anos. Como é sabido, Argherich deixou de tocar sozinha num palco, sabe-se lá a razão e passou a tocar seja com orquestra, seja a quatro mãos. Em Lisboa, via-a com Stephen Kovacevich, um dos homens da sua vida e nos últimos tempos tem tocado também com Maria João Pires, o que deve ser um prodígio de sensibilidade e virtuosismo.

O Indispensável da revista que tem compensado a minha ausência de formação musical na idade certa é uma preciosidade, pois regista parte das primeiras gravações de Argerich. Obras que não é fácil encontrar no reportório posterior da diva: uma Toccata de Schuman, a Rapsódia Húngara nº 6 de Liszt, o Scherzo nº 3 de Chopin, o tocante concerto para piano nº 21 de Mozart, a Sonata op.10 nº 3 de Beethoven e um esfuziante Estudo op.10 nº 1 de Chopin, do qual jorra virtuosismo e que fará depois história no Concurso Chopin de Varsóvia.

O confronto das duas fotografias de Martha, a dos early years, onde a pianista parece projetar-se num futuro que seria risonho e a da fotografia em que respira serenidade e um olhar ainda vivo e sedutor é uma boa metáfora de uma viagem por tantas décadas.

Como costumo dizer, uma preciosidade e esta por oito euros apenas.

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